PUBLICADO EM 26 de jan de 2026

“Ambientes de trabalho podem adoecer”, afirma especialista em saúde mental

Descubra como ambientes de trabalho podem adoecer. Saiba mais sobre saúde mental e qualidade de vida no trabalho

Edvard Munch(1863-1944). O Grito, 1893, óleo, têmpera e pastel sobre cartão

Edvard Munch(1863-1944). O Grito, 1893, óleo, têmpera e pastel sobre cartão

Em entrevista ao Jornal A Massa, do Sindicato dos Padeiros de São Paulo, o Dr. Daniel de Paula Oliva, psicanalista e psiquiatra, referência técnica da Unidade de Bem-Estar e Saúde Mental do Hospital Albert Einstein, fala sobre saúde mental, ansiedade, síndrome do pânico, assédio e qualidade de vida. Ele afirma:

“Sobre o impacto do assédio moral, sexual e de metas abusivas, é importante dizer com clareza: ambientes de trabalho podem adoecer, e a responsabilidade não deve recair apenas sobre o indivíduo. Como sociedade, precisamos tratar o assédio como violência, não como ‘normal do trabalho’.”

Leia a entrevista completa


Saúde mental: um conceito em constante transformação

O que é saúde mental?

Dr. Daniel de Paula Oliva – A definição é dinâmica: ela muda conforme evolui a forma como entendemos o ser humano. No passado, a atenção ao que hoje chamamos de saúde mental estava muito ligada à ideia de “loucura”, ou seja, a pessoas com comportamentos e pensamentos diferentes do que era considerado comum. Com os conhecimentos disponíveis na época, buscavam-se explicações que fizessem sentido dentro da visão de mundo existente. Por isso, muitas dessas pessoas eram vistas como sob influência de forças da natureza ou de espíritos. Em alguns contextos, acreditava-se que elas possuíam um tipo de “dom”, como se pudessem fazer uma ponte entre o mundo visível e um mundo invisível, espiritual.

Da “loucura” às ciências da saúde

Na Grécia Antiga, surgiu uma tentativa de explicar essas diferenças relacionando-as ao corpo. Nessa visão, ligada à tradição de Hipócrates, acreditava-se que o equilíbrio entre os “componentes” do organismo influenciava o modo como a pessoa pensava, sentia e se comportava.

Na Idade Média, com a forte influência da religião na sociedade, voltaram a ganhar destaque explicações baseadas em forças espirituais.

Foi principalmente no século XX, com o avanço da medicina e das ciências da saúde, que as explicações biológicas sobre diferentes comportamentos passaram a ter mais força. Ainda assim, por muito tempo, saúde mental foi entendida apenas como a ausência de transtornos psiquiátricos.

No período pós-guerra, com a Declaração dos Direitos Humanos e a criação da Organização Mundial da Saúde, essa ideia começou a mudar. A definição deixou de ser apenas “não ter doença” e passou a ser mais positiva. Hoje, uma definição amplamente aceita afirma que:
“Saúde mental é um estado de bem-estar em que a pessoa reconhece e desenvolve suas capacidades, consegue lidar com o estresse do dia a dia, trabalha de forma produtiva e contribui para a comunidade em que vive.”


Ansiedade, depressão e burnout: os transtornos mais comuns no Brasil

Quais são os transtornos mentais que atingem a maior parte da população no Brasil?

Dr. Daniel de Paula Oliva – Os transtornos mais presentes entre os brasileiros são os transtornos de ansiedade e os transtornos depressivos. Também há destaque para pessoas com sintomas de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional. Em alguns estudos, o Brasil aparece como o segundo país do mundo com esse problema, perdendo apenas para o Japão. É importante destacar ainda que, apesar de não figurar entre os principais transtornos mentais, a taxa de pessoas com transtorno por uso de álcool é bastante relevante na nossa sociedade.


O que adoece a mente: fatores biológicos, sociais e ambientais

Quais fatores podem prejudicar a saúde mental? É possível prevenir? Há cura?

Dr. Daniel de Paula Oliva – Os fatores que podem levar ao surgimento de transtornos psiquiátricos são diversos e, muitas vezes, se acumulam ao longo do tempo. Há fatores do próprio corpo, como herança familiar (genética), além de características individuais, como o modo de ser e de reagir às situações. Aspectos sociais e econômicos também pesam bastante — especialmente situações de violência em qualquer fase da vida, mas principalmente na infância e na adolescência. O ambiente em que vivemos também influencia: alimentação, exposição à poluição e outras doenças físicas podem afetar a saúde mental.

Prevenção, tratamento e qualidade de vida

É possível, sim, prevenir, atuando em diferentes frentes. Em um nível mais amplo, políticas e ações sociais que reduzam desigualdades e vulnerabilidades sociais e econômicas ajudam muito. No nível individual, algumas atitudes também protegem a saúde mental: compreender melhor as próprias emoções e limites, desenvolver estratégias para lidar com dificuldades, cuidar da saúde física, manter um sono adequado, usar álcool e outras substâncias com responsabilidade e cultivar relações saudáveis.

Transtornos comuns e de longa duração: diferenças importantes

De forma geral, podemos pensar em dois grandes grupos de transtornos psiquiátricos: os mais comuns e os de longa duração. Os mais comuns, como ansiedade e depressão, muitas vezes permitem melhora completa dos sintomas com tratamento adequado — e, em alguns casos, a pessoa pode até interromper a medicação, sempre sob orientação profissional.

Já os transtornos de longa duração costumam acompanhar a pessoa por mais tempo, como no transtorno bipolar, na esquizofrenia e nos problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Nesses casos, com acompanhamento contínuo, é possível manter bom controle dos sintomas e qualidade de vida.

Uma comparação ajuda: na medicina, existem problemas passageiros, como uma pneumonia ou uma fratura, e outros que exigem cuidado contínuo, como hipertensão e diabetes. Com a saúde mental, pode acontecer algo semelhante.

O mais importante é lembrar que, em qualquer desses casos, a pessoa pode ter uma vida plena e com boa qualidade, desde que conte com acompanhamento adequado e cuide de si.


Suicídio: múltiplas causas e fatores desencadeadores

Por que algumas pessoas pensam ou partem para o suicídio?

Dr. Daniel de Paula Oliva – Essa é uma pergunta difícil de responder, porque geralmente não existe uma única causa. O que costuma ocorrer é uma combinação de dois tipos de fatores:
fatores de base, que se acumulam ao longo do tempo, como transtornos psiquiátricos, conflitos nas relações e problemas de saúde que reduzem muito a qualidade de vida e a autonomia; e fatores desencadeadores, acontecimentos que “viram a chave”, como o fim de um relacionamento, uma crise financeira importante ou situações de humilhação e exposição.

Em algumas pessoas, os fatores de base são mais evidentes. Em outras, mesmo sem sofrimento prolongado, um evento muito intenso pode levar a pessoa a enxergar a morte como uma “saída” para a dor. Isso não significa que ela queira morrer, mas sim parar de sofrer, sem conseguir ver outra alternativa.

Sinais de alerta que não podem ser ignorados

Os sinais de alerta costumam aparecer como mudanças de comportamento e no que a pessoa diz, como:

  • afastamento de amigos e familiares;
  • perda de interesse ou prazer em atividades antes importantes;
  • comportamentos de “despedida”, como organizar assuntos pessoais;
  • doação ou descarte de bens pessoais;
  • frases como “vocês vão ficar melhor sem mim”, “eu não aguento mais”, “não vejo mais sentido”.

Tudo isso deve ser levado muito a sério. A pior atitude é minimizar o sofrimento. Diante desses sinais, buscar ajuda profissional o quanto antes é fundamental.


A importância da ajuda médica em situações de risco

Por que é importante procurar ajuda médica?

Dr. Daniel de Paula Oliva – A ajuda médica, especialmente em situações de urgência, avalia o risco e direciona para o tratamento mais adequado, garantindo a segurança do paciente.


Psicologia e psiquiatria: cuidados que se complementam

O papel da psicologia no cuidado emocional

Dr. Daniel de Paula Oliva – O profissional de psicologia ajuda a pessoa a compreender o que está por trás do sofrimento emocional — pensamentos, emoções e padrões de comportamento — e a desenvolver estratégias práticas para lidar com os desafios do dia a dia, fortalecendo recursos como autoconhecimento e regulação emocional.

Psiquiatria: muito além da medicação

Dr. Daniel de Paula Oliva – O(a) psiquiatra investiga fatores biológicos que podem influenciar o sofrimento emocional, avalia o quadro clínico como um todo e indica tratamentos, que podem incluir medicações, além de orientações sobre sono, atividade física, redução do uso de álcool e manejo do estresse. O trabalho não se resume a “passar remédio”, mas a construir, junto com o paciente, um plano de cuidado que melhore concretamente sua qualidade de vida.


Informação e empatia para combater o preconceito

Como romper o preconceito em relação às doenças mentais?

Dr. Daniel de Paula Oliva – Romper o preconceito passa principalmente por informação e empatia. Transtornos mentais são condições de saúde, não falta de força de vontade ou falha moral. Ninguém é o seu diagnóstico. Com acompanhamento adequado, muitas pessoas têm melhora significativa e podem levar uma vida plena, com autonomia e qualidade de vida.


Assédio, metas abusivas e adoecimento no trabalho

Saúde mental como responsabilidade coletiva

Dr. Daniel de Paula Oliva – Ambientes de trabalho podem adoecer, e a responsabilidade não deve recair apenas sobre o indivíduo. Precisamos tratar o assédio como violência, não como algo “normal do trabalho”, e cobrar políticas efetivas de prevenção, canais seguros de denúncia, proteção contra retaliação e consequências reais. Metas precisam ser compatíveis com limites humanos, porque a cultura do excesso aumenta o adoecimento e, no longo prazo, reduz produtividade e qualidade.


Onde buscar ajuda e apoio emocional

Dr. Daniel de Paula Oliva – Quem precisa de ajuda pode começar pela UBS (posto de saúde), que orienta e encaminha, e pelos CAPS, quando disponíveis. Em situações de crise intensa ou risco imediato, UPA, pronto atendimento e o SAMU (192) são portas de urgência. Para apoio emocional 24 horas, o CVV (188) é um recurso importante.

por Susana Buzeli, Jornalista

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