PUBLICADO EM 31 de jul de 2025

Série Diários de Um Robô Assassino: IA, humor, mistério e a condição humana

A série Diários de Um Robô Assassino questiona o papel da inteligência artificial em nossas vidas atuais, misturando ficção, humor e realidade.

Diários de Um Robô Assassino traz emoção e mistério enquanto questiona a influência da inteligência artificial no cotidiano.

Diários de Um Robô Assassino traz emoção e mistério enquanto questiona a influência da inteligência artificial no cotidiano. Foto: reprodução.

Por Chauncey K. Robinson

O papel que a inteligência artificial (IA) deve desempenhar em nossas vidas cotidianas se tornou um tópico quente nos últimos anos. Com o rápido avanço da tecnologia nessa área — e um número excessivo de CEOs de tecnologia usando isso como justificativa para menos regulamentação, demissões em massa e mineração de dados de obras originais sem dar o devido crédito —, a questão deixou de ser apenas uma fantasia de ficção científica.

Isso não significa que histórias de ficção científica não possam opinar sobre o assunto, como já fizeram tantas vezes antes. A nova série da Apple TV+, Diários de Um Robô Assassino, faz exatamente isso, com uma mistura refrescante de emoção, humor e um mistério eletrizante que proporciona uma exploração divertida da condição humana.

Baseada em livro

Escrita e dirigida por Chris Weitz e Paul Weitz, e baseada na popular série de livros de mesmo nome da autora Martha Wells, Diários de Um Robô Assassino é um thriller/comédia de ficção científica sobre uma construção de segurança autohackeada (um robô humanoide, parte orgânico e parte máquina) que fica horrorizada com as emoções humanas, mas ainda assim é atraída por seus clientes vulneráveis.

Nosso personagem principal, chamado de SecUnit (Unidade de Segurança), consegue se livrar secretamente da parte de sua programação que o obriga a obedecer às ordens de seus clientes (seja qual for o humano que o esteja alugando no momento). SecUnit (que se renomeia Murderbot) logo é alugado por uma tripulação desprevenida de indivíduos com um estilo “hippie progressista” para uma expedição a outro planeta.

Uma série de eventos perigosos logo mostra que nem tudo é o que parece, forçando Murderbot e a tripulação a descobrirem o que está acontecendo antes que seja tarde demais. O mistério principal é entrelaçado com as interações entre Murderbot e a tripulação, enquanto todos descobrem coisas sobre si mesmos e uns sobre os outros — para grande incômodo inicial de Murderbot, que acha que os humanos são “bem… idiotas.”

Rápida e interessante

A série faz questão de não desperdiçar tempo em seus episódios de 30 minutos. Há muita coisa condensada, mas tudo é bem equilibrado, de modo que nunca soa excessivo. A trama não para para despejar longas explicações de mundo fictício. Em vez disso, o universo em que os personagens se encontram é apresentado ao público por meio da própria história.

Ajuda também o fato de que Murderbot (interpretado por Alexander Skarsgård) narra boa parte dos episódios em voz off. Uma narração em off pode, às vezes, parecer um recurso forçado, como uma maneira de preencher lacunas que uma escrita fraca não consegue cobrir.

Felizmente, não é o caso aqui, já que Murderbot é um personagem interessante (e, por vezes, um narrador intrigante, embora pouco confiável), de forma que a narração acrescenta à história, em vez de servir apenas como um mecanismo de “mão segurada” para o público.

Vários temas se desenrolam ao longo dos episódios, misturando-se e se cruzando através dos personagens, resultando em momentos ora divertidos, ora emocionalmente intensos. A ganância corporativa e a exploração capitalista ainda existem no mundo de Diários de Um Robô Assassino. Elas funcionam como força motriz para muitas das dificuldades enfrentadas pelos humanos nesse universo.

Nessa realidade, a IA é usada em diversos campos — incluindo segurança, vigilância e prazer sexual, entre outros —, enquanto a agitação social se espalha pela galáxia. Companhias de seguros inescrupulosas estão mais preocupadas com lucros do que com pessoas, e, do lado corporativo, parece que quem está no comando se preocupa apenas em manter esse status quo.

Comunidade

É por isso que Murderbot — acostumado a um ambiente em que a maioria das pessoas parece ser depravada e impiedosa — tem sua visão de mundo abalada ao ser alugado por um grupo completamente diferente. Este grupo faz parte de uma organização chamada Preservation Alliance, uma comunidade de pessoas que tenta viver fora do sistema capitalista, focando mais na coletividade do que no individualismo, e no progresso em vez do lucro. Eles estão longe de ser perfeitos, mas é através de suas várias imperfeições, excentricidades e qualidades genuínas que a série oferece alguns dos melhores momentos.

As atuações de destaque em Diários de Um Robô Assassino ficam por conta de Skarsgård, Noma Dumezweni (que interpreta a líder da tripulação, Mensah) e David Dastmalchian (que vive o cientista residente e humano modificado, Gurathin). Cada um deles traz complexidade e nuances às três visões distintas sobre a vida e a existência que seus personagens representam.

Imagino que não deve ser nada fácil interpretar um humanoide com IA que passou a desprezar a humanidade, enquanto ainda tenta descobrir que tipo de existência deseja ter entre os humanos. Sem falar no desafio de transmitir emoções de forma crível e convincente. Ainda assim, Skarsgård consegue alcançar esse feito, dando vida a um personagem único que foge dos clichês físicos repetidos que já vimos antes quando um ator tenta interpretar como acredita que um robô humanoide deveria se comportar.

Todo o elenco realmente se completa, criando um conjunto com muita química e dinâmicas divertidas. Além disso, essa crítica ficou muito satisfeita em ver uma série de ficção científica que valoriza a diversidade de seu elenco (em idade, raça, sexualidade etc.) e vai além do tokenismo e da simples marcação de caixas de representatividade.

Condição humana

Também é uma adição hilária o fato de haver um “programa dentro do programa”, já que o público acompanha a obsessão de Murderbot com a televisão galáctica (uma novela espacial, em particular, aparece repetidamente). Isso funciona tanto como uma distração da realidade quanto como uma forma de ajudá-lo a lidar com ela. Tocar na dependência de entretenimento vazio como um meio de escapismo soa como uma crítica bem-humorada e irônica ao nosso estado atual de consumo exagerado de “conteúdo” em vez de arte significativa.

Pode-se argumentar que a questão central da série é se a inteligência artificial é capaz de aprender e evoluir a ponto de se tornar um ser senciente e, portanto, merecedor dos mesmos direitos e liberdades concedidos aos humanos. Mas eu diria que um tema mais complexo — e, francamente, mais instigante — é a reflexão sobre o que significa ser um ser consciente que precisa lidar com uma existência marcada por dificuldades e conflitos: a condição humana.

Ideias como derrotismo, otimismo, pessimismo, capitulação e resistência aparecem como resposta às crises existenciais sempre presentes que a vida impõe. Há muitos pontos de vista explorados sobre esse assunto nos episódios, de forma clara, mas impactante, tudo isso mantendo um humor sagaz ao longo da narrativa.

E a série é realmente engraçada. A comédia nunca passa do ponto, e os personagens sempre permanecem com os pés no chão, de forma que, quando as coisas ficam sérias, o peso desses momentos ainda é sentido.

A primeira temporada, com dez episódios, é certamente digna de maratona, já que os capítulos de 30 minutos são ágeis e envolventes. Se você está procurando uma série de ficção científica relevante para a nossa realidade atual (e, convenhamos, essas são as melhores histórias de ficção científica), então Diários de Um Robô Assassino é imperdível.

Diários de Um Robô Assassino estreou globalmente em 16 de maio de 2025.

Tem 10 episódios de cerca de 30 minutos cada, e passa no Apple TV+.

A série é estrelada pelo ator Alexandre Skarsgård, e conta também com Noma Dumezweni, David Dastmalchian, Sabrina Wu, Akshay Khanna, Tamara Podemski, Tattiawna Jones.

Chauncey K. Robinson é uma jornalista e crítica de cinema premiada. Nascida e criada em Newark, Nova Jersey, ela tem um profundo amor por narrativas e história.

Texto traduzido do site People´s World por Luciana Cristina Ruy

O trailer pode ser visto aqui:

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