PUBLICADO EM 31 de out de 2017
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500 anos da Reforma – as contradições de Lutero

Por José Carlos Ruy

 

Foi o início, naquele 31 de outubro de 1517, da principal contestação à autoridade papal e de um dos principais e mais marcantes acontecimentos do início da modernidade, a Reforma Protestante.

Aquelas 95 Teses, escritas em latim, foram logo traduzidas e se espalharam pela Alemanha (em poucas semanas) e por toda a Europa (em dois meses), beneficiando-se de outra marca da modernidade, a imprensa, mudança tecnológica que se difundiu desde 1450, quando Gutemberg imprimiu sua famosa Bíblia.

Lutero fez críticas graves à Igreja e à corrupção que existia em Roma. Pregou que a comunicação de cada fiel com Deus prescindia da intermediação da estrutura eclesiástica. A salvação, para Lutero, dependia da fé, e não de boas obras ou ações, nem do perdão dos pecados por alguma autoridade religiosa, mas apenas pela fé em Cristo.

Esta crença e na fé de cada um está na base da valorização do indivíduo típica da era moderna.
Ele entrou em conflito direto com a Igreja e suas autoridades – choque que teve idas e vindas até janeiro de 1521, quando o papa Leão X o excomungou e o afastou oficialmente da Igreja.

O conflito iniciado por Lutero, de contornos religiosos, foi a centelha que tocou fogo em uma pradaria pronta para o incêndio.

Havia um conjunto de contradições, e o brado de Lutero foi uma espécie de “é hora!” num momento histórico em que se fortalecia a rejeição da intromissão papal sobre os governos nacionais, e crescia entre os camponeses o protesto contra a opressão da nobreza.

Este foi o quadro em que a Reforma de Lutero prosperou. Até então, as contestações à autoridade papal haviam sido reprimidas pelas fogueiras da Inquisição, criada no século XIII para combater as contestações a Roma, que começavam a proliferar.

Semelhante repressão não atingiu Lutero (que, mesmo assim, ficou escondido durante um ano, para não ser morto).

Sua contestação à autoridade papal se beneficiou da conjuntura na qual os príncipes alemães começavam a tomar consciência da intervenção papal em seu poder. Lutero beneficiou-se da proteção deles (sobretudo Frederico III, da Saxônia). E das contradições que afetaram inclusive o imperador Carlos V que, sendo católico, tomou medidas contra Lutero mas levou em conta a posição dos príncipes em relação à autoridade do o Papa e a realidade política em que viam com bons olhos a rebeldia de Lutero contra Roma.

A aliança de Lutero com os príncipes o levou, na Guerra dos Camponeses (1524-1525) a condenar a rebelião social que nasceu justamente a partir de sua pregação. Rompeu com líder da rebelião, Thomas Munzer, um monge pregador influenciado por Lutero, que radicalizou a luta dos camponeses contra a opressão e foi um dirigente revolucionário e comunista antes de seu tempo, na avaliação de Friedrich Engels. A prisão, tortura e morte de Munzer, em 1525, teve o apoio de Lutero que, depois de alguma vacilação ante o conflito, aderiu e justificou a repressão brutal e o assassinato dos rebeldes em nome da autoridade e da ordem. Mais de 100 mil camponeses foram massacrados.

Lutero teve outras opiniões conservadoras muito fortes. Seu antissemitismo é proverbial, e justificou – por escrito e em sermões – o roubo dos bens de judeus, e a repressão e assassinato deles.

Pregou que a “Alemanha deve ficar livre de judeus, aos quais após serem expulsos, devem ser despojados de todo dinheiro e jóias, prata e ouro, e que fossem incendiadas suas sinagogas e escolas, suas casas derrubadas e destruídas”, escreveu em “Sobre os judeus e suas mentiras” (1543 – fonte: verbete Martinho Lutero, na Wikipedia). Quatro séculos mais tarde, Hitler e os nazistas o aclamaram como um precursor do racismo predador e assassino. Idéias retrógradas que a Igreja Luterana rejeita publicamente, desde 1980, estes escritos racistas de Lutero, afirmando que devem ser excluídos da herança do grande reformador.

A interpretação do significado da Reforma protestante tem sido importante tema do debate histórico. A visão difundida pelo sociólogo alemão Max Weber (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo) tem grande prestígio e predomina em muitas áreas. Mas padece de um defeito fundamental – seu idealismo. Segundo Weber, a valorização do trabalho e da riqueza, por Lutero e pelos protestantes, estaria na base da mudança cultural e comportamental que favoreceu o desenvolvimento do capitalismo.

A visão mais sofisticada e materialista, do historiador inglês R. H Tawney (A religião e o surgimento do capitalismo) recoloca a interpretação em suas bases reais e ajudou ultrapassar a interpretação weberiana. Na verdade, são as mudanças ocorridas na sociedade que ajudam a entender o enorme sucesso que Lutero alcançou, e não o contrário. Lutero pregou em um momento histórico que estava grávido das mudanças que defendeu. A realidade histórica concreta gerou sua rebeldia contra o papa e Roma, e gerou a secura na pradaria incendiada pela divulgação de suas 95 Teses.

Há, é preciso notar, uma contradição entre a alegada modernidade de Lutero, em relação ao dinheiro. Roma estava mais próxima da realidade capitalista, ao transformar em mercadoria o perdão dos pecados através da venda de indulgências, instituída desde 1343 pelo papa Clemente VI.

Lutero condenou essa venda do perdão como mercadoria. Duas das 95 Teses tratam diretamente disso. A tese 27 diz: Pregam futilidades humanas todos os que afirmam que tão logo a moeda soar ao ser jogada na caixa, a alma se eleva do purgatório. E a tese 62 se contrapõe: O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

A rebeldia de Lutero contra este comércio entre o céu e a Terra, intermediado por Roma, foi baseada nma interpretação tradicional, ainda medieval, das relações econômicas – e denunciou o caráter mercantil dessa atividade patrocinada pela Igreja.

Apesar dessas contradições, não pode haver dúvida quanto à modernidade para a qual Lutero apontava. Sua rebeldia religiosa respondia a um anseio forte em sua época, e explica o sucesso da Reforma que, desde então, marcou a história humana. A Reforma foi um importante evento da revolução que levou à superação do feudalismo pelo capitalismo, contribuindo decisivamente para a ideologia deste sistema que começava a se impor ao mundo. Lutero está fincado, assim, na origem e no coração deste sistema.

José Carlos Ruy é jornalista e escritor

 

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