PUBLICADO EM 22 de set de 2021

Na ONU, Bolsonaro passou atestado de indigência moral, diz analista

Chefe do governo brasileiro discursou como se estivesse falando ao seu “cercadinho”. “Ele não é um estadista, não está no lugar certo”, afirma Thomas Heye

Na pobre agenda em Nova York, Bolsonaro se reuniu com o ultradireitista polonês Andrzej Duda (foto) e o britânico Boris Johnson – Foto: Alan Santos/PR

O discurso de Jair Bolsonaro na 76° Assembleia Geral das Nações Unidas, a ONU, causou vergonha no Brasil e no mundo por diversos motivos. Pelas mentiras, informações falsas, defesa de protocolo anticientífico no combate à pandemia e absoluta ignorância sobre o papel de um chefe de Estado. No organismo que reúne os líderes do mundo, que normalmente discursam sobre questões de interesse global, o presidente brasileiro falou como se estivesse se dirigindo ao seu cada vez menor cercadinho de fanáticos em Brasília. “Claro que é absurdo. Mas ele não tem noção disso. Ele não é um estadista, não está no lugar certo. É um estranho no ninho, uma comédia. O pessoal está batendo palmas para ele dançar”, diz Thomas Heye, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Para Heye, “Bolsonaro passou um atestado de indigência moral e intelectual para o planeta inteiro”. O termo “que vergonha” e as hashtags #BolsonaroVergonhaDoBrasil e #Bolsonarovergonhamundial estiveram entre os assunto mais citados no Twitter. No palco diplomático mais importante do planeta, o ocupante da Presidência do Brasil proferiu uma profusão de mentiras. Disse que estava no púlpito para “mostrar o Brasil diferente daquilo publicado em jornais ou visto em televisões”. Afirmou que o país está “há dois anos e oito meses sem qualquer caso concreto de corrupção”.

Declarou apoio ao tratamento precoce contra a covid. Nesse trecho do discurso, ele inclusive se autoincrimina perante o mundo sobre crimes que juristas importantes consideram que a CPI da Covid comprovou inequivocamente. Mentiu sobre dados da Amazônia, de cuja destruição seu governo é cúmplice e incentivador. Manifestou “profunda apreensão” pelo futuro do Afeganistão, e prometeu: “Concederemos visto humanitário para cristãos”, o que foi considerado o carimbo de sua islamofobia. Menos de 1% dos afegãos são cristãos.

Chefe do governo mancha imagem do país

A fala do brasileiro na ONU não piora a situação de vergonha internacional, mas confirma a já péssima imagem do Brasil perante líderes, imprensa e sociedades do mundo todo, opina o professor da UFF, após a vergonha na ONU. O problema é que, uma vez “colada” ao país, a mancha leva muito tempo para ser limpa. Heye cita o Plano Cruzado. Em 20 de fevereiro de 1987, o então presidente José Sarney fez um pronunciamento de rádio e TV anunciando a suspensão do pagamento dos juros da dívida externa.

O calote nem chegou a ser completamente concretizado. Na época, o país deixou de pagar principalmente os credores de mais longo prazo, bancários e bancários privados. “Mas as dívidas mais de curto prazo e com organismos internacionais, não”, explica o economista Guilherme Mello, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Mesmo assim, só por isso, nossos filhos e netos pagarão mais pelo dinheiro emprestado lá fora, porque nosso risco aumentou”, diz Heye. “Danos graves causados à imagem do país podem até ser revertidos mais rapidamente em relação a governos. Amanhã, de repente, o governo Biden, por exemplo, vira nosso melhor amigo, se for interesse deles. Já em relação à sociedade americana, empresas, imprensa, academia e outros setores, a coisa é diferente. Governos estão atrás de interesses imediatos, mas convencer um professor universitário, um jornalista, tem que ter mais substância do que simplesmente retórica e boa vontade.”

The Guardian: “Mentiras descaradas”

A imprensa internacional, aliás, não amenizou nas críticas. O britânico The Guardian foi duro. Disse que o presidente brasileiro declarou na ONU que tinha ido apresentar “um novo Brasil, com sua credibilidade restaurada perante o mundo”. “Mas em um discurso de 12 minutos, o populista de extrema direita pregou remédios ineficazes contra a Covid, denunciou medidas de contenção do coronavírus e propagou uma sucessão de distorções e mentiras descaradas sobre a política brasileira e o meio ambiente”, diz o Guardian.

O The New York Times publicou matéria de destaque com o título: “Não vacinado e desafiador, Bolsonaro rebate críticas no discurso da ONU”. “O presidente do Brasil liderou uma das respostas à pandemia mais criticadas do mundo. Bolsonaro minimizou repetidamente a ameaça do vírus, criticou medidas de quarentena e foi multado por se recusar a usar máscara. Seu governo demorou a garantir o acesso às vacinas, mesmo com o vírus sobrecarregando hospitais em todo o país.”

Fonte: Rede Brasil Atual

COLUNISTAS

QUENTINHAS