PUBLICADO EM 13 de out de 2025

A estética de extrema direita do regime Trump

A estética de extrema direita sugere opressão através do design de grandes edifícios. Confira a interessante análise de Alex Petrongelli.

Estética de extrema direita em monumentos modernos: o edifício Burj Khalifa e o Trump Hotel.

Estética de extrema direita em monumentos modernos: o edifício Burj Khalifa e o Trump Hotel.

Por Alex Petrongelli

Em um recente tour de arquitetura em Chicago, soube que Adrian Smith, o arquiteto do Burj Khalifa em Dubai, também foi responsável pelo projeto do Trump Hotel na cidade. O guia mencionou isso quase de passagem, mas imediatamente comecei a conectar os dois: ambas as torres foram projetadas para esmagar, para igualar tamanho à importância e para fazer com que o indivíduo (cuja exploração tornou possíveis esses monumentos) se sinta pequeno e impotente.

O Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo, se eleva a tal ponto que apaga da vista as sepulturas dos escravizados que construíram a cidade ao seu redor. O Trump Hotel, com seu tamanho imponente e o enorme logotipo “Trump” estampado em sua fachada de vidro, apresenta uma imagem de poder, riqueza e permanência.

Examinar a estética da extrema direita vai além de simplesmente categorizar tropos visuais ou condenar o “mau gosto”. A imagem reacionária atua como uma pedagogia da percepção, não por meio da comunicação, mas da ordem. Ela tenta treinar o público na maneira “correta” de perceber o mundo e medir a importância através de:

  • Espetáculo (a encenação de grandes exibições para comandar a atenção),
  • Monumentalidade (o uso do tamanho para projetar autoridade) e
  • Repetição (a recirculação esmagadora de ideias e frases) são suas ferramentas mais cruciais para encenar a nova realidade como algo natural e inevitável.

Juntas, elas redefinem “brilho” como substância e “tamanho” como poder, ao mesmo tempo em que desviam a atenção das condições materiais em deterioração e convencem o público de que está sendo feito um verdadeiro progresso.

Nazifascismo

Essa lógica não é nova. Benito Mussolini, o pai do fascismo, usava bustos gigantes de si mesmo como propaganda para projetar uma imagem de onipresença e autoridade. Adolf Hitler contratou arquitetos para projetar estruturas massivas que afirmavam a ideologia nazista por meio da escala e da uniformidade.

Arquitetura nazista: A tribuna do Zeppelinfeld em Nuremberga, onde era realizado o congresso anual do NSDAP.

Arquitetura nazista: A tribuna do Zeppelinfeld em Nuremberga, onde era realizado o congresso anual do NSDAP, em 1942.

Em ambos os casos, as escolhas de design foram intencionalmente feitas para anestesiar a interpretação e ensinar os espectadores a sentir sua própria insignificância diante da autoridade.

Hoje, o regime Trump depende das mesmas estratégias estéticas, embora adaptadas a um império neoliberal em decadência (e, sejamos francos, em uma forma barateada e simplificada). Com Trump, tudo é sempre “o maior” e “o melhor”.

Confundir devastação com vitória

Tomemos, por exemplo, seu “Grande e Belo Projeto de Lei” (Big Beautiful Bill). O próprio nome serve como distração. A lei é devastadora para os americanos: corta recursos do SNAP e do Medicaid, enquanto financia reduções de impostos para os ricos. Mas, ao enquadrá-la como monumental, a base de Trump é enganada a apoiá-la e a confundir devastação com vitória.

No exato momento em que serviços sociais estão sendo retirados de milhões de americanos, o regime anunciou seus planos de construir um salão de festas de US$ 200 milhões para a Casa Branca, um projeto monumental de vaidade feito para impressionar.

Espetáculo e monumentalidade são utilizados não para oferecer melhorias materiais, mas para desviar a atenção das crises de pobreza, dívida e colapso social com brilho e escala.

Uso da IA

Diferente dos regimes do passado, os reacionários de hoje têm acesso a um meio particularmente perigoso: a inteligência artificial generativa. Agências do governo dos EUA, assim como o próprio presidente, vêm inundando a internet com propaganda produzida por IA. O foco é demonizar aqueles que a direita escolheu como inimigos (imigrantes, palestinos, pessoas trans etc.), ao mesmo tempo em que cultua Trump e seu regime.

Recentemente, Trump postou no Truth Social uma imagem que dizia: “Adoro o cheiro das deportações pela manhã. Chicago está prestes a descobrir por que se chama Departamento de GUERRA.” A publicação veio acompanhada de uma imagem gerada por IA mostrando Trump ajoelhado diante de um horizonte em chamas, com helicópteros militares sobrevoando, e o texto: “Chipocalypse Now.”

Trump em imagem postada em sua rede social. Uma referência à matança no Vietnã, retratada no filme Apocalypse Now

Trump em imagem postada em sua rede social. Uma referência à matança no Vietnã, retratada no filme Apocalypse Now

Em outra postagem, Trump compartilhou um vídeo criado por IA que mostra Gaza sendo transformada em “Trump Gaza”, um luxuoso resort no Golfo.

O vídeo inclui cenas de uma criança segurando um balão dourado de Trump, uma loja de souvenirs vendendo estátuas de Trump, e Elon Musk dançando na praia enquanto notas de dólar caem do céu.

A trilha sonora, também gerada por IA, traz versos como: “Trump Gaza brilhando forte. Futuro dourado, uma nova luz.”

Política como circo

O objetivo dessa propaganda digital não é convencer emocional ou intelectualmente. É sufocar o debate por meio da complexidade e da repetição, ao mesmo tempo em que desarma a crítica ao transformar a política em um espetáculo circense.

Essas imagens frequentemente combinam fotorrealismo com elementos surreais (Trump como um deus montado em uma águia ou a Casa Branca como um castelo dourado), borrando a linha entre realidade e ficção. Essa característica da IA generativa reflete uma tendência política de negação de fatos e da própria história. Ridicularizar o exagero estético só aumenta a viralidade dos posts e nada faz para enfrentar a mensagem central: realidade é aquilo que os ricos e poderosos decidem que seja.

A retórica também se tornou um meio da pedagogia de percepção da extrema direita.

Oprimidos retratados como ameaças

Por meio da repetição e da hipérbole na cobertura midiática, grupos marginalizados — como imigrantes, pessoas negras e pessoas trans — são retratados como ameaçadores e moralmente corruptos.

Dessa forma, criam-se bodes expiatórios para as verdadeiras e crescentes condições materiais que afligem os americanos:

  • Aumento do custo de vida,
  • Salários estagnados,
  • Dívidas esmagadoras e
  • Falta de acesso à saúde.

Essa é uma estratégia usada há muito tempo pela classe dominante para dividir a classe trabalhadora e desviar a atenção do sistema econômico que de fato causa esses problemas. Sem consciência de classe, a raiva é mal direcionada. A frustração diante da desigualdade sistêmica é transformada em ódio contra aqueles que têm ainda menos poder, enquanto os verdadeiros responsáveis — a elite — permanecem intocados.

A demonização desses grupos marginalizados também permite que o regime Trump encene “vitórias” falsas. Projetos como a construção do muro na fronteira sul ou o envio da Guarda Nacional para cidades norte-americanas são apresentados como provas de progresso sob sua liderança.

Condições continuam a se deteriorar

É claro que essas ações não resolvem problema algum. Na prática, funcionam como grandes encenações que Trump pode exibir enquanto se elogia por “melhorar” a vida dos americanos. A repetição dessas narrativas na cobertura midiática reforça a versão preferida pelo regime. Enquanto isso, as condições materiais responsáveis por tanto sofrimento só continuam a se deteriorar.

Nos edifícios, nas imagens geradas por IA e no teatro político, a estética da extrema direita serve para desviar a atenção das crises em aprofundamento. Monumentalidade, repetição e espetáculo não melhoram a vida de ninguém. Pelo contrário: escondem a decadência e canalizam a raiva popular para os marginalizados, em vez de para a elite. Essas escolhas não são neutras nem meramente decorativas — são ferramentas projetadas para moldar a percepção e bloquear a consciência de classe.

Analisar como essas ferramentas são utilizadas revela a conexão entre as lutas de libertação de todos os grupos marginalizados, que no fundo é a luta por uma reorganização da sociedade — uma sociedade que utilize recursos, riqueza e poder para atender às necessidades de todas as pessoas, não apenas das que estão no topo.

Recuperar nossa percepção por meio do reconhecimento dessa luta comum é essencial para redirecionar o poder em favor da maioria.

Alex Petrongelli é escritor e colaborador do site People´s World

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

Leia também:

O método de Trump e o de Mussolini e Hitler

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