PUBLICADO EM 11 de jul de 2020
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A força da poesia para vencer o medo e a escuridão

Ceumar, cantora, compositora e instrumentista brasileira

Por Marcos Aurélio Ruy

O “Samba da Utopia”, do compositor capixaba Jonathan Silva, encerra esta seleção musical porque dá uma injeção de ânimo à reação ao obscurantismo que se instalou no Palácio do Planalto, em Brasília, desde o ano passado. “Se o mundo ficar pesado, eu vou pedir emprestado a palavra poesia”.

Na época da ditadura (1964-1985), Geraldo Vandré cantou “pelas ruas marchando indecisos cordões” e “ainda fazem da flor seu mais forte refrão e acreditam nas flores vencendo o canhão”. Não venceu naquele ano. Demorou um pouco porque além das palavras são necessárias ações e consciência de quem precisa lutar contra a opressão para saber que é possível construir o novo.

Mas poetas têm as palavras como a sua arma contra tudo o que tenta tornar a vida insuportável. No caso de compositores, a palavra cantada, com uma força fantástica na música popular brasileira para conquistar corações e mentes sobre o mundo que queremos legar para quem vier depois

Essa música hino tem a companhia da força poética do carioca Vinicius de Moraes (1913-1980), do paulista Arnaldo Antunes, do som pop da carioca Anitta e do sambista mineiro, Geraldo Pereira (1918-1955).

Vinicius de Moraes

Como um dos nomes mais importantes da bossa nova – movimento que transformou a música popular brasileira entre os anos 1950-60 – e um dos maiores poetas brasileiros, Vinicius de Moraes é referência obrigatória para quem deseja saber mais do Brasil e dos brasileiros.

Uma lembrança fundamental, principalmente porque nesta quinta-feira (9) completou 40 anos que o “poetinha” se foi pouco antes de completar 67 anos. Para entender o valor de sua obra, basta lembrar que Vinicius foi uma forte influência na obra de Chico Buarque.

Ouça com atenção “Como É Duro Trabalhar”, feita em parceria com o paulista Toquinho, constituindo uma dupla de compositores das mais profícuas da MPB.

“Achei a terra, vi a casa

Só faltava capinar

Mas sem o colo da morena

Quem sou eu pra me abusar”

 

Como É Duro Trabalhar (1974), de Vinicius de Moraes e Toquinho

 

Arnaldo Antunes

Com um dos integrantes do grupo Titãs nos anos 1980, Arnaldo Antunes já se apresentava como um grande poeta, às vezes minimalista, outras nem tanto. Mas a sua palavra cantada ou simplesmente escrita nos remete a profundas reflexões sobre a vida, o mundo, as relações humanas.

Em sua carreira solo, a partir de 1992, vem se destacando como um dos mais importantes compositores e cantores do país mais voltado ao rock. Tanto que volta e meia faz parte dos tribalistas ao lado da carioca Marisa Monte e do baiano Carlinhos Brown, aparentemente nada a ver um com o outro, mas em seus trabalhos juntos produzem obras incríveis.

Sua canção “Disneylândia”, gravada pelos Titãs, é profundamente atual neste mundo globalizado onde predomina a exploração do capital sobre o trabalho e a opressão sobre a vida humana.

“Pilhas americanas alimentam eletrodomésticos

ingleses na Nova Guiné.

Gasolina árabe alimenta automóveis

americanos na África do Sul.

Pizza italiana alimenta italianos na Itália.

Crianças iraquianas fugidas da guerra não

obtêm visto no consulado americano do Egito

para entrarem na Disneylândia”

 

Disneylândia (1993), de Arnaldo Antunes

Anitta

Larissa de Macedo Machado, Anitta transformou-se num dos principais nomes da música pop do Brasil. Ganhou destaque internacional ao cantar a liberdade sexual e o direito de todas as pessoas serem felizes. Bem afeita à sua geração, em “Meiga e Abusada” fala da mulher na resistência ao patriarcado para se impôr.

“Eu posso conquistar tudo que eu quero

Mas foi tão fácil pra te controlar

Com jeito de menina brincalhona

A fórmula perfeita pra poder te comandar”

 

Meiga e Abusada (2012), de Anitta

Geraldo Pereira

O sambista mineiro Geraldo Pereira, que adotou o Rio de Janeiro, se transformou num dos mais importantes nomes desse gênero musical genuinamente brasileiro. Ao participar ativamente nas rodas de samba no Morro da Mangueira, aprendeu a tocar violão com Aluísio Dias e Cartola.

Muito próximo da “malandragem” morreu muito jovem ao não resistir a uma briga de bar. Deixou canções importantes para o acervo da música popular brasileira, como “Acertei no Milhar”, em parceria com outro grande sambista, Wilson Batista (1913-1968) e gravada por Moreira da Silva (1902-2000), o nome mais importante do samba de breque.

“- Etelvina, minha filha!

– Que há, Jorginho?

– Acertei no milhar

Ganhei 500 contos

Não vou mais trabalhar

E me dê toda a roupa velha aos pobres

E a mobília podemos quebrar

Isto é pra já

Passe pra cá”

 

Acertei no Milhar (1940), de Geraldo Pereira e Wilson Batista; canta: Moreira da Silva

Jonathan Silva

Nascido em Vitória, capital do Espírito Santo, Jonathan Silva escolheu São Paulo para viver e emocionar o país com suas canções. O “Samba da Utopia” se transformou em um canto de resistência.

“Acho que o Samba da Utopia acabou virando um alento pros nossos corações. Estamos cansados desse discurso de ódio, de preconceito. A poesia é uma ferramenta pra encararmos esses tempos sombrios. Vou me armar de poesia até os dentes”, afirmou em uma entrevista. Nesta canção é acompanhado pela cantora mineira Ceumar.

“Se o mundo andar pra trás

Vou escrever num cartaz

A palavra rebeldia”

 

Samba da Utopia (2018), de Jonathan Silva; canta com Ceumar

 

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