
O Duelo Ontológico e suas implicações nas recentes vitórias eleitorais no Brasil. Na foto: Lula sobre a rampa para seu terceiro mandato acompanhado por várias pessoas do povo. Agência Brasil.
Por Diógenes Sandim
Na contemporaneidade histórica do Brasil, assistimos a um experimento social dramático. O país serviu de palco para o confronto direto entre a preservação da vida como projeto de Estado e a gestão da morte como ferramenta de poder.
Para compreender a profundidade da vitória eleitoral que retirou o Brasil do Mapa da Fome pela segunda vez, precisamos contrastar a luz da Biologia do Amor com a sombra da Necropolítica.
O Intervalo da Necropolítica: A Governança da Morte
Achille Mbembe define a necropolítica como o poder soberano de ditar quem pode viver e quem deve morrer. Nos governos reacionários que sucederam o golpe institucional e antecederam o retorno de Lula, vimos a aplicação prática desse conceito.
O retorno do Brasil ao Mapa da Fome não foi um “acidente de percurso” ou mero fruto de crises econômicas globais. Foi a materialização do que Mbembe chama de política da inimizade.
A Lógica do Descarte: Para a mentalidade neoliberal extrema e autoritária, o pobre, o faminto e o marginalizado não são “legítimos outros” (Maturana). São vistos como excedentes, pesos mortos ou obstáculos ao lucro.
A “Morte Severina” Institucionalizada: Ao desmontar o CONSEA (Conselho de Segurança Alimentar), congelar gastos em saúde e educação e ridicularizar a doença durante uma pandemia, o Estado operou a máxima da necropolítica: “deixar morrer”. A fome voltou porque a indiferença se tornou política pública. O “jeitinho brasileiro” criativo foi substituído pelo cinismo burocrático de quem vê a morte de milhares como “destino natural”.
A Resposta da Biologia do Amor: A Política como Cuidado
Em contrapartida, a terceira presidência de Lula e o esforço para retirar novamente o país do Mapa da Fome representam a retomada da Biologia do Amor de Humberto Maturana.
Se a necropolítica opera pela fragmentação e eliminação, a biologia do amor opera pela integração e reconhecimento.
O Outro como Legítimo: A decisão política de priorizar o combate à fome acima do teto de gastos ou das exigências do mercado financeiro é uma declaração ontológica. Ela diz: “A vida do severino vale tanto quanto a do banqueiro”.
A Astúcia a Serviço da Vida: Aqui retorna o nosso “Macunaíma Transmutado”. Ele usa sua habilidade política (a tal malandragem positiva) para costurar acordos, driblar o orçamento rígido e fazer o dinheiro chegar ao prato do pobre. É a complexidade de Edgar Morin aplicada: entender que não existe economia saudável em um corpo social necrótico.
A Síntese Histórica: O Brasil que Insiste em Viver
A história contemporânea do Brasil, portanto, pode ser lida como um ciclo de resistência:
- A Ascensão (Lula 1 & 2 e Dilma): O Brasil descobre que pode vencer a fome (Vitória da Biologia do Amor).
- A Queda (O impeachment e ascensão de governos reacionários): O Brasil é submetido à Necropolítica, onde a fome retorna como instrumento de controle e a morte é banalizada.
- A Ressurreição (Lula 3): O Brasil, através do voto, rejeita a pulsão de morte e escolhe, mais uma vez, a vida.
A Hegemonia do Afeto Político
Concluímos, assim, que a trajetória política que levou o Brasil a sair do Mapa da Fome pela segunda vez é a maior derrota imposta à Necropolítica no século XXI.
O “jeito de ser” brasileiro, em sua potência máxima, rejeitou a frieza de quem deixa morrer e abraçou a calorosa confusão de quem quer viver junto. O líder que chora ao falar da fome não demonstra fraqueza, mas a força biológica de quem sente a dor do outro como se fosse sua.
Nesta disputa histórica, o “Macunaíma Social” venceu o “Capitão da Morte”. E a lição que fica para o futuro é cristalina: uma nação só se torna verdadeiramente soberana quando a sua política deixa de ser a administração da escassez para se tornar a garantia inegociável do amor social. O Brasil do futuro é aquele onde comer é sagrado, e viver é um direito, não um privilégio de quem sobreviveu.
Diógenes Sandim Martins é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP

















