
Jeff Bezos promove demissões em massa no Washington Post, afetando um terço da equipe e gerando protestos. Foto: Participante do comício “Salve o Post” segura cartaz em frente à sede do jornal – NewsGuild-CWA
WASHINGTON (EUA) — O bilionário Jeff Bezos, um dos homens mais ricos do mundo, promoveu uma das maiores demissões da história recente do jornal estadunidentes, The Washington Post. No início de fevereiro, pelo menos um terço da equipe da redação foi dispensado, em uma decisão que esvaziou setores inteiros do jornal e provocou protestos de trabalhadores, sindicatos, leitores e parlamentares.
As demissões ocorreram no dia 3 de fevereiro, após uma reunião geral seguida do envio de e-mails de uma única linha, informando quem poderia “ficar” e quem deveria deixar a empresa. Seções tradicionais do jornal foram simplesmente eliminadas, como Esportes, Estilo e Livros. A cobertura local de Washington, D.C., já limitada, corre risco de desaparecer. O jornal também deixou de cobrir os Jogos Olímpicos de Inverno.
No plano internacional, o impacto foi ainda mais profundo: toda a equipe do Oriente Médio foi demitida, incluindo o editor sediado no Cairo que cobria a ofensiva militar de Israel contra Gaza. Repórteres responsáveis pela cobertura da guerra entre Rússia e Ucrânia e de outros conflitos globais também foram dispensados.
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Mudança editorial e crise fabricada
Segundo reportagem do People’s World, os cortes são o capítulo mais recente de um processo de desmonte editorial iniciado em 2024, quando Bezos contrariou o próprio conselho editorial e retirou o apoio do jornal à então candidata democrata à presidência, Kamala Harris. Desde então, as páginas de opinião passaram por uma guinada à direita, com ênfase na defesa do “livre mercado” e abandono de posições sociais-democratas, liberais e progressistas que historicamente marcaram o Post.
Bezos alega que o jornal enfrenta dificuldades financeiras. No entanto, essa justificativa vem sendo amplamente contestada. Analistas da MSNBC apontaram que apenas 0,5% da renda anual de Bezos seria suficiente para manter o jornal funcionando por pelo menos cinco anos.
A senadora democrata Elizabeth Warren também criticou duramente a decisão. Em publicação nas redes sociais, afirmou:
“Jeff Bezos acaba de demitir centenas de repórteres do Washington Post — incluindo o jornalista que cobria a própria Amazon. O patrimônio de Bezos é de cerca de US$ 250 bilhões.”
Alinhamento político e reação sindical
Para parlamentares e organizações sindicais, as demissões refletem um alinhamento crescente de bilionários aos interesses do governo Trump. O deputado democrata do Texas Greg Casar afirmou que Bezos “demite repórteres que contam os fatos enquanto transforma o conselho editorial em uma voz a serviço dos bilionários”.
O Sindicato dos Jornalistas de Washington-Baltimore e o Sindicato dos Jornalistas de Tecnologia dos EUA, que representam trabalhadores da redação, do setor digital e da tecnologia, denunciaram que a direção do jornal não apresentou qualquer plano estruturado de recuperação, optando apenas por “cortes, cortes e mais cortes”.
No dia 5 de fevereiro, os sindicatos organizaram o protesto “Salve o Post”, em frente ao escritório do jornal em Washington, D.C. A manifestação reuniu trabalhadores, leitores e representantes de movimentos sociais em defesa do jornalismo e dos empregos.
“Decisões que enfraquecem os trabalhadores enfraquecem a missão do Washington Post. Defender os empregos é defender o direito do público à informação”, afirmou o sindicato em nota.
“Destruição de marca autoinfligida”
O ex-editor do Post Martin Baron, que comandou o jornal no início da gestão Bezos, classificou a decisão como um “estudo de caso de destruição de marca quase instantânea e autoinfligida”, em declaração à Associated Press.
Os efeitos do esvaziamento já são visíveis na edição impressa. Em um exemplo recente, o jornal circulou com apenas três seções principais, sendo uma delas composta quase integralmente por anúncios de vendas judiciais, evidenciando a perda de densidade editorial.
Para Jon Schleuss, presidente do NewsGuild, as demissões são “vergonhosas” e revelam o papel da elite econômica no enfraquecimento da democracia.
“Bilionários só ficam ricos roubando de nós. Precisamos responsabilizar o poder”, afirmou durante o ato.
Jornalismo sob ataque
Repórteres que permaneceram no jornal relataram ao People’s World um clima de desolação e indignação. A jornalista e dirigente sindical Sarah Kaplan afirmou que não existe justificativa jornalística ou comercial plausível para o corte em massa.
“Nós fizemos nosso trabalho. Eles não fizeram o deles”, disse.
O desmonte também reacendeu críticas sobre censura interna. A ex-colunista Karen Attiah, demitida anteriormente, afirmou que Bezos, que no passado condenou o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi, hoje “está massacrando o próprio jornal”.
As demissões no Washington Post ganharam repercussão internacional, com cobertura de veículos como USA Today, além de emissoras da BBC, da França, da Suíça e de outros países.
Para sindicatos e movimentos democráticos, o caso ultrapassa a questão trabalhista e se insere em um cenário mais amplo de ataque à liberdade de imprensa, concentração de poder econômico e erosão da democracia nos Estados Unidos.
“O futuro do Washington Post é vital para os leitores e para todos que acreditam que os fatos ainda importam”, afirmaram os sindicatos. “Se Jeff Bezos não apoia mais essa missão, o jornal merece outro gestor.”
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