PUBLICADO EM 10 de nov de 2020
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Colunista Carolina Maria Ruy

O novo esquerdismo burguês

O esquerdismo infantil, que ainda é forte e que ainda atrapalha, está perdendo lugar para um esquerdismo ainda mais nocivo: o esquerdismo burguês.

Na ânsia de mostrar-se “novo”, ânsia essa que contaminou a política atingindo também a esquerda, até mesmo conceitos tradicionais que aludem à Revolução Soviética estão sendo jogados no balaio das velharias.

Isso também vale para nosso velho lema: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Hoje esta sentença do passado está sendo substituída em alguns grupos – não todos, por uma minoria ruidosa, vale dizer – por frases e conceitos com vernizes mais “modernos” e mais competitivos, com melhor desempenho entre algoritmos como: Me too, Black Lives Matter, mansplaining. Além de outros que não são importados ao pé da letra, mas são adaptados à esquerda brasileira, como: Lute como uma garota e o recauchutado Lugar de Fala.

São conceitos típicos dos liberais americanos que se reconhecem em um viés de esquerda alicerçado na luta pelos justos direitos civis e pelos direitos humanos, mas que cada vez mais rejeitam a luta de classes.

Claro que a luta pelos direitos civis e humanos são fundamentais e são parte do repertório do pensamento progressista. Claro que a luta antirracismo, pela igualdade de gênero, contra a opressão das minorias, contra a homofobia e pela preservação do meio ambiente, são parte do processo civilizatório e evolutivo da humanidade.

O que temos hoje, entretanto, vendido como novo, são distorções dessas lutas. Distorções ancoradas em ideias que fomentam a diferenciação e o ódio. Que fomentam o nós contra eles. Quanto mais específica e segmentada é a causa, mais inimigos ela cultiva e mais estranha e inacessível ela é ao cidadão comum.

Por exemplo:

Quando houve aquela movimentação, em 2018, de mulheres contra Bolsonaro, li nas redes sociais uma postagem que, a pretexto de convocar mulheres para a grande manifestação do Ele Não, realizada no Largo da Batata, dizia:

“Desçam do muro, recatadas, submissas, deprimidas, viciadas em Rivotril. #elenao”.

Este é o tipo de chamada que atrai ou que afasta mulheres que não são militantes? A ideia embutida aqui seria formar um movimento amplo, acolhedor e abrangente ou repelir o cidadão comum e criar um movimento de gueto?

Em agosto deste ano, a historiadora Lilia Schwarcz, que é especialista em história do Brasil e em escravidão, fez comentários críticos sobre um filme da cantora Beyonce. Logo que o texto foi publicado na Folha de São Paulo ela foi vítima de ataques de pessoas da esquerda nas redes sociais chegando ao ponto de se retratar publicamente por ter se atrevido a comentar sobre a arte da cantora americana. Os ataques se fundamentavam, pasmem, no fato de a historiadora ser branca e a cantora ser negra! Por ser branca não seria seu “lugar de fala” tratar em seu artigo de um filme que alude às raízes africanas, produzido por uma artista negra.

Ouvi recentemente uma das principais vozes desta “nova esquerda” justificar que as pautas identitárias não são divisionistas uma vez que a sociedade já é dividida, que não existe um ser humano universal e que tais pautas incomodam porque trazem à tona esta realidade evidenciando que o homem branco e hétero também faz parte de um nicho de identidade. Ora, tudo bem mostrar que o homem branco e hétero não é o ser universal e etc. Até aí tudo bem. Mas qual é o sentido de manter e aprofundar esta divisão alimentando o ódio e o sectarismo? Qual o ganho político se a sociedade é comum a todos e todas?

Além disso, é falsa a ideia de que as tradicionais pautas da esquerda, baseadas no combate às agruras e nas contradições do capitalismo, levam a uma padronização de identidades. Ao contrário, a luta deve ser ampla não para padronizar, mas para abranger os diferentes que se unem sob o amplo guarda-chuva do combate à miséria, ao desemprego e à exclusão social. Porque somente com avanços no campo da igualdade de condições, se poderá de fato pensar em uma sociedade em que todas as pessoas possam desenvolver seus talentos individuais e suas particularidades. No mundo atual “miséria é miséria em qualquer canto” e só “riquezas são diferenças”.

Concluo, desta forma, que, se o nosso antigo lema do Manifesto Comunista unia os trabalhadores do mundo, na nova esquerda burguesa ninguém se entende e todos se acusam. Se no esquerdismo denunciado por Lenin como a doença infantil do comunismo, o problema estava no sectarismo, no radicalismo e na falta de diálogo dentro da luta política, no esquerdismo burguês o problema é ainda mais prejudicial. Muitos de seus adeptos chegam a negar a política como forma de luta.

O esquerdismo burguês prima pela incoerência e guarda em si uma crise de identidade fundamental: quer ser a esquerda das bandeiras sociais, mas ao mesmo tempo quer para suas causas um militante diferenciado e destacado no cenário do livre mercado.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

 

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  • ROBERTO SCALIZE

    Muito bem abordada a materia, vivemos um momento em que a doença infantil do esquerdismo se acentua em varias “nuancias”, constato tbm um anarquismo as avessas, praticado e incentivado pelo poder economico e a burguesia organizada

  • Rita de Cassia Vianna Gava

    Movimentos sociais

QUENTINHAS