PUBLICADO EM 08 de mar de 2026

Março Mulher: Cinema, memória e política; por Carolina Maria Ruy

Mergulhe nos temas do Março Mulher através de filmes como Kramer x Kramer e suas múltiplas dimensões culturais.

O filme Kramer x Kramer, com Mary Streep e Dustin Hoffman

O filme Kramer x Kramer, com Mary Streep e Dustin Hoffman

No Março Mulher, múltiplos temas sobre a condição feminina vêm à tona. Podemos abordá-los sob diversos aspectos: político, social, econômico, biológico ou ainda a partir das intersecções entre essas abordagens.

Acrescento aqui outro viés: o cultural, que nos ajuda a dar conta dessa amplitude. Mais precisamente o cinema, que nos convida a refletir e também a lidar com memórias. Isso ajuda muito.

Pensando nisso, criei, em 2019, uma seleção de filmes e os agrupei em nichos aleatórios, de forma que o leitor possa ser provocado a ter a mesma liberdade.

Retomo aquele texto agora, em 2026, revisando ideias e palavras e acrescentando as obras Kramer versus Kramer, Zuzu Angel, Ainda Estou Aqui, A Garota de Rosa-Shocking e também a série And Just Like That….

É, na verdade, uma provocação — ao mesmo tempo séria e bem-humorada. Vamos lá!

Filmes engajados

Norma Rae (EUA, 1979, direção: Martin Ritt)

Um filme pronto para integrar qualquer debate político sobre uma mulher operária e mãe solteira. Fez muito sucesso nos meios políticos e intelectuais da época, influenciando mulheres trabalhadoras e mantendo-se na memória de uma geração de militantes. Hoje, entretanto, pode soar datado e até panfletário.

Pão e Rosas (Reino Unido, 2000, direção: Ken Loach)

Este filme também tem uma mensagem política clara. Conta a jornada de Maya, que sai do México para entrar clandestinamente nos Estados Unidos. Ela trabalha como faxineira junto com outros imigrantes ilegais e acaba se engajando na luta social, mesmo que isso represente um grande risco para ela. Vinte e seis anos após seu lançamento, o filme permanece tristemente atual, diante dos ataques desumanos do governo de Donald Trump contra imigrantes.

Zuzu Angel (Brasil, 2006, direção: Sergio Rezende)

Zuzu Angel divulga a luta da estilista Zuleika Angel Jones para descobrir o que aconteceu com seu filho, o militante Stuart Angel, morto pela ditadura militar. O filme mostra como mulheres se envolveram na resistência ao regime não apenas por meio da militância política direta, mas também por terem sido profundamente afetadas pela violência do Estado contra seus familiares.

A partir desse exemplo, podemos lembrar também das organizações de mães e de mulheres contra a carestia, da luta pelos desaparecidos políticos no Brasil e do movimento das Mães da Praça de Maio, na Argentina, que tiveram seus filhos e netos sequestrados pela ditadura naquele país.

As Sufragistas (Reino Unido, 2015, direção: Sarah Gavron)

Um filme honesto que cumpre um papel importante ao relatar a histórica campanha pelo direito ao voto feminino. Mostra campanhas e personalidades fundamentais desse movimento na Inglaterra, como as ativistas Emmeline Pankhurst e Emily Davison. A história é bastante conhecida, o que torna o enredo previsível, mas ainda assim vale por apresentar um capítulo essencial da história das mulheres.

Ainda Estou Aqui (Brasil, 2024, direção: Walter Salles)

O primeiro Oscar do cinema brasileiro trata da saga de uma mulher forte que sofreu com a perda imposta pela ditadura militar. Assim como em Zuzu Angel, a história de Eunice Paiva — esposa do deputado Rubens Paiva, assassinado pela ditadura e cujo corpo nunca foi encontrado — é emblemática. O filme mostra como a repressão afetou famílias, mulheres e crianças, cidadãos brasileiros injustamente castigados pelos horrores do regime.

Quatro vezes Meryl Streep

Kramer vs. Kramer (EUA, 1979, direção: Robert Benton)

Em Kramer vs. Kramer, a jovem Meryl Streep, no papel de Joanna Kramer, renuncia à maternidade e ao casamento em nome de uma busca por realização pessoal que, como mulher, nunca havia conhecido. O foco do filme é o malabarismo do personagem de Dustin Hoffman, Ted Kramer, que se vê sozinho, obrigado a assumir o cuidado com a casa, com o filho e com o trabalho — um enredo comum para a grande maioria das mulheres.

Por trás da história está a emergência de uma nova mulher, formada por uma geração que lutou por liberdade, emancipação e espaços de poder. Conquistas que, como o filme sugere, também cobraram um alto preço.

As Pontes de Madison (EUA, 1995, direção: Clint Eastwood)

Uma romântica história sobre um amor que nasce do encontro casual entre a dona de casa Francesca, interpretada por Meryl Streep, e o fotógrafo da National Geographic, Robert, papel de Clint Eastwood, que também dirige o filme.

Ao contrário de outros papéis marcantes da atriz — como Miranda Priestly ou Margaret Thatcher — Francesca é uma típica dona de casa que se anulou em nome da família. Ela abandonou seus sonhos para cuidar do marido e dos filhos. Quando conhece Robert, percebe o que abriu mão, mas se vê presa à vida que construiu. É um filme sensível e atemporal.

O Diabo Veste Prada (EUA, 2006, direção: David Frankel)

Aqui Streep interpreta Miranda Priestly, editora da revista Runway, uma das mais influentes publicações de moda do mundo. Priestly é o retrato da mulher que chegou ao topo no mundo empresarial e que não mede esforços para se impor em um ambiente ultracompetitivo.

É um filme moderno e divertido, que mostra mulheres se relacionando no trabalho — ora com rivalidade, ora com solidariedade — e que coloca questões sobre a vida contemporânea, ainda que não se proponha a aprofundá-las.

A Dama de Ferro (Reino Unido/França, 2011, direção: Phyllida Lloyd)

Margaret Thatcher — cuja atuação política representou um retrocesso social profundo, especialmente para trabalhadores e sindicalistas — foi a primeira-ministra do Reino Unido entre 1979 e 1990. Interpretada por Meryl Streep, sua trajetória é também um caso interessante de uma mulher poderosa em um mundo dominado pelos homens.

O filme, entretanto, embora revele o reacionarismo e a “mão de ferro” com que Thatcher governou, concentra-se sobretudo na doença e na solidão que marcaram seus últimos anos de vida.

Forçou a barra!

A Papisa Joana (Alemanha, 2009, direção: Sönke Wortmann)

A história deste filme sustenta que, no século IX, uma mulher disfarçada de homem teria chegado ao topo da hierarquia do Vaticano. Existe uma lenda sobre isso, mas ela não tem credibilidade histórica e é geralmente considerada uma sátira antipapal.

O filme funciona como um panfleto contra o patriarcado e contra a secular dominação masculina nas principais instituições humanas. A intenção pode até ser interessante, mas o enredo não convence.

Domésticas e babás — quando o trabalho se confunde com a vida

Diário de uma Babá (EUA, 2007)

O tema da babá — a mulher que cria o filho do patrão — é delicado e caro às mulheres. Em Diário de uma Babá, a brutalidade sutil do descaso nas relações familiares da alta sociedade é mostrada de forma bem-humorada e inteligente. A babá assume mais do que o cuidado com a criança, já que seus pais, presos a uma vida de aparências, não conseguem construir vínculos profundos com ela.

Histórias Cruzadas (EUA, 2011, direção: Tate Taylor)

Babás negras cuidando de crianças brancas, com mães inexperientes — ainda quase meninas. O filme mostra a relação ambígua entre empregadas negras e suas patroas brancas: maternal por um lado, opressiva por outro.

A partir dessa relação, o filme aborda o racismo no sul dos Estados Unidos na década de 1960, especialmente no Mississippi, e retrata o início da luta pelos direitos civis.

Que Horas Ela Volta? (Brasil, 2015, direção: Anna Muylaert)

A história de Val, uma pernambucana que vive há muitos anos em São Paulo trabalhando como empregada doméstica em uma família rica, ganha novos contornos com a chegada de sua filha, que vem à cidade para estudar.

O diferencial do filme é a postura crítica e questionadora da jovem, que resgata o vínculo com a mãe e tensiona as relações de classe. A narrativa aponta para uma possível superação da condição social, não apenas pelo esforço individual, mas também pelo acesso à educação e às políticas públicas.

Roma (México, 2018, direção: Alfonso Cuarón)

O filme mexicano, lançado pela Netflix, lembra em vários aspectos Que Horas Ela Volta?. Mas aqui há uma cumplicidade mais profunda entre a empregada Cleo e a família para quem trabalha, o que torna a convivência mais humana.

Ambientado no início dos anos 1970, Roma mostra como muitas famílias são sustentadas por mulheres. Os homens, no filme, abandonam companheiras grávidas ou simplesmente deixam suas famílias. As mulheres, por sua vez, mostram-se solidárias, independentemente de classe ou origem.

Objetificação da mulher

A Outra (Reino Unido, 2008, direção: Justin Chadwick)

O conturbado casamento do rei Henrique VIII com Ana Bolena revela como as mulheres foram historicamente reduzidas a instrumentos de reprodução e prazer masculino. Suas vidas pertenciam aos homens, que podiam descartá-las conforme seus interesses.

Henrique VIII teve seis esposas e dispôs da vida de várias delas em sua obsessão por gerar um herdeiro homem. Ironicamente, nunca alcançou plenamente esse objetivo. Duas de suas filhas tornaram-se rainhas: Maria I, conhecida como Maria, a Sanguinária, e Isabel I, chamada de “A Rainha Virgem”.

Para rever conceitos

A Garota de Rosa-Shocking (EUA, 1986, direção: Howard Deutch)

Esse clássico da minha juventude chega, em 2026, aos 40 anos. A saga, as dores e o estilo de Andie Walsh marcaram uma geração. Garota pobre em uma escola de ricos, ela vive um amor atravessado pelo preconceito de classe e sintetiza o charme underground dos anos 1980.

Andie representa a jovem que teve que assumir responsabilidades cedo e que nunca pôde se dar ao luxo de vacilar no trabalho, no estudo ou na vida. O filme é nostálgico, dinâmico e marcado por uma moda influenciada pela contracultura e por uma excelente trilha sonora.

Aprendendo com a Vovó (EUA, 2015, direção: Paul Weitz)

A avó da história é o oposto de todos os padrões esperados. Bissexual, escritora de sucesso e completamente independente, ela desperta paixões em mulheres mais jovens e leva uma vida despojada.

Sua filha é uma empresária poderosa e implacável. Sua neta, com medo da mãe, procura a avó porque precisa fazer um aborto. Três gerações de mulheres independentes. Os homens aqui são quase irrelevantes — o que pode ser exagerado, mas serve à narrativa. O filme é divertido e as atuações de Lily Tomlin e Julia Garner são excelentes.

Dumplin’ (EUA, 2018, direção: Anne Fletcher)

Diversos filmes recentes abordam a história da garota acima do peso que não se sente aceita e que, ao conquistar autoestima, passa a se afirmar diante dos padrões de beleza.

Dumplin’ se destaca por alguns motivos. A protagonista não se subestima e possui uma postura crítica diante das pressões sociais. Quando decide participar de um tradicional concurso de miss no Texas com um grupo de amigas “contra o sistema”, a participação começa como protesto. Mas, com a ajuda de amigas drag queens, elas acabam transformando o próprio concurso.

É um filme juvenil, sensível e carismático.

And Just Like That… (série, EUA, 2021–2025, criação: Michael Patrick King)

Finalizo com uma série cuja trajetória acompanhei desde o início das grandes produções televisivas. A história de Carrie Bradshaw e suas amigas começou em 1998, com Sex and the City, e seguiu viva, de uma forma ou de outra, por 27 anos, chegando ao fim em 2025.

Carrie, Miranda e Charlotte transmitem uma mensagem poderosa sobre a vida adulta — para mulheres e homens. Uma mensagem sobre ignorar papéis pré-determinados, rejeitando tanto a síndrome da Cinderela quanto a do Peter Pan.

A série é frequentemente lembrada como referência de moda, e de fato as personagens ostentam marcas de luxo. Mas isso não é o mais importante. O mais marcante é a celebração da vida nas grandes cidades e a paixão pelo tempo presente.

Manter uma história viva por 27 anos é um feito raro. O legado de Sex and the City e And Just Like That… está na construção de um imaginário sobre mulheres independentes que enfrentam seus próprios dilemas sem perder a graça, o charme e, sobretudo, a amizade sincera entre elas.

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Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora, coordenadora do Centro de Memória Sindical, editora do Rádio Peão Brasil. Integra o Conselho Consultivo da Fundação Maurício Grabois.



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