
Exposição ao benzeno ameaça 7,3 milhões de trabalhadores no Brasil
A exposição de trabalhadores ao benzeno dominou debate na Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Especialistas, sindicalistas e autoridades alertaram para os impactos da substância cancerígena.
O senador Paulo Paim presidiu a audiência e destacou dados alarmantes. Segundo ele, 7,3 milhões de brasileiros podem estar expostos, sendo 770 mil em contato direto.
“São números que impõem ao Estado o dever de proteger, não de tolerar. A vida do trabalhador está em jogo”, afirmou Paim, defendendo medidas urgentes.
Trabalhadores do setor de combustíveis, transporte e indústria lideram o grupo mais vulnerável, especialmente frentistas e operadores que manipulam derivados de petróleo diariamente.
Além disso, Paim alertou que a mortalidade por leucemia é 70% maior entre pessoas expostas ao benzeno, comparada a trabalhadores sem esse risco ocupacional.
Frentistas
A categoria dos frentistas foi representada por Eusébio Pinto Neto, presidente da Fenepospetro; Luiz Arraes, presidente da Federação Paulista da categoria (Fepospetro) e do Sindicato de Osasco; e Celso Berilo Cavalcanti, engenheiro químico e doutor em Ciências do Trabalho.
Luiz Arraes denunciou a alta concentração de benzeno em combustíveis adulterados. Ele ressaltou que, nesses casos, o combustível pode apresentar índices de até 18% da substância, muito acima do limite permitido por lei. Arraes defendeu a retomada das comissões nacionais e estaduais de combate ao benzeno, extintas nos últimos anos, e a instalação de sistemas de captação de vapores nos postos, medida já prevista tecnicamente, mas frequentemente descartada pelos empresários sob o argumento de custo. Ele também cobrou proteção às trabalhadoras gestantes e treinamento da rede pública de saúde para identificar doenças relacionadas à exposição química.
“Muitos companheiros morreram e não se sabe a causa. Falta preparo na saúde pública para reconhecer que o câncer pode ter origem no trabalho. Precisamos de ações concretas para salvar vidas”, reforçou Arraes.
O presidente da Fenepospetro, Eusébio Pinto Neto, denunciou os casos já comprovados de benzenismo — doença causada pela exposição prolongada ao benzeno — entre frentistas do Rio de Janeiro. Os casos foram identificados em estudos realizados pela Fiocruz.
“Não é verdade que postos de combustíveis não apresentam riscos. Há frentistas adoecendo e vivendo em condições precárias. É urgente que o Ministério do Trabalho e Emprego volte sua atenção para essa realidade”, afirmou Eusébio.
Em seguida, o auditor-fiscal Carlos Eduardo Domingues afirmou que o Brasil está defasado frente às normas internacionais e precisa atualizar urgentemente seus padrões de proteção.
Lucimara Beserra, do Ministério da Saúde, explicou que o atual Valor de Referência Tecnológico permite 1 ppm para indústrias e 2,5 ppm para siderúrgicas. Contudo, ela reforçou que a OMS declara não existir nível seguro para exposição ao benzeno, já que a inalação e o contato cutâneo podem causar mais de 21 doenças graves.
“Precisamos reduzir a exposição a níveis próximos do zero e revisar os valores conforme a ciência avança”, afirmou.
O que cada um defendeu
O engenheiro Celso Cavalcanti defendeu reduzir a presença de benzeno na gasolina, pois frentistas chegam a inalar 3,2 ppm, índice que gera afastamentos e danos permanentes.
Já o médico Eduardo Terra alertou que a substância é cumulativa, causa alterações genéticas e exige monitoramento constante. Ele também destacou que o benzeno está presente em produtos do dia a dia, como detergentes e protetores solares, ampliando o risco invisível para a população.
A pesquisadora Maria Juliana Corrêa reforçou que, apesar de controlável, a vigilância falha dentro das grandes corporações onde o químico é amplamente usado.
Na mesma linha, Luiz Alfredo Scienza criticou a tentativa de substituir o VRT por novos limites ocupacionais, classificando a proposta como retrocesso histórico.
O dirigente sindical Gerson Medeiros denunciou que o governo Bolsonaro extinguiu comissões nacionais e estaduais do benzeno em 2019, enfraquecendo a proteção.
Já Bernardo Souto, da CNC, defendeu substituir o VRT por novos indicadores, argumentando que a exposição nos postos diminuiu na última década.
Por fim, várias entidades do setor químico, petrolífero e da saúde do trabalhador participaram do debate e reforçaram a necessidade de ação imediata do Estado.
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