Uma noite de muitas reflexões sobre oportunidades desiguais e limitações da ascensão das pessoas negras. Assim foi a roda de conversa Mulheres negras, racismo e saúde mental, promovida pelo Sintergs na terça-feira (23/11). Mais de 30 pessoas prestigiaram a fala de convidadas especiais que abordaram a temática, trazendo situações do dia a dia e relacionando tais fatos com história e literatura. O encontro, que iniciou por volta de 18h30 e se estendeu até as 22h, foi transmitido ao vivo pelo Youtube e Facebook do sindicato.
“Queremos o direito do bem viver, porque nós, que estamos aqui, somos sobreviventes”, disse Lúcia Regina Brito Pereira, mestra e doutora em História. Professora aposentada da rede estadual e municipal de Porto Alegre, apresentou mulheres negras que são referências em diversas áreas no Estado, no País e no mundo. Guerreiras, ativistas do movimento negro, artistas, intelectuais, cientistas, políticas e sindicalistas. “Precisamos ter orgulho da nossa descendência”, disse Lúcia.
Malvina Beatris Souza, assistente social e militante de políticas públicas, fez um relato de experiência sobre a atuação das mulheres negras no território da Grande Cruzeiro, em Porto Alegre. “No lugar onde havia um campo de futebol foi construída uma casa prisional”, lamentou Malvina. Sócia fundadora da Associação de Mulheres Solidárias da Grande Cruzeiro e presidenta da União de Vilas da Grande Cruzeiro, também falou sobre o desafio de arrecadar e distribuir alimentos para mais de 300 famílias na pandemia.
Entre uma fala e outra, a poetisa Ana dos Santos fez intervenções artísticas. “O racismo furou o isolamento social. Saia da sua bolha branca. Vidas negras importam. Eu não consigo respirar, eu não consigo respirar, porque o vírus do racismo contaminou toda a minha vida”, declamou Ana, que é professora de Literatura Brasileira e mestra em Estudos Literários Aplicados − Letras. O racismo, a vida das mulheres negras e o genocídio negro são algumas das temáticas do trabalho da poetisa.

Fotos: Bruna Karpinski
Angela Antunes, diretora do Sintergs, fez a mediação da roda de conversa e falou que apenas 3% dos servidores públicos estaduais de nível superior se declara negro, segundo pesquisa realizada pela PUCRS junto à base do Sintergs. A dirigente ressaltou que o movimento sindical no Rio Grande do Sul ainda é predominantemente branco e masculino, em sua maioria, e que é necessário discutir a representatividade dentro dos sindicatos. Após agradecer a participação das convidadas, Angela fez um desabafo sobre a cobrança e a expectativa de que as mulheres negras sejam sempre fortes. “Não queremos ser fortes o tempo inteiro”, disse.



