PUBLICADO EM 20 de nov de 2025

A COP30 e o futuro do trabalho diante da crise climática

A luta pela saúde e segurança no trabalho é fundamental para moldar o futuro do trabalho. Descubra mais no artigo de Eduardo Annunciato (Chicão), Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo.

Eduardo Annunciato (Chicão), Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo na COP30

Eduardo Annunciato (Chicão), Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo na COP30

Participar da COP30, a convite do Ministério do Trabalho e Emprego, como painelista no debate sobre mudança climática, estresse térmico e impactos na saúde e segurança do trabalho, foi uma das maiores responsabilidades da minha trajetória sindical. Representar os Eletricitários de São Paulo e, ao mesmo tempo, toda a classe trabalhadora brasileira em um espaço de alcance global reafirma que a luta sindical não pertence ao passado — ela é determinante para o futuro.

Registro meu agradecimento ao Ministério do Trabalho e Emprego pela confiança. A presença dos trabalhadores em um fórum como a COP30 não é simbólica; é necessária, urgente e estratégica. O movimento sindical está preparado para contribuir com soluções concretas, baseadas na realidade vivida diariamente no chão de fábrica, nas ruas e nas redes elétricas.

Plano Verão

Durante o painel, apresentei o Plano Verão dos Eletricitários, iniciativa inédita do nosso sindicato que nasceu da escuta da categoria e da constatação objetiva de que o calor extremo está adoecendo, incapacitando e matando trabalhadores em todo o país.

A mudança climática deixou de ser previsão e passou a ser parte da rotina. Ela está nos canteiros de obras, nos postes, nas redes e em todos os ambientes externos que exigem esforço físico sob temperaturas que chegam a 35 ou 40 graus, agravadas pelo calor gerado pelos EPIs. O corpo humano tem limites e, quando ultrapassados, o resultado pode ser trágico: desmaios, tontura, náuseas, hipertermia e até falência de órgãos. Vemos isso no setor elétrico, na agricultura, na construção civil, no saneamento e em diversas outras áreas.

Por isso levamos à COP30 uma medida concreta: monitoramento diário do IBUTG, alertas de segurança enviados aos trabalhadores, pausas obrigatórias e a determinação de que, acima de 31,1°C, não há condição segura de trabalho — é Stop Work. É a vida acima de qualquer meta, a saúde acima de qualquer planilha.

O Plano Verão não é apenas um conjunto de orientações; é uma política de proteção à vida que deveria existir em todos os setores expostos ao calor extremo.

Agenda climática

A COP30 confirmou o que o movimento sindical vem alertando há anos: a crise climática também é crise trabalhista. Quando o calor aumenta, cresce o adoecimento; quando cresce o adoecimento, aumentam as desigualdades; e quando a desigualdade se aprofunda, a injustiça social se intensifica.

Por isso, ganharam força inédita nas mesas da conferência temas como:

  • trabalho decente,
  • valorização profissional,
  • negociação coletiva,
  • regulamentação do estresse térmico e
  • reconhecimento da insalubridade.

E, pela primeira vez com tanta clareza, a redução da jornada de trabalho entrou no centro do debate climático mundial. Trabalhar menos significa permitir que o planeta respire, distribuir melhor o emprego, preservar a vida e reduzir a pressão humana sobre os ecossistemas. Não é apenas uma reivindicação sindical; é uma necessidade civilizatória.

O Brasil tem condições de liderar esse processo.

Trabalho decente

Durante a COP30, foi apresentada a Carta de Compromisso do Fórum de Unidade Sindical da Amazônia Legal, documento histórico elaborado coletivamente por dirigentes e sindicalistas das centrais. O texto evidencia que o movimento sindical amazônico está preparado para enfrentar os impactos da crise climática e o abandono histórico vivido pelo povo da floresta.

A Carta afirma que não existe futuro para a Amazônia sem futuro para suas trabalhadoras e trabalhadores. A informalidade ampliada, a precarização crescente e a ausência do Estado em áreas essenciais criam um cenário em que políticas ambientais são feitas longe de quem vive e trabalha no território. Por isso, a Carta defende trabalho no centro da agenda climática, com participação direta dos sindicatos; transição justa, com qualificação profissional, inclusão na transição energética e salário digno; negociação coletiva como instrumento socioambiental, com cláusulas de proteção ao calor extremo, igualdade salarial e saúde e segurança; acesso direto dos sindicatos aos fundos climáticos; valorização da cultura, da economia local, da agricultura familiar e da sociobiodiversidade.

A criação do Conselho Sindical Econômico da Amazônia Legal, oficializada na plenária de encerramento da COP30, representa um avanço fundamental. Esse organismo passa a acompanhar e influenciar políticas econômicas, trabalhistas e ambientais que impactam a região, fortalecendo a defesa do trabalho decente e da soberania amazônica.

Transição energética justa

O Brasil tem potencial para liderar o mundo na produção de energia limpa. Mas essa transição só será justa se vier acompanhada de empregos de qualidade, proteção social, valorização profissional e respeito aos direitos.

Não existe transição energética possível sem garantir saúde e segurança, reduzir riscos ocupacionais, reconhecer a insalubridade, investir em formação, combater a precarização e incluir os sindicatos nas decisões estratégicas. É o trabalhador quem põe a energia para circular.

Legado da COP30

Saio de Belém com a certeza de que o movimento sindical voltou ao centro do debate sobre o futuro do país e do planeta. Voltou com propostas, com dados, com ações concretas e com unidade.

Levar o Plano Verão à COP30 foi levar a voz de quem está na ponta da linha, enfrentando diariamente os impactos do calor extremo. Foi reafirmar que proteger o trabalhador é proteger a vida, a economia e o futuro.

Agradeço novamente ao Ministério do Trabalho e Emprego pelo reconhecimento e pela confiança. À classe trabalhadora, reafirmo meu compromisso diário.

Seguiremos firmes, porque não há transição justa sem sindicatos fortes. E não há democracia sólida sem trabalhadores protegidos.

Eduardo Annunciato (Chicão) é Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo e da Federação Nacional dos Trabalhadores em Energia, Água e Meio Ambiente – FENATEMA, Diretor de Educação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e Vice-presidente da Força Sindical.



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