
O Centro Residencial Familiar do Sul do Texas em Dilley, Texas, em 2019. Ilana Panich-Linsman
Por Shannon Heffernan, Anna Flagg e Jesse Bogan
Kheilin Valero Marcano, Stiven Arrieta Prieto e sua filha de 1 ano, Amalia, sentiram uma enorme alegria quando, no início de fevereiro, receberam permissão para deixar o Centro de Processamento de Imigração de Dilley.
Mas, depois de passarem cerca de dois meses trancados nessa instalação de detenção semelhante a uma prisão para crianças imigrantes e seus pais, no interior do sul do Texas, a família rapidamente enfrentou novos e inesperados desafios. Eles foram levados de carro por mais de uma hora até Laredo, na margem norte do Rio Grande, e deixados em um abrigo com pouco mais do que as roupas que vestiam. Estavam a 600 milhas (cerca de 965 km) de distância de onde haviam sido presos, em El Paso. E ainda mais longe da Califórnia, onde esperavam se estabelecer enquanto seu caso de imigração avançava.
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No ano passado, o governo Trump deteve milhares de crianças como Amalia. Muitas foram mantidas no centro de detenção de Dilley, frequentemente por semanas ou meses. A maioria das pessoas enviadas para a instalação, que tem 2.400 leitos, acabou sendo deportada para outros países. Mas 45% foram liberadas para aguardar o resultado de seus casos nos tribunais de imigração, segundo dados obtidos pelo Deportation Data Project e analisados pelo The Marshall Project.
Depois de sair de Dilley, as famílias enfrentam consequências médicas, psicológicas e financeiras da detenção. E, embora estejam aliviadas por deixar as duras condições do confinamento, muitas dizem que a própria libertação também pode ser angustiante.
A família de Amalia, que chegou aos Estados Unidos vinda da Venezuela em 2024, encontrou-se em Laredo sem dinheiro suficiente para comprar passagens de avião ou ônibus. A bebê ainda estava frágil, após passar mais de uma semana no hospital com COVID e RSV (vírus sincicial respiratório), que havia feito seus níveis de oxigênio caírem a níveis perigosamente baixos, segundo documentos judiciais. De acordo com o advogado da família, a criança foi liberada de Dilley sem seus medicamentos nem documentos importantes, como certidão de nascimento ou registros de vacinação, que estavam com a família quando foram detidos.
A CoreCivic, empresa que opera o centro de detenção de Dilley, recusou-se a responder perguntas, mas afirmou que não tem papel nas decisões sobre deportação ou liberação de pessoas. O Departamento de Segurança Interna dos EUA também se recusou a responder uma lista detalhada de perguntas sobre as liberações em Dilley ou sobre as alegações de famílias específicas a respeito de sua detenção. Porém, um comunicado anterior do órgão afirmou que Amalia recebeu cuidados adequados.
Em meados de janeiro, o Holding Institute, em Laredo, recebeu uma ligação do serviço de imigração (ICE) perguntando sobre sua capacidade para receber imigrantes vindos de Dilley, segundo o reverendo Mike Smith, que administra o centro comunitário e abrigo com uma pequena equipe. No mesmo dia, famílias começaram a chegar de ônibus à sua porta. Elas já haviam recebido pessoas de Dilley antes, mas em números menores.
Por mais de um mês, disse ele, famílias continuaram sendo deixadas ali, carregando apenas os pertences que tinham quando foram presas, semanas ou meses antes. Em algumas noites, 35 ou 40 pessoas chegavam, geralmente confusas e angustiadas.
“A primeira pergunta deles geralmente é uma de duas: ou ‘Onde fica o banheiro?’ ou ‘Vocês têm algum lugar onde eu possa ligar o telefone para carregá-lo?’”, disse Smith.
Muitas das famílias, sem dinheiro ou documentos para viajar, passavam a noite no abrigo, que tem 150 camas em seus dormitórios e mesas de piquenique e cadeiras alinhadas em um pátio varrido pelo vento. Trens passando buzinando cruzam bem do lado de fora do muro do local. Smith disse que o Holding Institute atualmente não recebe financiamento do governo — nem da CoreCivic. Apesar dos custos, o líder da instituição de caridade em Laredo afirmou que não quer recusar ninguém nem julgar as autoridades de fiscalização da imigração.
“Escolhemos fazer isso porque acreditamos que é a coisa certa a fazer”, disse Smith.
As famílias que chegaram ao Holding Institute neste inverno, disse Smith, começaram suas jornadas em países de todo o mundo — Rússia, Cuba, Venezuela, Honduras, El Salvador, China e Índia. Algumas já viviam nos Estados Unidos havia anos. Quando eram libertadas de Dilley, recebiam intimações para comparecer ao tribunal em breve, geralmente perto do lugar onde foram presas — às vezes a centenas ou até milhares de quilômetros de distância.
Foi o que aconteceu, segundo Smith, com uma mulher angolana e sua filha de 6 anos que chegaram de Dilley em meados de fevereiro. Ela havia sido presa enquanto levava a menina para a escola, embora ainda tivesse um processo de imigração ativo em andamento nos tribunais. Smith disse que elas tiveram que tentar descobrir como pegar um avião ou ônibus de volta para casa, no Maine, a mais de 2.200 milhas (cerca de 3.500 km) de distância.
Smith contou que, quando as famílias chegam ao abrigo, muitas vezes estão perplexas sobre como e por que foram presas. Algumas passam a questionar sua fé. Muitas precisam de atendimento psicológico, mas não há tempo nem recursos para “abrir esse tipo de ferida mental”. Segundo ele, os imigrantes querem voltar para casa rapidamente, para descobrir se ainda têm emprego e se seus filhos podem retornar à escola.
“Eles estão cansados. Estão cansados. Estão cansados”, disse Smith sobre as famílias.
“Você verá as lágrimas depois, quando perceberem que estão seguras.”
Valero Marcano, Arrieta Prieto e sua filha finalmente conseguiram chegar à Califórnia com a ajuda de sua equipe jurídica. A família conversou com o The Marshall Project por vídeo e pediu que sua localização exata não fosse divulgada, por motivos de segurança. A bebê — que eles descreveram como alegre e travessa — mamava no colo da mãe. Desde a detenção, ela havia se tornado mais instável emocionalmente, chorando quando a mãe saía do quarto, mesmo que por pouco tempo.
Elora Mukherjee, advogada da família e diretora da Clínica de Direitos dos Imigrantes da Faculdade de Direito de Columbia, disse que tem testemunhado o longo caminho que as famílias enfrentam após a libertação. Segundo ela, enquanto estavam detidos, alguns pais perderam seus empregos, apartamentos e carros. Muitos foram colocados em tornozeleiras eletrônicas, o que pode dificultar a obtenção de um novo emprego por causa do estigma.
Mukherjee afirmou que muitas das famílias que representa foram presas quando compareciam a apresentações obrigatórias ao ICE ou a audiências nos tribunais de imigração, e depois foram libertadas da detenção com seus processos exatamente no mesmo ponto em que começaram — só que agora a família estava em situação pior, mental, física e financeiramente.
“Eles estão começando tudo do zero novamente”, disse Mukherjee.
Leecia Welch, principal conselheira jurídica da organização Children’s Rights, que defende legalmente os direitos de crianças, representa menores em uma ação coletiva sobre as condições de detenção. Ela disse que o fato de muitas famílias serem presas enquanto tentam cumprir instruções judiciais e depois serem libertadas sem nenhuma mudança em seus casos mostra o caráter caótico e arbitrário da detenção de famílias durante o governo Trump.
“É difícil compreender por que estamos interrompendo os processos de imigração dessas pessoas apenas para detê-las, encarcerá-las em Dilley e depois simplesmente soltá-las pela porta dos fundos”, afirmou.
Segundo a American Academy of Pediatrics, a detenção representa uma ameaça à saúde das crianças, e mesmo períodos curtos em centros de detenção de imigrantes podem causar trauma e riscos de longo prazo para a saúde mental. A experiência também pode prejudicar os vínculos familiares.
“A própria detenção enfraquece a autoridade dos pais e sua capacidade de responder às necessidades dos filhos”, escreveram a academia e uma coalizão de outras organizações de saúde em uma carta enviada no ano passado ao presidente Donald Trump e à secretária de Segurança Interna, Kristi Noem.
Uma mãe representada por Mukherjee tinha uma filha de 9 anos e um filho de 6 anos com leucemia. Depois que foram libertados e voltaram para casa na Califórnia, sempre que estranhos passavam pelas janelas do apartamento, o menino se escondia debaixo da cama. Se a mãe o fazia sair de casa, ele chorava e gritava, aterrorizado com a possibilidade de ser preso. Oito meses após sair de Dilley, ele ainda fica apavorado quando vê alguém de uniforme.
Oksana, Nikita e seus três filhos foram libertados da custódia em Dilley no mês passado, após serem presos enquanto buscavam asilo na fronteira com o México. A família pediu que seu sobrenome não fosse divulgado por medo de represálias em seu país de origem, a Rússia, caso sejam deportados.
Oksana contou que viu seus filhos sofrerem em Dilley durante cerca de quatro meses e meio de detenção. As regras eram rígidas e havia pouco para fazer. Seu filho de 4 anos perguntou se eles estavam na prisão porque eram pessoas más. E as crianças passaram a resistir a comer depois de encontrarem vermes na comida.
“Eles parecem mais adultos, mais sérios e sombrios, e isso parece antinatural”, disse ela.
Mas Oksana afirmou que o processo de libertação foi uma das piores experiências.
A família disse que foi informada de que seria libertada e conseguiu comprar passagens de avião para a Califórnia na data prevista de saída. Eles estavam entusiasmados; Oksana ouvia alegria nas vozes de seus filhos. Mas, quando chegaram à porta, disse ela, foram informados de que não poderiam sair, e ninguém explicou o motivo. Eles perderam as passagens, um prejuízo de US$ 1.500, o que representou um grande golpe financeiro.
Seu filho de 14 anos, que vinha tentando se manter forte e estoico diante dos irmãos, ficou tão desesperado que disse que queria se enforcar caso não fossem libertados.
No dia seguinte, com a ajuda de amigos, conseguiram juntar dinheiro para comprar novas passagens. Dessa vez, o centro os libertou, e eles embarcaram para a Califórnia, onde planejavam permanecer enquanto o processo de imigração avançava.
Oksana disse que seus filhos eram fortes e estavam redescobrindo a alegria no mundo exterior, mas sabia que o caminho para a recuperação seria longo.
Ela já marcou uma consulta médica para sua filha de 12 anos, que, segundo ela, sofreu perda de audição devido a uma infecção no ouvido que a família afirma ter sido maltratada enquanto estavam em Dilley. Além disso, estava tentando matricular novamente as crianças na escola, após receberem educação muito limitada durante a detenção.
“Acho que vai levar bastante tempo para conseguirmos trazê-los de volta à vida”, disse ela.
Shannon Heffernan trabalha no The Marshall Project cobrindo prisões e cadeias nos Estados Unidos. Também se interessa por reportagens sobre violência sexual e de gênero, imigração e saúde mental — e sobre como arte e cultura moldam (e são moldadas por) o crime e o sistema de punição.
Anna Flagg é repórter sênior de dados do The Marshall Project e usa dados para reportagens sobre detenção, mortes sob custódia, crime, raça, policiamento e imigração.
Jesse Bogan cobre todos os aspectos do sistema de justiça criminal em St. Louis e em todo o estado do Missouri.
Texto traduzido do People´s World por Luciana Cristina Ruy
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