PUBLICADO EM 09 de fev de 2026

‘Melania’: O Filme. O Suborno. A Vergonha.

Descubra críticas sobre o filme Melania e como ele a retrata de maneira impessoal e controversa. Saiba mais sobre as relações com a Amazon

Produção de filme sobre Melania envolve vergonha e subornos

Produção de filme sobre Melania envolve vergonha e subornos

Por Robert Reich

Não vi o filme. Espero que você também não veja.

Esta é uma das críticas mais gentis:

“Ao longo de cerca de 104 minutos, a primeira-dama entrega narrações descaradamente roteirizadas e vazias de sentido, com toda a convicção de alguém que acabou de acordar de uma soneca de duas horas e não consegue lembrar que dia é.”

Manohla Dargis, do The New York Times, vê um retrato “lustroso e curiosamente impessoal” de uma mulher que “raramente abandona seu semblante impassível, à la Esfinge”. Nick Hilton, do The Independent, chama a primeira-dama de um “vazio carrancudo de puro nada, neste pedaço hediondo de propaganda”. O crítico do Guardian, Xan Brooks, diz que o filme “não tem uma única qualidade redentora” e o compara a um “tributo medieval para aplacar o rei ganancioso em seu trono”.

Desde que o crítico musical do Washington Post, Paul Hume, observou que a voz de Margaret Truman, em um concerto no Constitution Hall em 1950, era “bastante desafinada em boa parte do tempo”, uma apresentação de um membro da família de um presidente em exercício não recebia críticas tão aversas.

Um filme ruim — e críticas ainda piores

Ainda assim, como o Washington Post agora pertence ao homem que gastou US$ 75 milhões no filme (US$ 40 milhões para produzi-lo e US$ 35 milhões para promovê-lo), de alguma forma duvido que o Post vá detonar o filme. (Ao menos Monica Hesse, em sua resenha para o Post, teve a honestidade de admitir que “se você suspeita que eu vim aqui hoje para esculhambar um filme sobre a esposa de um presidente notoriamente melindroso e anti-jornalismo, que foi financiado pela empresa do homem que também paga meu salário — HOJE NÃO, SATÃ. Você acha que eu sou idiota?”)

Meu objetivo hoje é menos destacar essa desculpa inane de filme do que falar sobre sua verdadeira desculpa para existir: permitir que Jeff Bezos dê um grande e gordo suborno ao presidente dos Estados Unidos.

O verdadeiro motivo por trás do documentário

Por que Bezos o subornaria? Ora, por favor.

Bezos, um dos homens mais ricos do mundo, é dono da Amazon e de muitas outras empresas que dependem dos caprichos do sociopata no Salão Oval. (Segundo o The Wall Street Journal, Trump vendeu a ideia do documentário a Bezos durante um jantar em Mar-a-Lago, em dezembro de 2024, logo após a eleição.)

A Amazon Web Services, de Bezos, tem um contrato de US$ 1 bilhão com a Administração de Serviços Gerais (GSA) para serviços de computação em nuvem, que presumivelmente Bezos gostaria de ver renovado. Sua empresa de foguetes, a Blue Origin, tem mais de US$ 2,3 bilhões em contratos com a Força Espacial dos Estados Unidos.

Várias empresas de Bezos estão sujeitas a possíveis tarifas sobre produtos vindos da China. A Amazon está sob a sombra de uma grande ação antitruste movida pela Comissão Federal de Comércio (FTC) — quando a FTC ainda era independente, antes de passar ao suposto controle do Salão Oval. O julgamento está previsto para 2027.

E assim por diante.

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O empresariado americano e os círculos do inferno

Quando a história desse período sórdido dos Estados Unidos for escrita — supondo que não seja escrita por historiadores tentando bajular um futuro regime fascista — espero que os líderes do empresariado americano sejam condenados ao fogo do inferno que merecem por ajudarem a destruir a democracia americana.

O círculo externo do inferno será reservado aos CEOs que permaneceram em silêncio para não provocar o narcisista-chefe.

Jamie Dimon, do JPMorgan Chase, ficará aqui porque, apesar de seu papel presumido como porta-voz do empresariado americano, Dimon não fez nenhuma crítica a Trump além de sugerir, nos termos mais vagos possíveis, que o ataque de Trump à independência do Federal Reserve “provavelmente não é uma boa ideia”.

O círculo intermediário será reservado aos líderes empresariais que se renderam às exigências extorsivas de Trump em troca de vantagens pessoais.

Os Ellison — o pai, Larry, e o filho, David — estarão lá, junto com Shari Redstone e o conselho da Paramount, por terem pago a Trump US$ 16 milhões para encerrar seu processo completamente infundado contra a CBS.

Também nesse círculo intermediário estarão Bob Iger, CEO da Disney, e Debra O’Connell, presidente do ABC News Group e da Disney Entertainment Networks, por terem pago a Trump US$ 15 milhões para encerrar seu processo igualmente espúrio contra a ABC News.

No círculo interno, onde o fogo do inferno arde com mais intensidade, estarão os líderes empresariais que foram além de simplesmente ceder à extorsão de Trump e decidiram pagar subornos gordos e descarados.

Suborno explícito e degradação democrática

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, terá lugar de destaque aqui, depois de gastar um quarto de bilhão de dólares para eleger Trump.

Tim Cook, CEO da Apple, também terá um lugar reservado, por presentear Trump com uma placa de vidro feita sob medida, montada sobre uma base de ouro de 24 quilates.

Também encontraremos aqui os CEOs que desembolsaram US$ 300 mil cada para o salão de baile de Trump — incluindo os magnatas das criptomoedas Cameron e Tyler Winklevoss, o magnata do petróleo Harold Hamm, Stephen Schwarzman, da Blackstone, e todos os figurões da Big Tech.

Mas Jeff Bezos, com seu suborno de US$ 75 milhões a Trump, merece um lugar especial no círculo mais interno do inferno.

Os US$ 40 milhões que ele pagou à produtora de Melania Trump são pelo menos US$ 35 milhões a mais do que o custo típico de documentários de alto nível. (Para efeito de comparação, a Magnolia Pictures e a CNN Films produziram RBG, um documentário sobre a falecida ministra da Suprema Corte Ruth Bader Ginsburg, por cerca de US$ 1 milhão.)

Segundo o Journal, Melania Trump embolsou mais de 70% desses US$ 40 milhões — ou mais de US$ 28 milhões.

Os US$ 35 milhões adicionais que Bezos desembolsou para promover Melania equivalem a dez vezes o que outros documentários de grande visibilidade gastam em marketing. O orçamento promocional de RBG foi de cerca de US$ 3 milhões. (É claro, Melania Trump não é Ruth Bader Ginsburg, então alguém poderia argumentar que Melania precisava de um orçamento promocional maior. Mas tão maior assim?)

Tudo isso em um momento em que Bezos está cortando a redação do Post — seu coração e sua alma — para “economizar”. Esqueça o círculo interno: Bezos merece estar no centro do inferno.

O dinheiro da promoção aparentemente funcionou, ao menos nos Estados Unidos, onde as vendas de ingressos no fim de semana de estreia de Melania totalizaram US$ 7 milhões.

Mas sejamos realistas. Um orçamento promocional de US$ 35 milhões faz as pessoas irem ao cinema até para ver tinta secar.

Se tudo correr bem — considerando que o fim de semana de estreia costuma representar cerca de 25% da bilheteria total e que as salas de cinema ficam com metade — a Amazon pode acabar com algo em torno de US$ 14 milhões sobre seu investimento de US$ 75 milhões. Uma ninharia.

Mas isso nunca foi um investimento financeiro. Foi um investimento em bajular Trump. Como Ted Hope, que teve papel fundamental na criação da divisão de filmes da Amazon, questionou em voz alta ao The New York Times: “Como isso não pode ser equiparado a tentar cair nas boas graças ou a um suborno explícito? Como não seria?”

É claro que é um suborno explícito.

Se os Estados Unidos ainda tivessem um Departamento de Justiça, Bezos seria indiciado por suborno de um agente público, nos termos do 18 U.S. Code § 201, que criminaliza oferecer ou dar qualquer coisa de valor a um agente público com a intenção de influenciar seus atos oficiais. Pena: prisão por até 15 anos.

(Observe também: a Constituição dos EUA lista o recebimento de suborno como crime passível de impeachment para um presidente.)

Há um prazo de prescrição para a persecução criminal desse tipo de suborno: a acusação deve ser apresentada em até cinco anos a partir do ato.

Portanto, se os Estados Unidos voltarem a ter um verdadeiro Departamento de Justiça a partir de janeiro de 2029, o inferno de Bezos pode se tornar realidade.

Robert Reich é escritor, roteiristam, presidente da Common Cause, cofundador da The American Prospect, do Economic Policy Institute e da Inequality Media, professor e cartunista.

Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy

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