PUBLICADO EM 23 de set de 2019
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Colunista Carolina Maria Ruy

É a posição social, estúpido

O fato de o presidente Jair Bolsonaro ter endossado uma postagem grotesca que comparava a aparência física de Michelle Bolsonaro à da primeira dama francesa, Brigitte Macron, além de ser repugnante e vergonhoso por sua intenção original, dá vazão a repugnâncias laterais, ressuscitando velhos preconceitos sociais.

Ao destilar a mais pura grosseria que Bolsonaro carrega dentro de si, ele não apenas ofendeu Brigitte e todas as mulheres que já passaram dos 60 – que, ao contrário do que alcança sua visão limitada a padrões há muito tempo em desuso por inaplicabilidade, são ativas, joviais, saudáveis, atraentes e tudo o que uma mulher pode ser. Com o comentário “Não humilha”, sobre uma montagem com Michelle e Brigitte, ele expôs também a primeira ao escrutínio e linchamento social.

Se ele, como presidente, de posse de toda a responsabilidade que o cargo exige, se sente à vontade para ofender publicamente uma mulher importante, bem-nascida e fina como Brigitte, então está aberta a temporada de “jogar pedra na Geni”, sendo Geni, Michelle.

Desde que o caso aconteceu, em 24 de agosto, tenho acompanhado os caminhos que seguem aqueles que, com justiça, defendem a Senhora Macron. Além da enxurrada de comentários que se limitam a manifestar vergonha e pedir perdão à Brigitte, o que é positivo, muitos ressaltam que a francesa “ganha” da brasileira, devido à sua cultura e formação intelectual. Ora, mas a ideia não é combater a discriminação?

Nesta linha, de relacionar o potencial de despertar paixões ao currículo e ao diploma, o psicanalista e colunista da Folha, Contardo Calligaris, construiu o exemplo mais bem-acabado. Chamou-me a atenção sua argumentação sobre este assunto em seu artigo Mulheres desejáveis, de 19/09.

Após uma longa história sobre como ele, na juventude, já priorizou nas mulheres, a beleza física e amadureceu depois disso, concluindo que aquela posição era uma “cretinice”, ele diz que, se fosse chamado para escolher entre Michelle e Brigitte “sem hesitar, escolheria Brigitte”. Até aí o texto ia muito bem. É perfeitamente natural que alguns homens se sintam atraídos por ela.

Mas aí ele segue, discorrendo sobre os motivos que o levariam à sua escolha: “Brigitte Macron era professora de letras clássicas num excelente colégio francês. O concurso para chegar lá começa com uma prova de dissertação (de seis horas), que seja fundada, pede o edital, ‘em leituras numerosas e variadas, que mobilizem uma cultura literária e artística, conhecimentos relativos aos gêneros, à história literária da Antiguidade até nossos dias, à história das ideias e das formas, e que abordem também questões de estética e de poética, de criação, recepção e interpretação das obras’ O concurso continua com outra prova escrita (também de seis horas), que avalia as competências em línguas e culturas antigas dos candidatos: a prova se baseia em um dossiê de dois textos, em latim e grego antigo, ligados por um mesmo tema… etc”.

Depois ele justifica: “Para mim (e para vários outros, claro), o charme da mente, com suas eventuais montanhas russas de pensamentos, memórias, saberes, cantos escuros, fantasias e desejos escondidos, é quase uma condição da desejabilidade”.

Como, mesmo sem conhece-la, Calligaris pode afirmar que o currículo apresentado bastaria para desperta-lhe interesse sexual? Não estou dizendo que uma pessoa que dedicou grande parte da vida à sofisticados estudos, não tenha grande potencial de ser alguém muito interessante. Muito menos estou dizendo que uma mulher com um corpo jovem é mais atraente do que uma mulher com anos a mais. O que estou dizendo é que, por óbvio, a atração física, sexual e amorosa é resultado de uma combinação de fatores, que vão além de um corpo bonito e de um currículo turbinado. O psicanalista colocou Brigitte várias casas à frente devido à sua bela formação. Neste sentido, mulheres que não tiveram as mesmas oportunidades que ela seriam, a priori, desinteressantes? Uma mulher simples, com (bem) menos estudos, mas esperta, simpática e charmosa, seria desclassificada em sua seleção de paixões?

Seu texto, ao meu ver, em vez de confirmar a superioridade de Brigitte sobre Michelle, me lembrou um episódio da série Sex & The City, em que a protagonista, Carrie Bradshaw, apresenta seus amigos ao novo namorado, um artista de renome internacional, Alexander Petrovsky, interpretado pelo bailarino Mikhail Baryshnikov. No encontro, um jantar na casa do artista, os amigos, que são pessoas mais simples e comuns que ele, contam piadas, se sentem a vontade, falam besteiras, como em qualquer encontro entre amigos. Petrovsky, acostumado a conviver com a fina nata da classe artística e intelectual, fica visivelmente incomodado com a situação. Faz cara de nojinho mesmo. Foi como imaginei Calligaris na companhia de pessoas simples, com uma carga de estudos não tão impressionante.

Ao defender um argumento contra o preconceito de idade, ele foi elitista, incorreu em um preconceito de classe, mesmo que esta não tenha sido  sua real intenção.

Sinal dos tempos difíceis que vivemos. Do Palácio do Planalto, à vista de todo o povo brasileiro, o despudor do presidente em ser mal, violento, cruel, egoísta, entre tantos outros problemas de caráter, tem provocado as pessoas a se posicionarem sobre os mais diversos assuntos. No 9º mês deste governo, que mais parece um show de horrores, temos nos deparado com posições estranhas, de quem menos esperávamos. Bolsonaro desenterrou e abriu a caixa de pandora dos vícios e das mazelas sociais. Uma caixa sobre a qual, desde a redemocratização de 1985, a cada eleição jogávamos uma pá de terra. Salve-se quem puder!

Carolina Maria Ruy é jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical.

Assista à cena citada, da 6ª temporada da série Sex and The City

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  • Rita Gava

    Todos preconceitos estão saindo dos porões da mente querendo se impor dos a quem doer
    Qual será o saldo disso

QUENTINHAS