PUBLICADO EM 25 de mar de 2026

Relatório do GTT dos Apps expõe precarização e apresenta ajustes

Entenda a relação do trabalho por plataformas e precarização e o dilema da regulamentação presente no relatório do governo.

Plataformas e precarização: Ministros no lançamento do relatório do Grupo de Trabalho sobre Aplicativos.

Plataformas e precarização: Ministros no lançamento do relatório do Grupo de Trabalho sobre Aplicativos.

O governo federal divulgou nesta semana o Relatório final do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) Entregadores por Aplicativo. O documento aborda uma das faces mais agudas das transformações recentes no mundo do trabalho: a expansão de um modelo produtivo baseado na intermediação digital, marcado pela flexibilização extrema, pela transferência de riscos e pela fragilização de direitos.

Leia também:

Caminhoneiros suspendem greve após negociação.

Embora reconheça a ausência de regulamentação e os problemas estruturais enfrentados pelos trabalhadores de plataformas, o documento parte de um ponto de tensão que atravessa todo o debate: como regular um modelo que, em sua essência, se sustenta justamente na desregulamentação do trabalho.

Nesse sentido, o relatório explicita o chamado “limbo jurídico” da categoria, mas também revela os limites de uma abordagem que busca conciliar interesses potencialmente contraditórios — a proteção social dos trabalhadores e a manutenção da lógica das plataformas.

Propostas

As propostas apresentadas caminham no sentido de ampliar a proteção social, garantir maior transparência e construir um marco regulatório para o setor. No entanto, situam-se no terreno da regulação incremental, buscando adaptar o modelo existente sem necessariamente enfrentar suas contradições centrais — como a subordinação disfarçada, a ausência de vínculo formal e a lógica de remuneração variável e incerta.

Nesse contexto, o governo também detalha medidas voltadas à melhoria das condições imediatas de trabalho:

  • A portaria, que será encaminhada ao Congresso Nacional, reforça propostas já anunciadas para elevar a remuneração dos entregadores, como o reajuste do valor mínimo pago por corrida — de R$ 7,50 para R$ 10 — e o aumento do valor por quilômetro adicional, que passaria de R$ 1,50 para R$ 2,50 após os primeiros quatro quilômetros. O documento propõe ainda o fim das entregas agrupadas, prática em que as plataformas cobram múltiplas entregas do consumidor sem repassar integralmente os valores aos trabalhadores.
  • No campo da proteção social, o governo defende a inclusão dos entregadores no sistema previdenciário, com uma contribuição reduzida de 5% para o trabalhador, incidente sobre 25% da remuneração, enquanto as empresas passariam a arcar com uma alíquota de, no mínimo, 20%, acrescida de 2% destinados à cobertura de acidentes de trabalho e doenças ocupacionais.
  • Outro eixo destacado é a transparência na formação de preços. Segundo o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, a exigência de divulgação dos critérios de cálculo — a ser estabelecida por portaria do Ministério da Justiça — representa “um início de enquadramento das plataformas”, ao permitir maior controle por parte de trabalhadores e consumidores. Atualmente, esses critérios não são informados, o que contribui para a assimetria de informações no setor.
  • O relatório também prevê a criação de infraestrutura de apoio aos trabalhadores. De acordo com o governo, serão implantados inicialmente 100 Pontos de Apoio em cidades com maior concentração de entregadores e motoristas, equipados com banheiro, água, vestiário, áreas de descanso e alimentação, além de conectividade. A medida será viabilizada por meio de acordo entre a Secretaria-Geral da Presidência da República e a Fundação Banco do Brasil, com implementação imediata e prazo de até 30 dias para adequação das plataformas.
  • Além disso, o documento contempla ações de prevenção de acidentes e doenças ocupacionais, como a inclusão da categoria “trabalhador de plataforma digital” nas fichas do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), ampliando a produção de dados para subsidiar políticas públicas. Também está prevista a realização de campanhas específicas, como o “Abril Verde”, voltadas à redução de acidentes e agravos relacionados ao trabalho.

Precarização

O diagnóstico apresentado é consistente ao evidenciar jornadas extensas, renda instável, insegurança, discriminação e ausência de proteção previdenciária. Também aponta que o atual arranjo transfere custos e responsabilidades para os trabalhadores, ao mesmo tempo em que concentra ganhos nas empresas que operam por meio de algoritmos opacos e pouco regulados.

Ainda assim, o documento evita questionar de forma mais profunda as bases desse modelo, tratando a precarização como um problema a ser mitigado, e não como elemento estrutural da própria dinâmica das plataformas.

As propostas apresentadas caminham no sentido de ampliar a proteção social, garantir maior transparência e construir um marco regulatório para o setor. No entanto, situam-se no terreno da regulação incremental, buscando adaptar o modelo existente sem necessariamente enfrentar suas contradições centrais — como a subordinação disfarçada, a ausência de vínculo formal e a lógica de remuneração variável e incerta. Nesse ponto reside um limite fundamental do documento: ele não rompe com o modelo de plataformas. Ao contrário, busca regulá-lo e ajustá-lo, sem propor uma transformação estrutural das relações de trabalho que o sustentam.

Papel do Estado

Assim, o relatório cumpre um papel relevante ao trazer o tema para o centro da agenda pública e ao reconhecer a urgência de intervenção estatal. Ao mesmo tempo, revela os limites de uma estratégia que procura equilibrar inovação tecnológica e direitos sem alterar significativamente a estrutura de poder e exploração que caracteriza o trabalho mediado por plataformas.

Mais do que uma resposta definitiva, o documento expressa um momento de transição: entre o reconhecimento da precarização e a disputa sobre até onde o Estado está disposto a ir para enfrentá-la.

Leia aqui o

Relatório final do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) Entregadores por Aplicativo

Relatório final do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) Entregadores por Aplicativo

Relatório final do Grupo Técnico de Trabalho (GTT) Entregadores por Aplicativo

Leia também:

Conclat 2026 mobiliza trabalhadores 

CONCLAT 2026 mobiliza trabalhadores em Brasília

COLUNISTAS

QUENTINHAS