PUBLICADO EM 29 de jul de 2019

Por que devemos recordar os anos da República de Weimar

A história nunca se repete seguindo o mesmo roteiro. Será que nossa situação atual se parece em algo à daqueles turbulentos anos 1930 na Alemanha?

Cem anos da Constituição de Weimar reabrem o debate sobre o colapso da democracia liberal e os paralelos com o presente

Por Fernando Vallespín — publicado originalmente em El País

Weimar é uma pequena cidade do estado alemão da Turíngia, célebre por sua herança artística e intelectual. Foi lar de Goethe, Schiller e Franz Liszt, e também o berço da escola Bauhaus. No entanto, com o passar do tempo, o nome de Weimar deixou de evocar apenas o esplendor cultural do século XVIII e XIX e passou a simbolizar algo bem mais sombrio: o fracasso da democracia liberal parlamentar, a experiência trágica que abriu caminho ao nazismo.

O termo “síndrome de Weimar” tornou-se, desde então, uma metáfora para as tensões que ameaçam as democracias contemporâneas — em especial o avanço do populismo e das tendências autoritárias que corroem os valores liberais de dentro para fora.

Entre o otimismo democrático e o colapso

A República de Weimar nasceu em 1919 com a aprovação de uma nova Constituição, no mesmo Teatro Nacional que eterniza as estátuas de Goethe e Schiller. O texto representava uma promessa de modernização e de democracia parlamentar para a Alemanha do pós-guerra.

Mas o otimismo durou pouco. As crises econômicas, a hiperinflação, a humilhação imposta pelo Tratado de Versalhes e as tensões sociais arrastaram o país para uma espiral de instabilidade. O resultado é conhecido: a ascensão do nazismo e o colapso total da república.

Curiosamente, esse período de decadência política coincidiu com um florescimento cultural sem precedentes. Foi a era de Thomas Mann, Bertolt Brecht, Paul Klee, Fritz Lang e Walter Benjamin, entre outros. O contraste entre a efervescência intelectual e o colapso político permanece um dos maiores paradoxos da história moderna.

Crises econômicas e colapso político

Weimar voltou ao debate público em 2008, quando a crise financeira global levou economistas — como Paul Krugman — a comparar a situação da Grécia à da Alemanha dos anos 1920. A hipótese clássica associa o fracasso da república à deterioração econômica: primeiro a hiperinflação, depois a deflação e a falência das classes médias.

Contudo, Vallespín observa que a explicação econômica não basta. Países que sofreram crises semelhantes não chegaram ao totalitarismo. Para ele, o colapso de Weimar foi, sobretudo, um fracasso político e institucional.

Liberalismo, populismo e identidade

O autor ressalta que não há democracia sem liberalismo nem sem proteção social.
A República de Weimar foi um campo de disputa entre três visões de mundo:

  • o modelo marxista, inspirado na Revolução Russa;
  • o modelo liberal-parlamentar, influenciado por Wilson e pelas democracias ocidentais;
  • e o modelo nacional-autoritário, que evoluiu para o fascismo e o nazismo.

As instituições democráticas estavam em vigor, mas grande parte da elite e da população nunca acreditou verdadeiramente nelas. A incapacidade dos governos de estabilizar a economia e responder às demandas sociais minou a confiança na democracia, criando o terreno para o autoritarismo.

Vallespín observa que há, sim, ecos de Weimar no presente, quando o populismo tenta substituir o pluralismo liberal por uma ideia homogênea de “povo” e transformar a polarização em método político. Ainda assim, há diferenças: os populismos atuais raramente recorrem à violência ou a movimentos de massa ideologizados.

As lições de Weimar

O maior alerta deixado pela história é a fragilidade das democracias quando perdem sua base social e moral.
Para pensadores como Hermann Heller, a ausência de justiça social torna inviável a própria democracia. A Constituição de Bonn, adotada na Alemanha pós-guerra, aprendeu com os erros de Weimar e criou uma “democracia militante”, capaz de se defender contra forças antidemocráticas.

Ao final, Vallespín conclui que o mundo aprendeu — ao menos em parte — com o desastre de Weimar. Ainda assim, o espectro dessa experiência continua a assombrar o século XXI, servindo de espelho e advertência para tempos de polarização e descrença.


Fonte: Fernando Vallespín, “Alemania, 35 años después de la reunificación”, publicado em El País.

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