PUBLICADO EM 26 de nov de 2021
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Maid, na Netflix: luta de classes na telinha

Na loja de doces de calorias vazia do entretenimento da televisão americana, a nova minissérie da Netflix, Maid, faz algo diferente e o faz muito, muito bem. Maid quebra o cânone para nos mostrar pessoas reais da classe trabalhadora, no trabalho e em casa. Não os doutores e detetives que parecem preencher exclusivamente nossas telas. Não os cowboys ou criminosos. Nem pessoas ricas em jogos de guerra em salas de reuniões corporativas.

Reprodução Netflix

Por Michael Berkowitz

Ao invés de insultar nossa inteligência, nós somos apresentados a pessoas da classe trabalhadora realistas, exercendo seu ofício, arruinando seus relacionamentos e tentando sobreviver em um mundo que pega seu trabalho e os dá menos do que um meio de vida.

O enredo desse drama de trabalhadores tem mais tensão do que qualquer número de dramas de aventura falsos e estereotipados. Situações muito comuns ao nosso mundo socioeconômico envergonham as tramas inventadas que desviam o escrutínio do mundo real que nós habitamos.

Alex Russell (Margaret Qualley) tenta deixar seu parceiro alcoólatra, Sean Boyd (Nick Robinson), o pai de sua filha, Maddy. Sean claramente se preocupa com Alex. Mas ele é um alcoólatra praticante cujo padrão para Alex é o abuso. Ela foge com Maddy para um abrigo de mulheres, onde ela rapidamente aprende a complexidade de navegar pelos programas do governo, encontrar moradias permanentes acessíveis e garantir empregos com baixa qualificação.

Enquanto ela salta de uma situação perigosa e insustentável para outra, a família geralmente faz as situações piores. Sua mãe (interpretada pela mãe de Qualley na vida real, Andy McDowell) é uma sociopata delirante e autoritária. Seu pai, também um alcoólatra em recuperação que abraçou a religião, tenta empurra-la de volta para o relacionamento com Sean.

A tensão dramática da vida real é gerada pela luta diária de Alex para encontrar um lugar para ela e Maddy de três anos para dormir, ganhar dinheiro suficiente para alimenta-las e manter a custódia de sua filha. Como ela costuma limpar as casas dos ricos, sua própria situação é profundamente sentida.

Alex desliza, vacila, se acomoda. Ela não é uma super-heroína perfeita. Sob pressão, ela às vezes toma más decisões que ameaçam ela e Maddy. Entretanto, sua força de vontade e o amor por sua filha sustentam esperança e coragem.

A amizade e o apoio vêm de outras mulheres em sua situação e através de seu trabalho. Embora frequentemente excessivamente complexos e subfinanciados, os programas sociais oferecem uma promessa e uma corda de salvamento, um abrigo na tempestade onde ela pode recuperar o equilíbrio.

A criadora e produtora, Molly Smith Metzler adaptou o livro de memórias best-seller de Stephanie Land, “Maid: Hard Work, Low Pay, and a Mother’s Will to Survive”, em um olhar intransigente sobre os trabalhadores pobres. A escrita afiada é habilmente trazida à vida pelas habilidades peritas do elenco. Particularmente dolorosas são as interações entre Alex e Sean, e Alex e sua mãe, enquanto nós assistimos as fragilidades dos relacionamentos sob o estresse da deformação da pobreza.

Claramente, nós precisamos de mais histórias sobre como vivemos para nós construirmos de volta melhor uma nova sociedade.

Michael Berkowitz, um veterano dos direitos civis e movimentos antiguerra, trabalhou nos recalls de Wisconsin, no Occupy e em outros movimentos locais que prometem mudanças sociais.

Fonte: People´s World

Tradução: Luciana Cristina Ruy

Veja aqui o trailer de Maid:

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