PUBLICADO EM 30 de mar de 2026

O trabalhador vence quando sindicalistas concorrem a cargos públicos

Relatório de universidade dos EUA destaca o papel dos sindicalistas na política. Suas campanhas podem superar adversários estabelecidos.

Entenda como os sindicalistas podem transformar a política eleitoral e vencer em diversas áreas com seu fortalecimento. Na foto: trabalhadores do Palace Hotel, São Francisco, em greve, outubro de 2018. Wikipedia

Entenda como os sindicalistas podem transformar a política eleitoral e vencer em diversas áreas com seu fortalecimento. Na foto: trabalhadores do Palace Hotel, São Francisco, em greve, outubro de 2018. Wikipedia

Por Ned Rust

O novo relatório Unions and Electoral Politics do Center for Working-Class Politics, do Center for Work and Democracy da Universidade Estadual do Arizona e da Jacobin mostra como o movimento trabalhista pode jogar com seus pontos fortes — e vencer. O segredo? Colocar mais sindicalistas para concorrer a cargos públicos.

EUA enfrentam perda de empregos com IA

No Nordeste dos EUA, no estado do Maine, as pesquisas mostram Graham Platner, um criador de ostras recrutado por um sindicato, derrotando com folga tanto a atual governadora Janet Mills, a candidata do establishment democrata, quanto Susan Collins, a senadora republicana incumbente.

E não são apenas estados democratas. No profundamente conservador Alabama, o encanador sindicalizado Andrew Sneed está arrecadando mais do que seu oponente republicano, o deputado incumbente Dale Strong, tudo isso recusando doações corporativas. E, no Texas, Taylor Rehmet, presidente local da International Association of Machinists and Aerospace Workers, surpreendeu analistas ao vencer com folga um segundo turno para o senado estadual.

O tempo dirá como Rehmet se sairá no cargo e se Platner e Sneed conquistarão vitórias nas urnas. Independentemente disso, algo parece estar acontecendo com os poucos candidatos ligados a sindicatos que colocamos em campo — inclusive em regiões nada favoráveis ao movimento trabalhista.

Relatório chega ao cerne da questão

O relatório do Center for Working-Class Politics, do Center for Work and Democracy da Universidade Estadual do Arizona e da Jacobin, intitulado “Can Unions Make a Difference?” (“Os sindicatos podem fazer a diferença?”), parece chegar ao cerne da questão. Ao diagnosticar o problema, o estudo demonstra que os impressionantes níveis de concentração de riqueza destacados por Bernie Sanders e seus aliados na turnê “Fighting Oligarchy” são semelhantes à composição de classe real do nosso governo.

Hoje, menos de 10% dos eleitores do país estão em um sindicato — uma queda em relação a mais de 30% na década de 1960, quando Martin Luther King Jr. já alertava para o problema e denunciava o “direito ao trabalho” como um slogan enganoso destinado a enfraquecer os sindicatos.

E, ainda assim, atualmente, a porcentagem de candidatos que tentamos eleger para o Congresso e que também são sindicalizados não chega nem perto desses 10%. O CWCP analisou todos os candidatos ao Congresso entre 2010 e 2022 e constatou que apenas 5% eram membros de sindicatos. O diretor do centro, Jared Abbott, afirma que há evidências de que, em 2026, Platner e Sneed estão entre apenas 3,5% dos candidatos declarados com vínculos com o movimento sindical.

Curiosamente, entre os 90% que não fazem parte de sindicatos, a opinião pública geral sobre o movimento trabalhista está em um nível historicamente alto — 70% dos americanos aprovam os sindicatos. Esse é o maior nível de aprovação desde a década de 1970. Como aponta o relatório:

O desafio central… não é a hostilidade pública aos sindicatos, mas a capacidade reduzida do movimento de transformar apoio popular em poder político.

Uma parte significativa do problema pode ser atribuída ao tsunami de dinheiro político desencadeado pela decisão de 2010 da Suprema Corte no caso Citizens United v. Federal Election Commission. Embora “o total de doações dos PACs trabalhistas tenha permanecido relativamente constante” ao longo dos últimos vinte e oito anos, com uma média de cerca de 42 milhões de dólares (chegando a 57 milhões em 2025), o volume total de dinheiro no sistema explodiu de 1,45 bilhão de dólares em 1998 para impressionantes 5,08 bilhões em 2025.

Isso significa que, embora os sindicatos, apesar de todos os seus desafios, tenham mantido suas contribuições financeiras para campanhas, sua participação no total caiu de 8% de todas as doações a candidatos para apenas 2%, um valor verdadeiramente “minúsculo”.

Considere os seguintes dados reunidos por Abbott e pelo CWCP:

A pressão para fazer com que seus recursos limitados rendam o máximo possível levou os sindicatos a serem mais conservadores em suas doações: eles tendem a se concentrar em democratas incumbentes e geralmente evitam o turbilhão das disputas por cadeiras abertas, que hoje estão sendo inundadas por dinheiro de interesses corporativos.

O movimento trabalhista está claramente enfrentando uma maré crescente.

Mas o relatório do CWCP oferece motivos para esperança de que o movimento não será arrastado por essa corrente. E, melhor ainda, de que podemos razoavelmente esperar que a já limitada representação da classe trabalhadora em Washington, DC, não diminua ainda mais.

Por um lado, novamente, candidatos ligados ao movimento sindical — ao contrário de candidatos financiados por doadores e pertencentes à classe gerencial — têm, desde o início, um apelo mais direto à maioria do eleitorado. Talvez levem vantagem simplesmente por serem autênticos, tanto como indivíduos quanto como cidadãos que conhecem na prática a realidade de tentar fechar as contas no fim do mês.

Candidatos com experiência real no mundo do trabalho

O estudo, de fato, constata que candidatos com experiência real no mundo do trabalho diferem de seus colegas e adversários em alguns aspectos importantes e comprováveis:

  • Têm maior probabilidade de defender questões dos trabalhadores durante a campanha.
  • Têm maior probabilidade de votar a favor de políticas econômicas progressistas quando eleitos, independentemente de filiação partidária.
  • Sua experiência sindical os torna mais eficazes na promoção de pautas da classe trabalhadora e dos sindicatos.

Quanto ao primeiro ponto, ao analisar todos os candidatos ao Congresso no período pós-Citizens United, de 2010 a 2022, o relatório conclui que aqueles com histórico sindical utilizam 159% mais retórica pró-trabalhador, 66% mais linguagem econômica progressista e 51% mais mensagens contra as elites econômicas em comparação com candidatos não sindicalizados — e isso mesmo controlando fatores como distrito, partido e incumbência.

Quanto ao segundo ponto — ser mais progressista em questões econômicas — o estudo compara as posições médias de votação nominal dos legisladores e constata que candidatos sindicalizados votam mais à esquerda do que seus pares, não apenas em média, mas também dentro de seus próprios partidos. Democratas ligados a sindicatos votam bem mais à esquerda do que democratas da classe gerencial, e até mesmo republicanos com vínculos sindicais (incluindo o ex-policial e deputado Pete Stauber, de Minnesota) também votam mais à esquerda do que seu partido. Novamente, o CWCP investigou a fundo para garantir que a experiência sindical do candidato — e não seu distrito, partido ou outras características — fosse o fator determinante. E foi.

Por fim, quanto ao terceiro ponto — de que parlamentares ligados a sindicatos são mais eficazes em promover pautas da classe trabalhadora e dos sindicatos — os pesquisadores do CWCP entrevistaram vinte legisladores ao longo do último ano. Isso pode parecer evidente, mas as formas específicas como eles descrevem sua relação com essas questões são úteis e oferecem linguagem e percepções estratégicas valiosas para campanhas.

Aqui estão alguns insights particularmente úteis e contundentes extraídos dessas entrevistas:

* Não há curva de aprendizado com um candidato vindo do movimento sindical: eles já entendem os problemas que os trabalhadores enfrentam e estão comprometidos em resolvê-los. — Anthony Verrelli, carpinteiro e legislador estadual de Nova Jersey

* Havia uma ex-secretária trabalhando em um projeto de lei sobre poupança para aposentadoria. E o comentário que ela fez em uma reunião fechada foi sobre “a pessoa média” ter “apenas” 200 mil dólares guardados para a aposentadoria… Então fiz uma pequena pesquisa, e isso corresponde a cerca de uma em cada oito pessoas no país. Ou seja, a experiência comum aqui em Washington — de que, claro, você teria todo esse dinheiro para a aposentadoria e poderia, sabe, tomar piña coladas em praias do Caribe — é uma realidade diferente da de alguém que espera talvez conseguir um trailer e tirar algum tempo de descanso no inverno… existe essa mentalidade. Não é algo contra pessoas de renda média; é só que elas não têm essa experiência vivida. — Deputado Mark Pocan, 2º distrito de Wisconsin

* Quando surgem questões trabalhistas, as pessoas recorrem a mim. Perguntam o que deve ser feito naquele momento. E isso ajuda. Posso falar a partir da experiência, como alguém que veio da base dos trabalhadores. — Hugo Soto-Martinez, vereador de Los Angeles

* Quando você está no Congresso, dizem que só pode ter três prioridades… Então, se houvesse mais pessoas cuja identidade principal estivesse no movimento trabalhista, seria muito mais provável que colocassem as questões do trabalho nessa lista… Faria uma grande diferença se houvesse mais pessoas que realmente vivessem e respirassem o sindicalismo. – Ex-deputado Andy Levin, 9º distrito de Michigan

* Eu era eletricista industrial… Porque isso é importante, pelo menos do meu ponto de vista, é que você entende as coisas em um nível diferente porque já viveu aquilo. Eu adoro advogados. Minha filha é advogada, mas não precisamos de 435 advogados. — Deputado Donald Norcross, 1º distrito de Nova Jersey

Toda essa sabedoria não soa apenas bem; a análise do CWCP a conecta a resultados concretos.

Em uma das entrevistas, o centro revela que a AFL-CIO de Nova Jersey, ao longo das últimas duas décadas, acompanhou 1.300 candidatos do movimento trabalhista em níveis estadual e local — e impressionantes 76% deles tiveram sucesso em suas disputas eleitorais.

Citando isso e os resultados de outros programas da AFL-CIO ao longo dos anos — incluindo centenas de candidatos treinados pelo programa Target 5000 no início dos anos 2000 e pelo programa 2000 in 2000 antes dele — a seção final do relatório funciona como um pequeno guia para sindicatos e candidatos da classe trabalhadora que buscam aproveitar seus pontos fortes diante de uma enorme desvantagem financeira.

Outros estudos

Dois estudos de caso específicos são apresentados. Em 2022, a primeira turma da Arthur A. Allman Labor Candidate School, da AFL-CIO do Alasca, concluiu sua formação. A escola foi criada como um programa de treinamento eleitoral para membros de sindicatos e, embora tenha tido apenas vinte e seis formados até agora, doze concorreram a cargos públicos e oito deles (67%) venceram.

O outro caso é o já mencionado Programa de Candidatos da AFL-CIO de Nova Jersey, cujos resultados podem ser descritos como nada menos que impressionantes. Em duas décadas de atuação, o programa acumulou 1.300 vitórias eleitorais — desde conselhos locais até o Congresso — alcançando uma taxa de sucesso superior a 75%.

Dado que tais soluções práticas existem, é evidente que uma parte importante da solução para a sub-representação do movimento trabalhista será apostar nelas, ao mesmo tempo evitando a armadilha de adotar o modelo dominante do sistema político atual — baseado em orçamentos inflados, campanhas guiadas por consultores e ajustes de última hora. Apesar da lógica de priorizar disputas mais seguras, os sindicatos não devem focar apenas nas corridas mais fáceis. Em vez disso, devem apostar em suas forças naturais e aplicar seus recursos limitados não apenas nos momentos finais da campanha, mas com antecedência — inclusive já na fase de identificação e recrutamento de candidatos.

Mais uma vez, não é que o padrão do movimento trabalhista de fazer doações no fim do ciclo eleitoral, focando em disputas seguras, não faça sentido. É totalmente compreensível que, quando você tem um caixa cem vezes menor que o do seu oponente, queira ser cem vezes mais cauteloso com seu dinheiro. Naturalmente, você quer garantir com ainda mais atenção que está ajudando onde isso mais importa — nas disputas maiores e mais obviamente relevantes. Também faz sentido tentar garantir que suas contribuições façam uma diferença perceptível não apenas para o vencedor, mas para aquele vencedor específico. Assim, quando chegar a hora de votar, ele se lembrará de quem o colocou lá.

Mas o estudo mostra que esse conservadorismo estratégico que assombra o movimento trabalhista não é apenas uma tendência — tornou-se um status quo rígido. O CWCP não conseguiu identificar, estatisticamente, exceções à estratégia dos sindicatos de apostar apenas em vitórias seguras.

Isso é, claro, uma pena. Seria de se esperar que os sindicatos, ao menos em alguma medida, favorecessem candidatos com histórico sindical. E, à primeira vista, até parece haver uma correlação. Mas isso se revela uma ilusão geográfica. Os pesquisadores observam que, ao considerar onde os candidatos concorrem, a natureza do distrito — se tem alta ou baixa presença de trabalhadores organizados — é o fator determinante para o apoio sindical, e não o histórico individual do candidato. Os sindicatos simplesmente gastam mais onde sua base está, e menos onde ela não está.

Tornando esse conservadorismo ainda mais problemático, os sindicatos às vezes também destinam bons recursos a candidatos ruins. Eles parecem não ser muito rigorosos ao filtrar figuras no estilo de Joe Manchin ou Henry Cuellar — candidatos que defendem o discurso sindical durante a campanha, mas acabam adotando outras posições quando chegam ao Congresso.

Talvez tudo isso indique que os PACs trabalhistas são compostos pelos mesmos especialistas eleitorais e consultores da classe gerencial empregados pelo lado corporativo. Novamente, é racional imitar o que os vencedores estão fazendo. Mas, dado que o movimento trabalhista simplesmente não pode competir na disputa financeira, essa é uma das muitas áreas em que ele ocupa uma posição única.

Como afirma o relatório do CWCP:

Colocar membros e líderes sindicais para concorrer a cargos públicos oferece uma forma de ampliar a voz dos trabalhadores no governo, mesmo com a baixa taxa de sindicalização… Candidatos sindicais representam um recurso político inexplorado — com potencial não apenas para fortalecer a influência do trabalho nas políticas públicas, mas também para reverter a queda do apoio ao Partido Democrata entre os eleitores da classe trabalhadora.

Além de vencerem, os candidatos sindicalizados também atraem maior participação eleitoral, especialmente em distritos com alta presença sindical. A pesquisa da organização mostra que membros de sindicatos na população geral têm 36% mais probabilidade de votar em um candidato sindicalizado.

Então, por que os sindicatos não priorizam mais frequentemente a identificação e o desenvolvimento de talentos dentro de suas próprias fileiras? Andrew Waxman, da AFL-CIO nacional, explicou ao CWCP:

“Os sindicatos, como a maioria dos doadores, tendem a apoiar candidatos que conseguem arrecadar seu próprio dinheiro e demonstrar capacidade de vencer.”

Joe Murphy, da AFL-CIO do Arizona, acrescentou que os sindicatos parecem apoiar apenas candidatos “que conseguem levantar seus próprios recursos… montar sua própria campanha… bater de porta em porta… enviar material de campanha… sem apoio sindical — e então o apoio vem depois”.

Eleanor Chávez, deputada estadual no Novo México, contou ao CWCP que os sindicatos hesitaram em apoiá-la quando ela concorreu pela primeira vez contra um incumbente, só entrando na disputa em sua campanha seguinte, quando o risco de derrota parecia menor.

O já citado ex-deputado Andy Levin, de Michigan, vai direto ao ponto ao dizer que os líderes sindicais com quem trabalhou simplesmente não consideravam o recrutamento algo importante. Levin sugeriu que, se eles destinassem apenas 2% de seus orçamentos para isso, já faria diferença.

Mas por que se contentar com 2%? Agora parece abundantemente claro que o movimento trabalhista precisa abandonar o manual atual e, em vez disso, apostar em suas inúmeras forças — e fazê-lo em escala competitiva. O trabalho já possui todo o talento interno necessário para vencer — e vencer em grande. Falta apenas financiá-lo. Enquanto isso não acontecer, o declínio do movimento não será apenas provável — será inevitável.

Ned Rust é pesquisador do Center for Working-Class Politics.

Texto traduzido do Jacobin opor Luciana Cristina Ruy.

Leia também:

Nos EUA movimento sindical e social alertam sobre democracia

Nos EUA, movimentos sociais e sindical alertam sobre a democracia

COLUNISTAS

QUENTINHAS