PUBLICADO EM 11 de nov de 2025

Exposição ao benzeno ameaça 7,3 milhões de trabalhadores no Brasil

Audiência no Senado alerta para riscos do benzeno, substância cancerígena. Especialistas pedem revisão de normas, fiscalização e proteção imediata aos trabalhadores

Exposição ao benzeno ameaça 7,3 milhões de trabalhadores no Brasil

Exposição ao benzeno ameaça 7,3 milhões de trabalhadores no Brasil

A exposição de trabalhadores ao benzeno dominou debate na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Especialistas, sindicalistas e autoridades alertaram para os impactos da substância cancerígena.

O senador Paulo Paim presidiu a audiência e destacou dados alarmantes. Segundo ele, 7,3 milhões de brasileiros podem estar expostos, sendo 770 mil em contato direto.

“São números que impõem ao Estado o dever de proteger, não de tolerar. A vida do trabalhador está em jogo”, afirmou Paim, defendendo medidas urgentes.

Trabalhadores do setor de combustíveis, transporte e indústria lideram o grupo mais vulnerável, especialmente frentistas e operadores que manipulam derivados de petróleo diariamente.

Além disso, Paim alertou que a mortalidade por leucemia é 70% maior entre pessoas expostas ao benzeno, comparada a trabalhadores sem esse risco ocupacional.

Frentistas

A categoria dos frentistas foi representada por Eusébio Pinto Neto, presidente da Fenepospetro; Luiz Arraes, presidente da Federação Paulista da categoria (Fepospetro) e do Sindicato de Osasco; e Celso Berilo Cavalcanti, engenheiro químico e doutor em Ciências do Trabalho.

Luiz Arraes denunciou a alta concentração de benzeno em combustíveis adulterados. Ele ressaltou que, nesses casos, o combustível pode apresentar índices de até 18% da substância, muito acima do limite permitido por lei. Arraes defendeu a retomada das comissões nacionais e estaduais de combate ao benzeno, extintas nos últimos anos, e a instalação de sistemas de captação de vapores nos postos, medida já prevista tecnicamente, mas frequentemente descartada pelos empresários sob o argumento de custo. Ele também cobrou proteção às trabalhadoras gestantes e treinamento da rede pública de saúde para identificar doenças relacionadas à exposição química.

“Muitos companheiros morreram e não se sabe a causa. Falta preparo na saúde pública para reconhecer que o câncer pode ter origem no trabalho. Precisamos de ações concretas para salvar vidas”, reforçou Arraes.

O presidente da Fenepospetro, Eusébio Pinto Neto, denunciou os casos já comprovados de benzenismo — doença causada pela exposição prolongada ao benzeno — entre frentistas do Rio de Janeiro. Os casos foram identificados em estudos realizados pela Fiocruz.

“Não é verdade que postos de combustíveis não apresentam riscos. Há frentistas adoecendo e vivendo em condições precárias. É urgente que o Ministério do Trabalho e Emprego volte sua atenção para essa realidade”, afirmou Eusébio.

Em seguida, o auditor-fiscal Carlos Eduardo Domingues afirmou que o Brasil está defasado frente às normas internacionais e precisa atualizar urgentemente seus padrões de proteção.

Lucimara Beserra, do Ministério da Saúde, explicou que o atual Valor de Referência Tecnológico permite 1 ppm para indústrias e 2,5 ppm para siderúrgicas. Contudo, ela reforçou que a OMS declara não existir nível seguro para exposição ao benzeno, já que a inalação e o contato cutâneo podem causar mais de 21 doenças graves.

“Precisamos reduzir a exposição a níveis próximos do zero e revisar os valores conforme a ciência avança”, afirmou.

O que cada um defendeu

O engenheiro Celso Cavalcanti defendeu reduzir a presença de benzeno na gasolina, pois frentistas chegam a inalar 3,2 ppm, índice que gera afastamentos e danos permanentes.

Já o médico Eduardo Terra alertou que a substância é cumulativa, causa alterações genéticas e exige monitoramento constante. Ele também destacou que o benzeno está presente em produtos do dia a dia, como detergentes e protetores solares, ampliando o risco invisível para a população.

A pesquisadora Maria Juliana Corrêa reforçou que, apesar de controlável, a vigilância falha dentro das grandes corporações onde o químico é amplamente usado.

Na mesma linha, Luiz Alfredo Scienza criticou a tentativa de substituir o VRT por novos limites ocupacionais, classificando a proposta como retrocesso histórico.

O dirigente sindical Gerson Medeiros denunciou que o governo Bolsonaro extinguiu comissões nacionais e estaduais do benzeno em 2019, enfraquecendo a proteção.

Já Bernardo Souto, da CNC, defendeu substituir o VRT por novos indicadores, argumentando que a exposição nos postos diminuiu na última década.

Por fim, várias entidades do setor químico, petrolífero e da saúde do trabalhador participaram do debate e reforçaram a necessidade de ação imediata do Estado.

Leia também: Centrais sindicais levam Transição Justa ao centro da COP30

COLUNISTAS

QUENTINHAS