PUBLICADO EM 11 de out de 2017
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A primeira Greve Geral no Brasil

Carolina Maria Ruy

Considerada a primeira greve geral no Brasil a Greve Geral de 1917 completou 100 anos em julho deste ano.

A greve ocorreu nos primórdios da industrialização brasileira, num grande processo de chegada de imigrantes europeus ao Brasil, poucos anos depois da abolição da escravatura, em um contexto marcado pela Primeira Guerra Mundial e pela Revolução Russa.

Da bibliografia sobre o tema, destacam-se o livro de Paula Beiguelman, O companheiros de São Paulo; O Ano Vermelho, de Moniz Bandeira, Clovis Melo e A.T. Andrade, e o recém-lançado A greve de 1917, os trabalhadores entram em cena, de José Luiz Del Roio. Jornais da época como A Plebe, O Combate e O Estado de São Paulo trazem também valiosos registros históricos.

Ainda sobre as fontes de pesquisa, destaco a tese de mestrado “Nos fios de uma trama esquecida: a indústria têxtil paulista nas décadas pós-depressão, 1929-1950”, de 2006, do historiador Felipe Pereira Loureiro.

Segundo ele três elementos caracterizaram as relações de trabalho naquele período:

1 – O emprego de mulheres e menores em grande escala.
2 – As precárias condições de trabalho no interior das fábricas.
3 – A resistência da burguesia na concessão de benefícios mínimos para o proletariado.

Segundo Loureiro estas condições geravam revoltas entre os operários e, para conte-los, foram criadas diversas leis, como a Lei de Férias, de 1925, e o Código do Menor, de 1926. Estas leis que foram promulgadas sob protestos dos burgueses têxteis paulistas e, de um modo geral, eram negligenciadas em sua aplicação e fiscalização.

Soma-se a esse quadro o fato de que naquela época o custo de vida aumentava dia a dia e toda a produção era vendida para a Europa, que estava em guerra. A situação não poderia resultar em outra coisa que não em um grande embate entre trabalhadores e patrões que se estendeu durante cerca de um mês.

Estávamos na Velha República, com a maioria da população brasileira camponesa, mergulhada na miséria e ignorância, sob total dominação oligárquica. Muitos imigrantes que chegaram ao Brasil para substituir o trabalho escravo trouxeram ideologias de esquerda, como o anarquismo e socialismo, despontaram como lideres de movimentos.

A greve eclodiu no Cotonifício Crespi, fábrica têxtil com cerca de 2 mil operários, operárias e crianças. Lá, segundo o pesquisador e ativista social, José Luiz Del Roio, “o pessoal se arrebentava de trabalhar e não tinha aumento”.

Como não havia conversa com o patrão, os trabalhadores cruzaram os braços reivindicando uma pauta que incluía aumento salarial e redução da jornada de trabalho. Pouco a pouco eles conseguiram adesão de outras fábricas, outras categorias, fábricas em outras cidades e em outros estados.

A morte do operário grevista José Martinez, baleado pela polícia no dia 9 de julho, criou uma comoção social que fortaleceu ainda mais o movimento. Não há um levantamento exato sobre quantos morreram nos embates desta grande greve. O que se sabe é que não foram poucos.

Em 15 de julho a greve foi encerrada com a conquista de 20% de reajuste e, da parte do governo, promessas de libertação dos presos durante o conflito e fiscalização do trabalho de menores e mulheres. O movimento desencadeou uma onda de greves que se estendeu até 1920 e revelou a emergência de um forte movimento de base operária.

Nestes cem anos houve uma grande evolução nas condições de vida e de trabalho, para a qual o movimento sindical desempenhou um papel fundamental.

O Brasil de hoje pouco se parece com o Brasil de 1917. Embora a desigualdade social seja ainda um entrave para o desenvolvimento econômico e civilizatório do país, a situação atual da classe trabalhadora não se compara à miséria que levou à ocorrência da primeira greve geral. Mas lá estava o embrião da organização operária brasileira.

Carolina Maria Ruy, jornalista, coordenadora do Centro de Memória Sindical.

 

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