PUBLICADO EM 03 de mar de 2020
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Colunista Carolina Maria Ruy

Em Parasita o pobre é a praga a ser dedetizada

Assisti ao filme Parasita, ganhador do Oscar e da Palma de Ouro, assim que chegou ao streaming. Já tinha ouvido diversos comentários sobre o filme (muito elogiosos, por sinal), não apenas entre amigos, mas também no rádio e nas redes sociais. Até mesmo o quadro da CBN Comunicação e liderança, apresentado por Leny Kyrillos, abordou e analisou a linguagem do filme. Isso somado à gloriosa vitória no Oscar de 2020 criou uma grande expectativa.

Imagina o grau de frustração ao assistir e constatar (minha opinião, vale dizer) que o filme é chato e deprimente.

Fico a me perguntar o que o alçou ao posto de grande premiado de 2020 e a única conclusão a que chego passa pela abertura de mercados e a da busca da “diversidade” em Hollywood, como penso que ocorreu com Quem quer ser um milionário, em 2009, e com Guerra ao Terror, em 2010. Realmente não entendo qual lógica reversa justifica no filme alguma crítica social válida. Porque só pode ser uma lógica reversa, já que as metáforas de parasitismo, óbvias e rasteiras, por sinal, aplicam-se apenas aos pobres e não aos ricos.

A família rica de Parasita é saudável e gentil. É aberta ao diálogo, confia nos empregados. Mais do que isso, gera empregos. Pode-se dizer “Ah, mas a mulher é uma inútil que não sabe criar os filhos”. E este argumento torna o filme ainda pior uma vez que ele nos leva a entender que a única pessoa certa ali é o homem rico, executivo, que trabalha e sustenta todo o resto.

Os pobres, por sua vez, são seres rastejantes das fossas de um submundo fétido e caótico. São pragas a serem dedetizadas.

Falar em alpinismo social, como muito se tem falado ao comentar Parasita, também é muito pouco frente a questão da diferença de classes tão nitidamente delimitada no filme.

Antes de assisti-lo imaginava que, embora a família que se infiltra na mansão pudesse, à primeira vista, ser vista como o agente parasitário, a construção do filme, suas metáforas e as relações que ele poderia apresentar, nos levaria a entender que os parasitas são, na verdade, a família rica. Imaginava isso porque é o que de fato acontece no mundo capitalista: enquanto poucas famílias concentram toda riqueza os mais pobres são explorados e vendem seu único capital, que é a força de trabalho, para sobreviver sustentando a riqueza daquele grupo de privilegiados. Mas estas relações não estão no filme e só formulará esta visão crítica quem estiver sociologicamente treinado para tanto. Não o grande público.

O Oscar, de fato, já não é boa referência há anos. Não sei se um dia foi ou se se premiou grandes filmes, como o magnifico A Lista de Schindler (Oscar de 1994), por acidente.

De 2010, quando ganhou Guerra ao Terror, lembramos mais de seu concorrente antiguerra, Avatar. Em 2009, Milk e O Leitor, trouxeram mensagens muito mais perenes do que o fraco Quem quer ser um milionário.

Daqui a alguns anos, poucos anos, Parasita será apenas um filme que estranhamente ganhou de grandes filmes, que entrarão para a história do cinema, como Coringa, O Irlandês, Dor e Glória e Histórias de um casamento.

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical  

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