PUBLICADO EM 23 de fev de 2026

O admirável mundo novo da IA é inseguro para os trabalhadores e para a humanidade?

Explore os perigos da IA. Perspectivas mostram que a Inteligência Artificial Geral, um novo patamar da IA, poderá gerar desemprego em massa.

A IA é insegura? O CEO da Anthropic, Dario Amodei, advertiu que a IA tem potencial para eliminar metade dos empregos de colarinho branco. Imagem gerada pelo ChatGPT.

A IA é insegura? O CEO da Anthropic, Dario Amodei, advertiu que a IA tem potencial para eliminar metade dos empregos de colarinho branco. Imagem gerada pelo ChatGPT.

Por Clark Johnson

Um movimento para “pausar” o desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) está chamando atenção para as ameaças existenciais que a tecnologia representa para os trabalhadores e para a humanidade como um todo.

Elon Musk afirmou que há até 20% de chance de a IA “dar errado” e se transformar em um pesadelo distópico de robôs governando o planeta. “Vinte por cento é pior do que as probabilidades da roleta russa”, observa Holly Elmore, diretora executiva do capítulo norte-americano do grupo Pause AI, sediado na Holanda.

A comparação de Elmore é pertinente, já que céticos da tecnologia afirmam que a IA e sua derivação, a Inteligência Artificial Geral (AGI), estão transportando um cenário ao estilo O Exterminador do Futuro das telas de Hollywood para o mundo real.

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300 milhões de empregos perdidos

As previsões de desemprego pintam um quadro sombrio, com os trabalhadores de colarinho branco inicialmente sofrendo o maior impacto. O Goldman Sachs estima que 300 milhões de empregos em tempo integral no mundo poderiam ser perdidos ou reduzidos pela IA, representando 40% dos postos expostos à automação. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, advertiu que a IA tem potencial para eliminar metade de todos os empregos iniciais de colarinho branco, levando a taxas de desemprego de 10% a 20% nos próximos cinco anos.

Uma pesquisa recente do Fórum Econômico Mundial (WEF) indicou que 41% dos empregadores pretendem reduzir suas forças de trabalho devido à IA até 2030. Na avaliação mais alarmante até agora, o professor Roman Yampolskiy, da Universidade de Louisville, aponta para um “colapso do mercado de trabalho” até 2030.

Perdas relacionadas à IA são permanentes

Diferentemente das recessões, em que os empregos retornam, as perdas relacionadas à IA são vistas como estruturais e permanentes, nas quais tarefas complexas são substituídas por ciborgues autônomos “pensantes”. A AGI refere-se a uma IA “situacionalmente consciente”, capaz de realizar qualquer trabalho cognitivo que um ser humano possa desempenhar. Espera-se que legiões crescentes de “agentes” de AGI acelerem essa disrupção, tornando habilidades e funções anteriores irrelevantes.

Seja qual for o cronograma, David Krueger, professor da Universidade de Montreal e pesquisador da Pause AI, prevê um “desempoderamento gradual” dos trabalhadores, alcançando até mesmo as diretorias executivas. “À medida que organizações e empresas migram de pessoas para IA, os CEOs vão se submeter à tecnologia — ou serão substituídos por ela”, afirma Krueger.

Observando que “o trabalho não apenas lhe dá dinheiro, ele lhe dá poder”, Krueger compara chips de IA a bombas nucleares. “É uma corrida armamentista corporativa, e há muitos capitalistas de risco, transumanistas, libertários e [autoproclamados] altruístas ricos tentando lucrar” às custas dos trabalhadores.

Tecnologia amoral

Os promotores desse Admirável Mundo Novo da IA apontam para inovações da moda, como o ChatGPT, como um benefício inequívoco para os consumidores. Mas Elmore sugere que a mesma tecnologia inerentemente amoral que conversa com você em vários idiomas também pode instruir usuários sobre como montar armas biológicas. “A tecnologia de IA dessensibiliza as pessoas”, afirma.

Geoffrey Hinton, conhecido como o “Padrinho da IA”, deixou seu cargo de vice-presidente e pesquisador de engenharia no Google em 2023 para alertar sobre os perigos da inteligência artificial. Hinton disse que ficou cada vez mais preocupado ao perceber que as coisas estavam avançando muito mais rápido do que ele jamais havia previsto.

As preocupações de Hinton tornaram-se uma realidade diária. As pessoas já não conseguem discernir o que é verdadeiro diante de fotos, vídeos e textos gerados por IA que inundam a internet. A verdade parece ser a primeira vítima nessa guerra online.

Agora arrependido de seu trabalho pioneiro em redes neurais — pelo qual recebeu o Prêmio Nobel de Física em 2024 — Hinton teme que sistemas de IA possam, eventualmente, modificar seu próprio código e se tornar mais inteligentes que os seres humanos. Isso se transformaria em um jogo de soma zero pelo controle, em que a cooperação daria lugar ao conflito.

Inteligência Artificial Geral (AGI)

A Inteligência Artificial Geral (AGI) é a mais nova e mais ameaçadora iteração da IA. Superando as capacidades cognitivas humanas em uma ampla gama de funções, a AGI vai além da “IA estreita”, que normalmente se limita a atividades designadas, como escrever e gerar imagens.

Enquanto o Grok pode produzir sob demanda um relatório equilibrado de 500 palavras sobre o suposto uso do medicamento para perda de peso Ozempic por um emagrecido Ryan Seacrest — uma composição impressionante feita em dois segundos, capaz de deixar qualquer jornalista profissional apreensivo — a AGI eleva exponencialmente o nível de risco.

Indo muito além da programação básica de IA, o aprendizado autônomo da AGI pode levar a comportamentos que os humanos não conseguem prever. O simpático robozinho que hoje entrega pizzas da Domino’s pode se transformar amanhã em um leviatã cibernético. Câmeras de segurança podem se tornar a base para uma vigilância em massa sem precedentes a serviço de regimes totalitários. Seria a fusão perfeita entre as Big Techs e o Big Government.

Uma busca no Google reconhece prontamente a realidade atual: “A concentração da propriedade em diversas formas de mídia — das notícias nacionais às redes sociais e até mesmo à infraestrutura da internet — nas mãos de um número limitado de gigantes corporativos levanta preocupações quanto à extensão de sua influência sobre as informações que recebemos.”

O multibilionário do Facebook, Mark Zuckerberg, afirmou estar focado em “superinteligência pessoal e fluxos de trabalho agentivos”. O CEO da Meta Platforms disse que prefere correr o risco de “gastar mal algumas centenas de bilhões” em infraestrutura a perder a transição para a AGI.

Ferramenta capitalista lucrativa

Em termos puramente financeiros, a IA é uma ferramenta capitalista cada vez mais lucrativa. A tecnologia em evolução deve aumentar o valor anual total de bens e serviços produzidos no mundo em sete por cento (cerca de US$ 13 trilhões) até 2030. No entanto, isso está ocorrendo a um custo humano significativo.

Entre janeiro e setembro de 2025, mais de 37 mil perdas de empregos foram diretamente atribuídas à IA ou a mudanças tecnológicas relacionadas.

No mínimo, diz Elmore, a segurança pública precisa ser considerada. “O ônus da prova precisa voltar para os desenvolvedores, para que provem que sua tecnologia é segura, em vez de recair sobre os defensores da segurança a responsabilidade de provar que o desenvolvimento nos levará à extinção”, afirma.

luditas modernos?

Em última análise, os céticos da IA insistem que não são luditas modernos quebrando máquinas de forma irracional, mas cidadãos conscientes preocupados com a exploração do trabalho, riscos à segurança e práticas antiéticas de uso de dados em um setor que cresce rapidamente e é pouco regulamentado.

Krueger afirma que, em vez de fazer uma condenação generalizada da inovação, os críticos da AGI defendem um exame mais rigoroso e maior supervisão dos modelos de negócios por trás dela. Por isso, pedem uma pausa global no desenvolvimento até que se saiba mais sobre os efeitos de longo prazo da IA.

“Não é um problema técnico, é um problema social”, conclui ele. “A falta de conscientização fortalece agentes que estão satisfeitos com a ideia de a IA substituir a humanidade.”

Uma coisa é certa: a AGI não resolverá isso. Como observa Elmore: “Uma vez que lhe é atribuída uma função de utilidade, ela assume o controle, e os humanos saem do circuito.” É o Exterminador do Futuro ganhando vida.

Clark Johnson é um autor e jornalista baseado no Texas, com foco em temas como literatura, história e questões sociais.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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