PUBLICADO EM 01 de abr de 2026

Colunista: Andrea Gato

Sem memória não há democracia

Sem memória não há democracia. Reflita sobre os 62 anos do golpe de 1964 e a importância da verdade histórica

Hoje (1º de abril) completam-se 62 anos do golpe civil/militar que afundou o Brasil e, por 21 anos, o colocou em um regime autoritário e violento, com recorrentes violações de direitos humanos e com aprofundamento das diferenças sociais, com os mais ricos acumulando cada vez mais enquanto a maioria da população vivia na pobreza.

Mesmo após décadas, o período permanece objeto de disputa política e simbólica. Alguns grupos tentam relativizar ou justificar o regime. Por outro lado, historiadores, movimentos sociais e instituições de memória defendem que reconhecer os abusos e responsabilidades é fundamental para consolidar a democracia e evitar retrocessos.

Portanto, relembrar os 62 anos do golpe de 1964 não é apenas um exercício histórico. É também um alerta sobre a fragilidade das instituições democráticas quando há tolerância a soluções autoritárias. A preservação da memória sobre o período — com suas repressões, contradições e resistências — continua sendo um elemento essencial para fortalecer a democracia brasileira.

Para esclarecimento, apesar dos ditadores militares terem instituído o dia 31 de março como dia da derrubada do governo, o momento decisivo do golpe ocorreu na madrugada e ao longo de 1º de abril de 1964, quando a situação de Goulart se tornou insustentável. Ele deixou Brasília, passou por Porto Alegre e acabou indo para o exílio no Uruguai.

Não podemos esquecer a repressão sistemática contra opositores. Órgãos de segurança e informação prenderam, torturaram e assassinaram dissidentes políticos. Centenas de pessoas foram mortas ou desapareceram por questões políticas, e milhares sofreram tortura e prisão arbitrária. A censura também atingiu artistas, jornalistas e intelectuais, limitando a liberdade de expressão e a produção cultural.

É preciso também ter em mente que o “famoso” milagre econômico (1968 a 1972) ampliou a concentração de renda, aumentou a dívida externa e promoveu restrições aos direitos trabalhistas. Um modelo que favoreceu grandes empresas e setores industriais, enquanto grande parte da população permaneceu à margem dos benefícios.

E tudo com apoio de empresários, setores da imprensa, políticos conservadores e parte da classe média que legitimaram o os ditadores. Portanto, a ditadura não surgiu apenas da ação de quartéis, mas de uma coalizão de interesses que temia reformas sociais propostas no governo Goulart.

E hoje ainda vemos os resquícios autoritários desse período ditatorial quando somos obrigados a enfrentar proposta de anistia a golpistas, condenados pelo STF após tentarem derrubar um governo legitimamente eleito pelo voto popular. Assistimos a discursos de ódio contra as minorias, vemos diariamente mulheres sendo assinadas apenas por serem mulher, entre tantos outros abusos.

Por isso que manter viva a memória desse período obscuro, que começou em 1º de abril de 1964, com a derrubada do presidente eleito, João Goulart, e perdurou até 1985, é fundamental para a defesa da democracia brasileira.

André Gato – secretária geral do Sindnapi

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