
Alfredo (David Dawson) e Uhtred (Alexander Dreymon) na primeira temporada de The Last Kingdom. Foto: reprodução BBC.
Começo esta coluna sobre séries com uma das melhores que já assisti: The Last Kingdom.
Encontrei-a totalmente por acaso, em uma daquelas buscas despretensiosas por algo na Netflix. Não sou exatamente fã de séries históricas. Elas costumam exigir atenção redobrada para acompanhar a linguagem, as relações de poder e os costumes que hoje nos parecem estranhos. E o fato de eu não ter nenhuma predisposição para amar aquela série — e ainda assim tê-la amado — a torna ainda mais especial.
Muito além do conflito entre os vikings dinamarqueses e os povos cristãos de língua inglesa, sua ideia central é o projeto de construção de uma nação: a Inglaterra. Essa deveria ser, ou é, o fio condutor da trama. Por isso, comecei a pensar que ela estava deslocada de sua premissa ao colocar Uhtred de Bebbanburg (interpretado pelo ator alemão Alexander Dreymon) como protagonista. A base dessa saga de conquistas e incorporação de reinos, até o último deles, é, afinal, o idealismo do rei Alfredo. Seu projeto foi a fonte a partir da qual a história se fez.
A série chama a atenção para o fato de que Alfredo, o rei que recebeu o epíteto “O Grande”, cuidou de registrar a história na Crônica Anglo-Saxônica — documento que, mais de mil anos depois, comprova que de fato foi dele a ideia de unificar os reinos em torno do que hoje conhecemos como Inglaterra.
Mais do que isso, sua paixão por essa ideia engajou gerações que garantiram a realização de seu projeto e, com isso, a preservação de sua memória. De modo que, repito, mais de mil anos depois, o contemplamos por meio da interpretação comovente do ator David Dawson. Alfredo, vale dizer, foi Rei de Wessex (um dos sete reinos anglo-saxões que precederam o Reino da Inglaterra).
Pensando melhor, compreendi o protagonismo de Uhtred. Ele foi um guerreiro, sem dúvida, e, eventualmente, um nobre. Mas, ainda que sua trajetória tenha sido guiada pelo Rei, Uhtred representa aqueles que, de fato, produziram a mudança. Simboliza os que lutaram, se sacrificaram e perderam tudo nos descaminhos do poder. Nesse sentido, a perda de seu filho em nome do filho do Rei é emblemática.
The Last Kingdom é baseada na coleção de livros Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell. Diz a lenda que Cornwell tem um parentesco distante com o Uhtred da vida real. Não importa. Independentemente da qualidade dos livros, a adaptação tem vida própria, com qualidades que a tornam única. A sinergia entre Uhtred e o Rei Alfredo funcionou perfeitamente, produzindo momentos vibrantes de tensão, admiração e até de afeto. É uma aventura que nos leva para longe no tempo e no espaço, com seus campos abertos e o espírito opressor da Alta Idade Média. Ambientada nos séculos IX e X, os castelos e o modo de vida — até mesmo dos reis e rainhas — são de uma rusticidade melancólica. Ali, entretanto, naquela vida quase pacata, entremeada por batalhas sangrentas, eles carregam a semente de um mundo de dominação, ostentação e exercício imperial que subjugaria outros povos. Não é tão simples como parece.
Há também o filme The Last Kingdom: Seven Kings Must Die, lançado pela Netflix em 2023, que finaliza a epopeia. O longa dá continuidade às cinco temporadas da série e gira em torno da unificação dos reinos, tendo à frente aquele que é considerado o primeiro Rei da Inglaterra: Athelstan, neto de Alfredo.
Lançada em 2015, The Last Kingdom foi criada por Stephen Butchard e dirigida por diversos autores.
São cinco temporadas com episódios de cerca de 58 minutos. Está disponível na Netflix.
Por Carolina Maria Ruy, jornalista e pesquisadora
Veja aqui o trailer da 3ª temporada
Carolina Maria Ruy é jornalista e pesquisadora
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