PUBLICADO EM 17 de mar de 2026

Colunista: Ricardo Patah

Fim da escala 6×1: uma questão de saúde, dignidade e responsabilidade social

“O fim da escala 6×1 é um passo civilizatório. É reconhecer que tempo é direito. Que saúde mental não é luxo. Que desenvolvimento econômico e justiça social são compatíveis”.

O Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que é presidido por Ricardo Patah, estendeu um cartaz em sua sede pedindo o fim da escala 6X1. Foto: reprodução.

O Sindicato dos Comerciários de São Paulo, que é presidido por Ricardo Patah, estendeu um cartaz em sua sede pedindo o fim da escala 6X1. Foto: reprodução.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 não é capricho sindical nem modismo. É uma necessidade social urgente, especialmente nas grandes metrópoles como São Paulo, onde a realidade do trabalhador vai muito além das horas registradas no ponto.

Quem trabalha seis dias por semana, com apenas um de descanso, não dedica ao trabalho apenas as 44 horas previstas em lei. Em cidades como São Paulo, o deslocamento diário — ida e volta — varia entre duas e quatro horas. Ao final da semana, isso representa de 18 a 24 horas adicionais apenas em transporte ou trânsito. Somadas às 44 horas contratuais, chegamos facilmente a uma média de 72 horas semanais dedicadas ao trabalho e ao deslocamento.

Setenta e duas horas para trabalhar e se locomover. Um único dia para descansar.

Que tipo de vida estamos oferecendo? Que qualidade de convivência familiar, participação comunitária e cuidado com a saúde física e mental pode existir nesse regime?

Os dados não deixam dúvidas. Segundo o Ministério da Saúde, em 2024 foram registrados quase meio milhão de afastamentos por transtornos mentais, o maior número em ao menos dez anos, com aumento de 68% nos casos de ansiedade e depressão. Trata-se de uma epidemia silenciosa de sofrimento psíquico.

Nos setores mais impactados, o cenário é ainda mais grave. Dados do Dieese, com base na RAIS, no INSS e no Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, apontam que supermercados e hipermercados concentram 46% dos afastamentos por problemas de saúde mental, seguidos pelo comércio de eletrodomésticos e pelo setor farmacêutico — justamente áreas em que a escala 6×1 é predominante.

São trabalhadores submetidos a metas agressivas, pressão constante e contato intenso com o público. Sem tempo real de descanso, o resultado é previsível: esgotamento, ansiedade, depressão e afastamentos.

E quem paga essa conta?

Quando esses fatores pressionam o SUS, os custos se elevam com medicamentos de alto custo, imunobiológicos e internações psiquiátricas. Soma-se a isso o impacto direto sobre o INSS, responsável pelos benefícios por incapacidade temporária. A sociedade já paga — e paga caro — pelo modelo de jornada excessiva.

Parte do empresariado sustenta que reduzir a jornada seria financeiramente inviável. Mas os fatos mostram o contrário. Estudo do Ipea indica que a redução para 40 horas semanais teria impacto inferior a 1% nos custos operacionais de setores como comércio e indústria. Não se trata de colapso econômico, mas de ajuste absorvível, sobretudo diante do custo social atual.

A experiência histórica confirma. Pesquisa da Fundação Getulio Vargas, divulgada no portal do Governo Federal, ao analisar a redução da jornada promovida pela Constituição de 1988, constatou queda na jornada efetiva, ausência de aumento do desemprego e crescimento do salário real por hora. A redução não gerou efeitos negativos sobre o emprego no curto prazo.

O discurso do medo sempre surge diante de avanços sociais. Foi assim com o 13º salário, as férias remuneradas e o FGTS. Será assim também agora.

Não defendemos a inviabilidade das empresas, mas a viabilidade da vida.

A escala 6×1 compromete o convívio familiar, dificulta o acesso à educação, reduz a participação social e aprofunda desigualdades. Para muitos, o único dia de folga é consumido por tarefas domésticas e responsabilidades acumuladas. Não há descanso real, apenas recuperação mínima para reiniciar o ciclo.

O Brasil precisa decidir que modelo deseja construir: um baseado na exaustão permanente ou outro que compreenda que produtividade sustentável depende de trabalhadores saudáveis.

O fim da escala 6×1 é um passo civilizatório. É reconhecer que tempo é direito. Que saúde mental não é luxo. Que desenvolvimento econômico e justiça social são compatíveis.

Trabalhar para viver — e não viver apenas para trabalhar — deve ser o princípio de um país moderno, humano e socialmente responsável.

Ricardo Patah, formado em administração e direito, é presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) e do Sindicato dos Comerciários de São Paulo.

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