
Série: A mulher da casa abandonada
Por Carolina Maria Ruy
Foi durante a mudança de rotina imposta pela pandemia que o jornalista Chico Felitti passou a reparar em uma mansão no bairro de Higienópolis, em São Paulo. Um dos bairros mais elitizados do país, Higienópolis já gerado havia polêmicas, como em 2010, quando parte dos moradores se opôs à construção de uma estação de metrô sob o argumento de que ela traria para o bairro “todo tipo de gente”, e não apenas a “gente diferenciada”, como alguns se autodefiniam.
O que chamou a atenção de Felitti, no entanto, não foi o glamour do casarão, mas a sua decadência. A casa estava caindo aos pedaços, destoando das construções bem cuidadas ao redor. Intrigado, ele começou uma investigação informal e descobriu que uma mulher vivia ali. Com insistência, conseguiu contato com a moradora.
A partir daí, o que parecia apenas a história de um antigo casarão de uma família quatrocentona acabou revelando um crime enterrado há mais de 20 anos nos arquivos da Justiça brasileira e norte-americana. Reclusa em meio ao lixo e à bagunça, Felitti encontrou Margarida Bonetti, foragida da Justiça dos Estados Unidos desde o início dos anos 2000. Desde então, Margarida vivia escondida, usando a degradação da casa como parte de seu disfarce para evitar pagar pelo crime que cometeu ao lado do ex-marido.
O crime remonta ao final dos anos 1970, quando Margarida e o engenheiro Renê Bonetti levaram para os Estados Unidos Hilda dos Santos, empregada doméstica da família no Brasil. Durante duas décadas, até o fim dos anos 1990, Hilda foi mantida em condições análogas à escravidão: sem salário, sem acesso aos próprios documentos e submetida a um cotidiano de exploração e isolamento.
As descobertas feitas por Felitti originaram um podcast de grande repercussão e diversas reportagens. Até maus-tratos a animais foram encontrados no casarão em ruínas. Agora, a investigação ganhou uma versão audiovisual: uma série documental de três episódios, disponível na Prime Video.
A série leva o espectador de volta ao fim dos anos 1970, ao estado de Maryland, nos EUA, e mergulha nas profundezas da escravidão moderna — foco que só se revela com mais clareza a partir do segundo episódio. Embora o título remeta diretamente ao podcast, poderia muito bem ter outro nome, dado o peso do tema central.
Em áudios reais, Margarida nega o crime, mesmo diante de provas, depoimentos e da investigação conduzida pelo FBI. Essa postura expõe o traço de uma elite brasileira que mantem uma mentalidade escravista através de práticas que inferiorizam trabalhadores domésticos, impondo a eles jornadas abusivas, acúmulo de tarefas, salários atrasados ou inexistentes, humilhações e até violência.
Margarida encarna o espírito daqueles que se julgam “aristocráticos”, daqueles que rejeitam o trabalho braçal e tentam manter uma classe de subordinados à disposição. A paisagem caótica e insalubre da mansão, que ela sozinha não é capaz de organizar, é o retrato simbólico de sua decadência.
A produção também apresenta uma importante entrevista com Hilda, além de depoimentos dos vizinhos que a ajudaram e do agente do FBI responsável pela investigação. Todos relatam a desumanidade com que a família Bonetti tratava a trabalhadora.
Mais do que uma narrativa policial, a série é um alerta sobre a persistência da escravidão moderna. Infelizmente, casos semelhantes continuam a ocorrer no Brasil, sobretudo com mulheres negras que, na intimidade dos lares, são submetidas a relações abusivas e naturalizadas por uma sociedade que ainda normaliza a servidão.
Lançada em 15 de setembro de 2025, A Mulher da Casa Abandonada é uma série baseada no podcast de Chico Felitti. É dirigida por Katia Lund. Tem três episódios de 30 a 40 minutos e está disponível no Prime Vídeo.
Carolina Maria Ruy é jornalista, pesquisadora e coordenadora do Centro de Memória Sindical.
Confira aqui o trailer da série:
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