
Eduardo Annunciato (Chicão), Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo na COP30
Participar da COP30, a convite do Ministério do Trabalho e Emprego, como painelista no debate sobre mudança climática, estresse térmico e impactos na saúde e segurança do trabalho, foi uma das maiores responsabilidades da minha trajetória sindical. Representar os Eletricitários de São Paulo e, ao mesmo tempo, toda a classe trabalhadora brasileira em um espaço de alcance global reafirma que a luta sindical não pertence ao passado — ela é determinante para o futuro.
Registro meu agradecimento ao Ministério do Trabalho e Emprego pela confiança. A presença dos trabalhadores em um fórum como a COP30 não é simbólica; é necessária, urgente e estratégica. O movimento sindical está preparado para contribuir com soluções concretas, baseadas na realidade vivida diariamente no chão de fábrica, nas ruas e nas redes elétricas.
Plano Verão
Durante o painel, apresentei o Plano Verão dos Eletricitários, iniciativa inédita do nosso sindicato que nasceu da escuta da categoria e da constatação objetiva de que o calor extremo está adoecendo, incapacitando e matando trabalhadores em todo o país.
A mudança climática deixou de ser previsão e passou a ser parte da rotina. Ela está nos canteiros de obras, nos postes, nas redes e em todos os ambientes externos que exigem esforço físico sob temperaturas que chegam a 35 ou 40 graus, agravadas pelo calor gerado pelos EPIs. O corpo humano tem limites e, quando ultrapassados, o resultado pode ser trágico: desmaios, tontura, náuseas, hipertermia e até falência de órgãos. Vemos isso no setor elétrico, na agricultura, na construção civil, no saneamento e em diversas outras áreas.
Por isso levamos à COP30 uma medida concreta: monitoramento diário do IBUTG, alertas de segurança enviados aos trabalhadores, pausas obrigatórias e a determinação de que, acima de 31,1°C, não há condição segura de trabalho — é Stop Work. É a vida acima de qualquer meta, a saúde acima de qualquer planilha.
O Plano Verão não é apenas um conjunto de orientações; é uma política de proteção à vida que deveria existir em todos os setores expostos ao calor extremo.
Agenda climática
A COP30 confirmou o que o movimento sindical vem alertando há anos: a crise climática também é crise trabalhista. Quando o calor aumenta, cresce o adoecimento; quando cresce o adoecimento, aumentam as desigualdades; e quando a desigualdade se aprofunda, a injustiça social se intensifica.
Por isso, ganharam força inédita nas mesas da conferência temas como:
- trabalho decente,
- valorização profissional,
- negociação coletiva,
- regulamentação do estresse térmico e
- reconhecimento da insalubridade.
E, pela primeira vez com tanta clareza, a redução da jornada de trabalho entrou no centro do debate climático mundial. Trabalhar menos significa permitir que o planeta respire, distribuir melhor o emprego, preservar a vida e reduzir a pressão humana sobre os ecossistemas. Não é apenas uma reivindicação sindical; é uma necessidade civilizatória.
O Brasil tem condições de liderar esse processo.
Trabalho decente
Durante a COP30, foi apresentada a Carta de Compromisso do Fórum de Unidade Sindical da Amazônia Legal, documento histórico elaborado coletivamente por dirigentes e sindicalistas das centrais. O texto evidencia que o movimento sindical amazônico está preparado para enfrentar os impactos da crise climática e o abandono histórico vivido pelo povo da floresta.
A Carta afirma que não existe futuro para a Amazônia sem futuro para suas trabalhadoras e trabalhadores. A informalidade ampliada, a precarização crescente e a ausência do Estado em áreas essenciais criam um cenário em que políticas ambientais são feitas longe de quem vive e trabalha no território. Por isso, a Carta defende trabalho no centro da agenda climática, com participação direta dos sindicatos; transição justa, com qualificação profissional, inclusão na transição energética e salário digno; negociação coletiva como instrumento socioambiental, com cláusulas de proteção ao calor extremo, igualdade salarial e saúde e segurança; acesso direto dos sindicatos aos fundos climáticos; valorização da cultura, da economia local, da agricultura familiar e da sociobiodiversidade.
A criação do Conselho Sindical Econômico da Amazônia Legal, oficializada na plenária de encerramento da COP30, representa um avanço fundamental. Esse organismo passa a acompanhar e influenciar políticas econômicas, trabalhistas e ambientais que impactam a região, fortalecendo a defesa do trabalho decente e da soberania amazônica.
Transição energética justa
O Brasil tem potencial para liderar o mundo na produção de energia limpa. Mas essa transição só será justa se vier acompanhada de empregos de qualidade, proteção social, valorização profissional e respeito aos direitos.
Não existe transição energética possível sem garantir saúde e segurança, reduzir riscos ocupacionais, reconhecer a insalubridade, investir em formação, combater a precarização e incluir os sindicatos nas decisões estratégicas. É o trabalhador quem põe a energia para circular.
Legado da COP30
Saio de Belém com a certeza de que o movimento sindical voltou ao centro do debate sobre o futuro do país e do planeta. Voltou com propostas, com dados, com ações concretas e com unidade.
Levar o Plano Verão à COP30 foi levar a voz de quem está na ponta da linha, enfrentando diariamente os impactos do calor extremo. Foi reafirmar que proteger o trabalhador é proteger a vida, a economia e o futuro.
Agradeço novamente ao Ministério do Trabalho e Emprego pelo reconhecimento e pela confiança. À classe trabalhadora, reafirmo meu compromisso diário.
Seguiremos firmes, porque não há transição justa sem sindicatos fortes. E não há democracia sólida sem trabalhadores protegidos.
Eduardo Annunciato (Chicão) é Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo e da Federação Nacional dos Trabalhadores em Energia, Água e Meio Ambiente – FENATEMA, Diretor de Educação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e Vice-presidente da Força Sindical.




















