
Ajuste fiscal: descubra como dois projetos afetam a carga tributária e a vida dos trabalhadores de baixa renda no Brasil.
Quem paga o ajuste? A política fiscal nunca é neutra, escolhe lados, mesmo quando finge não escolher. No governo Jair Bolsonaro (PL), o ajuste recaiu, de forma clara, sobre os mais pobres.
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Política fiscal é o conjunto de estratégias do governo para gerir as finanças públicas, utilizando a arrecadação de tributos e os gastos públicos para regular a atividade econômica, controlar a dívida e promover o crescimento. Essa política equilibra receitas (impostos) e despesas (investimentos/serviços) para influenciar a demanda agregada, o emprego e a inflação.
Sem reajuste real do salário mínimo e com a tabela do Imposto de Renda da pessoa física congelada, o resultado foi aumento silencioso da carga tributária sobre os trabalhadores, sobretudo os de baixa renda. Trata-se do chamado “ajuste invisível”: não há aumento formal de impostos, mas a corrosão inflacionária empurra mais gente para dentro da tributação.
É o tipo de política que preserva o topo enquanto comprime a base.
Custo herdado
Ao assumir o governo, Lula (PT) encontrou passivo relevante: precatórios represados e dívidas com estados que haviam sido postergadas.
No primeiro ano, foram cerca de R$ 120 bilhões destinados a quitar esses compromissos: ajuste necessário, mas que consumiu espaço fiscal.
Esse movimento, frequentemente ignorado no debate público, revela que parte da margem de ação do novo governo foi utilizada para corrigir distorções herdadas do governo anterior, e não apenas para expandir políticas.
Mudança de eixo
A diferença central entre os 2 períodos — Bolsonaro e Lula — está na direção das políticas.
Lula opta por recompor renda na base da pirâmide: retomada do ganho real do salário mínimo e proposta de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil, combinada com cortes em gastos tributários.
Aqui há inversão: o ajuste deixa de ser regressivo e passa a buscar alguma progressividade. Em vez de ampliar a carga sobre quem ganha menos, tenta redistribuir o peso, ainda que com limites e resistências.
Indicadores não são neutros
Os efeitos dessa mudança aparecem nos indicadores sociais e econômicos. A inflação atinge o menor patamar dos últimos anos, o desemprego recua ao nível mais baixo da série histórica e a economia volta a crescer em ritmo superior ao período anterior.
Mais relevante: o salário médio e a massa salarial atingem níveis recordes. Isso não é apenas estatística. É a circulação de renda, dinamismo econômico e redução de vulnerabilidades.
Indicadores não contam toda a história, mas revelam tendências. E a tendência, nesse caso, aponta para uma economia mais dinâmica e aquecida a partir da base.
Modelos em confronto
O contraste entre os governos não é apenas de estilo. É de modelo.
Bolsonaro operou dentro da lógica da contenção fiscal que preserva o topo e ajusta pela base.
Lula, por sua vez, tenta reativar modelo de crescimento com inclusão, ainda que condicionado por restrições fiscais e pressões do mercado.
Nenhum dos 2 escapa completamente das amarras estruturais do Estado brasileiro. Mas as escolhas dentro dessas amarras fazem diferença concreta na vida da população.
Limites e contradições
Isso não significa ausência de problemas no atual governo. A necessidade de conciliar responsabilidade fiscal com expansão social gera tensões permanentes.
Cortes de gastos tributários enfrentam resistência de setores privilegiados, enquanto a ampliação de benefícios pressiona o orçamento.
A diferença é que, ao menos no desenho, há tentativa de equilibrar as contas sem penalizar os mais vulneráveis. Algo que esteve ausente no ciclo anterior.
O Brasil que se escolhe
No fundo, o debate é simples: quem deve pagar pela estabilidade fiscal? Os de baixo, via arrocho silencioso, ou os de cima, via revisão de privilégios?
Ambos os governos deram respostas distintas a essa pergunta. E os resultados começam a aparecer.
O Brasil segue desigual, mas não é indiferente às escolhas políticas. Entre o arrocho e o alívio, entre compressão e recomposição, o País revela que a economia é, antes de tudo, disputa de poder.
Marcos Verlaine é jornalista, analista político, assessor parlamentar do Diap e redator do HP



