PUBLICADO EM 11 de jul de 2019
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As falsas promessas do protecionismo

Grande parte das críticas contra a globalização hoje são relacionadas à ideia de que essa enriquece poucos, deixando muitos para trás. As pessoas que usam esse argumento frequentemente defendem o abandono global da globalização – o que colocaria a própria existência de uma agenda internacional em risco.

Por Dambisa MoyoÉ compreensível que políticos estão respondendo às queixas de seu eleitorado. Enquanto algumas pessoas são beneficiadas pela globalização, grande parcela da sociedade sofre – de fazendeiros do mundo em desenvolvimento, a industriais e trabalhadores no Ocidente. Mas essas frustrações têm menos a ver com o próprio ideal de globalização do que com a versão leve que os políticos implementaram nas décadas recentes. Infelizmente, governos através do globo estão girando hoje na direção de modelos políticos e econômicos menores. Esses oferecerão vitórias rápidas, mas, no longo prazo, reduzirão crescimento, aumentarão a pobreza e incentivarão mais agitação política e social. Em vez de abordar suas deficiências, vão apenas entrincheirar a forma inferior de globalização.

Se o mundo continuar nesse caminho isolacionista, três principais mudanças acontecerão.

Em primeiro lugar, um mundo mais isolado vai forçar os negócios a adotar modelos cada vez mais locais e cada vez menos globais. Em essência, eles mais provavelmente contarão com capital local e regional – e menos provavelmente serem dirigidos centralmente por centros financeiros como as cidades de Nova York, Tóquio e Londres. Essa mudança vai alterar significativamente como os negócios se financiam, como eles estruturam custos, e como eles visualizam a proposição de crescimento a longo prazo. Eles serão menos capazes de acessar o capital global que é necessário para financiar investimentos e crescer companhias – reduzindo suas oportunidades de contratar pessoas e investir em comunidades.

Em segundo lugar, eles terão deflação a curto prazo e, então, inflação em longo prazo. Nós já começamos a observar o primeiro. Baixos custos de energia, baixos salários e, de fato, o baixo preço do próprio dinheiro (refletido em baixas taxas de juros), indicam um mundo predominantemente deflacionário, embora todos eles tenham crescido notavelmente recentemente. Como para o último, a persistência de inflação baixa desafiou avisos de um aumento acentuado, que data desde 2009, logo depois da crise financeira. Além disso, crescentes tarifas comerciais e protecionismo vão aumentar os preços dos produtos importados. Isso vai cortar por baixo o valor real dos salários sendo forçados mais alto por uma economia relativamente fechada, com reduzido movimento de trabalho.

De acordo com a Organização Internacional do Trabalho, há aproximadamente 66 milhões de pessoas entre as idades de 18 e 24 anos, que estão fora do mercado de trabalho pelo mundo. Esse desequilíbrio laboral é particularmente pronunciado quando você considera que há um envelhecimento da população no Ocidente e no Japão, enquanto entre muitas nações em desenvolvimento tanto quanto 70% da população está abaixo da idade de 25 anos. Uma política global que visa um nível de migração ideal pode ajudar empresas a tocar o mercado de trabalho inteiro mundial para talento e trabalhadores – e ajudar a afastar inflação abrupta no futuro.

A mudança final é que os governos provavelmente irão favorecer campeões nacionais – companhias que desfrutam proteções regulatórias, incentivos fiscais e subsídios, que oferecem uma vantagem em seus mercados natais contra competidores estrangeiros. Os resultados são monopólios corporativos, ao invés de mercados competitivos, onde o governo se torna um árbitro maior de quem vence ou perde. Enfim, essas companhias ganham poder de precificação desmedido, o que promove companhias maiores e menos eficientes, enquanto causam prejuízo aos consumidores.

As políticas públicas não permitem à globalização total uma chance genuína de “levantar todos os barcos”. Por exemplo, as políticas americanas deveriam ter apoiado uma grande agenda de investimentos em infraestrutura, escolas e habilidades, para inaugurar uma nova era econômica, atrás da riqueza ganha da globalização. Ao invés disso, elas continuaram a prover empréstimos a juros baixos à classe média americana, especialmente para apoiar a compra da casa própria; esses programas de dívidas deram às pessoas a ilusão de que suas vidas estavam melhorando, mesmo quando seus salários estavam caindo, e obrigações de dívidas crescendo. E políticos através do mundo deveriam ter cedido poder real e autoridade a instituições globais, como a Organização Mundial do Comércio, que ainda estão suplantadas pelas agendas políticas de governos nacionais e, portanto, lutam para implementar uma agenda que beneficie todos através da Terra.

Enquanto as atuais políticas protecionistas propostas estão compreensivelmente apelando para o curto prazo, elas estão limitando o crescimento para companhias e países. Deixadas não controladas, o resultado vai ser mais destruição da economia global e maior desespero, assim como agitação, conflito, corrupção, e um sentimento de total desesperança através do mundo.

Esse ensaio é adaptado com permissão de “Edge of Chaos: Why Democracy is Failing to Deliver Economic Growth – and How to Fix it”, de autoria de Dambisa Moyo.

Fonte: time.com

Tradução: Luciana Cristina Ruy

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