PUBLICADO EM 21 de ago de 2025

Final distópico de And Just Like That… reafirma seu diálogo com o presente

O legado real de Sex and the City e de And Just Like That… foi a construção de um referencial sobre mulheres independentes e que cultivam amizades sinceras.

And Just Like That Carrie em seu vestido de festa em um anticlímax surpreendente

And Just Like That Carrie em seu vestido de festa em um anticlímax surpreendente.

Por Carolina Maria Ruy

O final da série And Just Like That…, que encerrou uma história iniciada em 1998 com Sex and The City, trouxe reflexões que merecem ser comentadas.

O último capítulo (lançado em 14 de agosto) gerou um anticlímax surpreendente. Confesso que esperava desfechos mais inspiradores, com Carrie Bradshaw bem-sucedida no trabalho, pensando à frente e, principalmente, vivendo uma independência leve.

Não foi o que aconteceu. O episódio imprimiu uma imagem dramática da protagonista: sozinha em um grande apartamento vazio, usando um vestido de festa que, deslocado de seu contexto, realçou o peso da solidão. Naqueles minutos finais, assistimos também à desconstrução da ideia romântica sobre o Dia de Ação de Graças que o cinema americano costuma exaltar. O Thanksgiving surgiu como uma obrigação deprimente e enfadonha — o que, para muitos, pode ser verdade. Assim, o episódio rasgou a série com um realismo desconcertante. Classifiquei-o como “distópico” — uma distopia em relação à utopia de Sex and the City.

Ironicamente, considerei-o uma proposta interessante, que reafirmou a vocação da série de se conectar com seu tempo e, a despeito de todo o glamour, com o frescor da vida real. Mas o vício por desfechos redondos, que satisfazem a parte do raciocínio dedicada ao entretenimento, somado às exigências impostas às mulheres, resultou em uma enxurrada de críticas ácidas e acusações ferinas, tanto nas redes sociais quanto na imprensa.

Foram muitas as reclamações de anônimos. Muitos internautas acusaram a série de não ter conseguido manter a personagem Samantha Jones (interpretada por Kim Cattrall), apesar de sua ausência não ter prejudicado a trama. Novas personagens, como Lisa Todd (Nicole Ari Parker) e Seema (Sarita Choudhury), mais do que supriram a falta da quarta amiga: elas trouxeram graça, diversidade e novas dinâmicas à história. Ainda assim, o ódio típico das redes sociais fez com que a personagem de Cattrall pairasse sobre And Just Like That… como um fantasma em uma casa mal-assombrada — e essa não é uma boa lembrança sobre Samantha Jones.

Os grandes jornais também foram implacáveis. “And Just Like That termina sem fazer justiça a Sex and the City”, publicou a Folha de S. Paulo. “Retorno e decepção: como a série And Just Like That… arruinou o legado de Sex and the City”, disse O Globo. “And Just Like That pareceu pedido de desculpas por diversão de Sex and the City”, criticou o The New York Times, em texto reproduzido pelo Estadão.

Não vi sentido na maior parte dessas observações e não acho que elas atinjam eventuais problemas que a série possa ter. Avalio que And Just Like That… foi fiel a Sex and the City, considerando a época de cada programa e a fase da vida das personagens. Questões próprias da idade e da vida urbana aparecem no enredo, mas algumas pessoas interpretaram isso como um sinal de decadência em relação à produção original.

De modo geral, as críticas soam como cobranças excessivas, alimentadas por uma cultura de intriga sobre mulheres — e entre mulheres — e até como machismo. Todavia, rolam soltas e impiedosamente.

Um exemplo são as críticas publicadas no artigo do New York Times. Ali, a jornalista Jennifer Weiner lista “defeitos” que, para mim, revelam incompreensão da proposta. Segundo ela:

  • A sequência “matou” o Mr. Big, que era o amor de Carrie, deixando-a desolada — e precisando de uma cirurgia no quadril;
  • Miranda entrou em espiral de alcoolismo e embarcou em uma jornada de autoconhecimento sexual;
  • Charlotte lidou com “filhas mimadas e exigentes” e com um marido com câncer de próstata, o qual “vimos molhar as calças” (nas palavras do artigo);
  • “O reboot foi uma caminhada desanimadora por um mundo de dor, onde todos os prazeres de uma mulher, todas as suas realizações e sucessos, vieram com um custo.”

São críticas espantosas, para não dizer cruéis e desrespeitosas. O que a jornalista não entendeu é que, na vida real, pessoas morrem; cirurgias podem ser necessárias; o alcoolismo é um problema enfrentado por muitos; autoconhecimento sexual pode acontecer em qualquer idade (e é bom que seja assim); adolescentes podem ser desafiadores; o câncer de próstata atinge milhões de homens e pode ter consequências, como a incontinência; e, sim, o sucesso das mulheres muitas vezes cobra um preço. Um artigo ofensivo como o do New York Times, por exemplo, faz parte desse preço.

Os defeitos apontados fazem ainda menos sentido quando lembramos que, na série original, a vida das protagonistas também não era fácil. O encanto de Sex and the City nunca esteve na ausência de dificuldades, mas na forma inteligente e sensível com que elas lidavam com elas.

Manter uma história no ar por 27 anos foi um grande feito. E o legado real de Sex and the City e de And Just Like That… foi a construção de um referencial sobre mulheres independentes, que lidam com seus próprios problemas sem perder a graça, o charme e a humanidade. Sem perder, sobretudo, a amizade sincera entre elas.

Carolina Maria Ruy é jornalista, pesquisadora e coordenadora do Centro de Memória Sindical.

Veja aqui o Trailer da terceira temporada de And Just Like That…

Leia também:

Exploração de crianças na internet é o tema de O Desaparecimento de Kimmy Diore

COLUNISTAS

QUENTINHAS