
Edvard Munch(1863-1944). O Grito, 1893, óleo, têmpera e pastel sobre cartão
Em entrevista para o Jornal A Massa, do Sindicato dos Padeiros de São Paulo, o Dr. Daniel de Paula Oliva, Psicanalista e Psiquiatra, Referência Técnica da unidade de Bem-estar e Saúde Mental do Einstein, fala sobre saúde mental, ansiedade, síndrome do pânico, assédio e qualidade de vida e afirma:
“Sobre o impacto do assédio moral, sexual e de metas abusivas, é importante dizer com clareza: ambientes de trabalho podem adoecer, e a responsabilidade não deve recair apenas sobre o indivíduo. Como sociedade, precisamos tratar assédio como violência, não como ‘normal do trabalho’.” Leia a entrevista completa.
Jornal A Massa – O que é saúde mental?
Dr. Daniel de Paula Oliva – A definição é dinâmica: ela muda conforme evolui a forma como entendemos o ser humano. No passado, a atenção ao que hoje chamamos de saúde mental estava muito ligada à ideia de “loucura”, ou seja, a pessoas com comportamentos e pensamentos diferentes do que era considerado comum. Com os conhecimentos disponíveis na época, buscavam-se explicações que fizessem sentido dentro da visão de mundo existente. Por isso, muitas dessas pessoas eram vistas como sob influência de forças da natureza ou de espíritos. Em alguns contextos, acreditava-se que elas tinham um tipo de “dom”, como se pudessem fazer uma ponte entre o mundo visível e um mundo invisível, espiritual.
Na Grécia antiga, surgiu uma tentativa de explicar essas diferenças relacionando-as ao corpo. Nessa visão, ligada à tradição de Hipócrates, acreditava-se que o equilíbrio entre os “componentes” do organismo influenciava o modo como a pessoa pensava, sentia e se comportava.
Na Idade Média, com a forte influência da religião na sociedade, voltaram a ganhar destaque explicações baseadas em forças espirituais.
Foi principalmente no século XX, com o avanço da medicina e das ciências da saúde, que as explicações biológicas sobre diferentes comportamentos passaram a ter mais força. Ainda assim, por muito tempo, saúde mental foi entendida apenas como a ausência de transtornos psiquiátricos.
No período pós-guerra, com a Declaração dos Direitos Humanos e a criação da Organização Mundial da Saúde, essa ideia começou a mudar. A definição deixou de ser apenas “não ter doença” e passou a ser mais positiva. Hoje, uma definição mais aceita traz que: “Saúde mental é um estado de bem-estar em que a pessoa reconhece e desenvolve suas capacidades, consegue lidar com o estresse do dia a dia, trabalha de forma produtiva e contribui para a comunidade em que vive”.
Jornal A Massa – Quais são os transtornos mentais que atingem a maior parte da população no Brasil?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Os transtornos que estão mais presentes nos brasileiros são os Transtornos de Ansiedade e os Transtornos Depressivos. Temos ainda um destaque para pessoas com sintomas de burnout ou síndrome do esgotamento profissional. Em alguns estudos, nós somos o segundo país do mundo, perdendo apenas para o Japão, para esse problema. Acho importante destacar também que, apesar de não estar entre os principais problemas de saúde mental, a taxa de pessoas com transtorno por uso de álcool é muito relevante na nossa sociedade.
Jornal A Massa – Quais são os fatores que podem causar um prejuízo para a saúde mental e favorecer o desencadeamento desses transtornos? É possível preveni-los? Eles têm cura?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Os fatores que podem levar ao surgimento de transtornos psiquiátricos são vários e, muitas vezes, se somam ao longo do tempo. Há fatores do próprio corpo, como herança familiar (genética), além de características individuais, como o jeito de ser e reagir às situações. Aspectos sociais e econômicos também pesam bastante — especialmente situações de violência em qualquer fase da vida, mas principalmente na infância e na adolescência. O ambiente em que vivemos também influencia: alimentação, exposição à poluição e outras doenças do corpo podem afetar a saúde mental.
E sim, é possível prevenir, atuando em diferentes frentes. Em um nível mais amplo, políticas e ações sociais que reduzam desigualdades e vulnerabilidades sociais e econômicas ajudam muito. No nível individual, algumas atitudes também protegem a saúde mental: entender melhor as próprias emoções e limites (por meio de orientação e informação), desenvolver estratégias para lidar com dificuldades, cuidar da saúde física, manter um sono adequado, usar álcool e outras substâncias com responsabilidade, e cultivar relações saudáveis com outras pessoas.
De forma geral, podemos pensar em dois grandes grupos de transtornos psiquiátricos: os mais comuns e os de longa duração. Os mais comuns, como ansiedade e depressão, muitas vezes permitem melhora completa dos sintomas com o tratamento adequado — e, em alguns casos, a pessoa consegue até parar a medicação, sob orientação profissional. Já os transtornos de longa duração costumam acompanhar a pessoa por mais tempo, como no transtorno bipolar, na esquizofrenia e nos problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas. Nesses casos, com acompanhamento e tratamento, é possível manter um bom controle e qualidade de vida.
Uma comparação ajuda: na medicina, existem problemas que costumam ser passageiros, como uma pneumonia ou uma fratura, e outros que exigem cuidado contínuo, como pressão alta e diabetes. Com a saúde mental, pode acontecer algo parecido.
O mais importante é lembrar que, em qualquer um desses casos, a pessoa pode ter uma vida plena e com boa qualidade, desde que conte com acompanhamento adequado e cuide de si.
Jornal A Massa – Por que algumas pessoas pensam ou partem para o suicídio? Quais são os sinais de alerta que podem indicar que uma pessoa está em sofrimento e precisa de ajuda?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Essa é uma pergunta que é muito difícil de responder, porque geralmente não existe uma única causa. O que costuma acontecer é uma combinação de dois tipos de fatores. Fatores de base (que vêm se acumulando ao longo do tempo): por exemplo, transtornos psiquiátricos, conflitos nas relações, problemas de saúde que reduzem muito a qualidade de vida e a autonomia; Fatores desencadeadores (algo que acontece e “vira a chave”): acontecimentos que fazem a pessoa perder a esperança, como o fim de um relacionamento, uma crise financeira importante ou situações de humilhação e exposição.
Em algumas pessoas, os fatores de base ficam bem evidentes. Em outras, mesmo sem um sofrimento prolongado, um evento muito intenso pode levar a pessoa a enxergar a morte como uma “saída” para a dor. Isso não significa que ela realmente queira morrer — muitas vezes, ela quer parar de sofrer, mas não consegue ver outra alternativa.
Sinais de alerta costumam aparecer como mudanças de comportamento e também no que a pessoa diz. Alguns exemplos:
• afastamento de amigos e família;
• perda de interesse ou prazer em coisas que antes eram importantes;
• agir como se estivesse “se despedindo” (por exemplo, organizar assuntos como se fosse partir);
• começar a se desfazer de objetos e bens pessoais;
• frases como “vocês vão ficar melhor sem mim”, “eu não aguento mais”, “não vejo mais sentido”.
Tudo isso deve ser levado muito a sério. A pior atitude é minimizar (“é drama”, “é para chamar atenção”). Quando isso aparece, buscar ajuda profissional o quanto antes é fundamental.
Jornal A Massa – Por que é importante procurar ajuda médica?
Dr. Daniel de Paula Oliva – A ajuda médica nesses casos de urgência vai entender o risco e poderá direcionar para o melhor tratamento, garantindo a segurança do paciente.
Jornal A Massa – Nos tratamentos e orientações, qual o papel dos profissionais de psicologia?
Dr. Daniel de Paula Oliva – O profissional de psicologia ajuda a pessoa a entender melhor o que está por trás do sofrimento emocional — como pensamentos, emoções e padrões de comportamento que podem estar mantendo ou piorando a dor. A partir disso, ele(a) apoia o desenvolvimento de estratégias práticas para lidar com os desafios do dia a dia, enfrentar problemas de um jeito mais saudável, repensar a forma que esses pensamentos são encarados e fortalecer recursos internos, como autoconhecimento, regulação emocional e tomada de decisões.
Jornal A Massa – E qual o papel dos profissionais de psiquiatria?
Dr. Daniel de Paula Oliva – O(a) psiquiatra ajuda a investigar se existem fatores do corpo que podem estar influenciando o sofrimento emocional — como alterações hormonais, problemas do sono, efeitos de outras doenças, uso de substâncias ou até efeitos colaterais de medicamentos. Além disso, avalia o quadro clínico como um todo e indica tratamentos que podem incluir medicações, sempre com o objetivo de reduzir sintomas, atravessar períodos mais críticos e recuperar o funcionamento do dia a dia e a qualidade de vida.
Também é importante reforçar: o trabalho do(a) psiquiatra não se resume a “passar remédio”. Assim como em outras áreas da medicina — por exemplo, quando alguém procura um ortopedista por dor no joelho e recebe orientações sobre hábitos de vida, perda de peso e encaminhamento para fisioterapia — o(a) psiquiatra também orienta mudanças de rotina e cuidados que fazem diferença, como sono, atividade física, redução de álcool e outras substâncias, manejo do estresse e encaminhamentos para psicoterapia e outros profissionais quando necessário. O foco é construir, junto com o paciente, um plano de cuidado que melhore a vida de forma concreta.
Jornal A Massa – Como romper os preconceitos em relação às doenças e/ou aos doentes mentais?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Romper o preconceito passa, principalmente, por informação e empatia. É essencial entender que transtornos mentais são condições de saúde, como qualquer outra na medicina. Eles não acontecem por “falta de força de vontade” e nem são uma questão moral. Na maioria das vezes, surgem pela combinação de fatores biológicos, psicológicos e sociais, e não porque a pessoa “escolheu” estar assim.
Também ajuda muito lembrar que ninguém é o seu diagnóstico: a pessoa tem um transtorno, mas continua sendo ela mesma, com história, capacidades e potencial. Com acompanhamento adequado e cuidado contínuo, muitas pessoas têm melhora importante e podem levar uma vida plena, com autonomia e qualidade de vida.
Jornal A Massa – Como cuidar, no dia a dia, da saúde mental em uma sociedade que exige e pressiona cada vez mais por rapidez e eficiência do ser humano? Uma sociedade onde a injustiça, a insegurança e a instabilidade emocional, econômica, familiar e social são cada vez mais frequentes?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Cuidar da saúde mental no dia a dia, em uma sociedade que exige rapidez e eficiência o tempo todo, passa por criar “proteções possíveis” dentro da vida real. Não é sobre virar uma pessoa imune ao estresse, e sim sobre reconhecer limites e manter hábitos básicos que busquem um equilíbrio. O sono é um bom começo, porque ele ajuda a regular nossas emoções, energia e capacidade de lidar com frustrações. Pausas curtas ao longo do dia, redução do uso de telas e notificações, alimentação saudável e atividade física ajudam o corpo a sair do modo de alerta constante.
Um ponto que se mostra importantíssimo nesse mundo hiperconectado é a construção de vínculos verdadeiros: conversar, pedir ajuda e não se isolar.
Vale lembrar que nem todo sofrimento é “fraqueza individual”; muitas vezes ele é uma resposta a condições difíceis. Por isso, buscar apoio profissional quando necessário é parte do cuidado, não sinal de incapacidade.
Edvard Munch (1863-1944). A Ansiedade, 1894, óleo sobre tela
Jornal A Massa – Segundo pesquisas, no Brasil e no mundo, a ansiedade atinge níveis muito preocupantes e o afastamento do trabalho tem aumentado consideravelmente. O que é ansiedade, quais os sintomas? Como lidar, tratar da ansiedade?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Ansiedade é uma reação natural do organismo de alguma ameaça. Ela existe para que a gente pense nesse risco futuro, busque alternativas que nos ajudarão, e prepara nosso corpo para enfrentar o problema. É normal sentir ansiedade quando temos um problema mais difícil e até mesmo quando temos algo bom à frente e ficamos pensando sobre ela, como férias ou algum encontro.
O problema surge quando esse alarme fica ligado por tempo demais ou com intensidade alta, atrapalhando a vida. Os sintomas podem ser emocionais e físicos: preocupação constante, irritabilidade, sensação de que algo ruim vai acontecer, catastrofização – quando nossa cabeça “viaja” em tudo de pior que pode acontecer, com a ideia de que um problema, até pequeno, vai tomar a pior forma possível e virar algo intransponível, dificuldade de relaxar e de dormir, além de coração acelerado, falta de ar, tensão muscular, dor de cabeça, desconforto gastrointestinal e dificuldade de concentração.
O tratamento envolve uma combinação de medidas: ajustar sono e rotina, reduzir cafeína e álcool, praticar atividade física, aprender estratégias de respiração e relaxamento e, principalmente, psicoterapia, que ajuda a identificar gatilhos e a lidar com pensamentos que alimentam o medo. Em quadros moderados a graves, a avaliação psiquiátrica é importante, porque medicações podem ser indicadas para atravessar períodos críticos e recuperar funcionalidade e qualidade de vida. Também vale investigar fatores do corpo que podem piorar a ansiedade, como alterações hormonais, problemas do sono e uso de substâncias.
Jornal A Massa – A ansiedade pode evoluir para uma síndrome do pânico? E o que é a síndrome do pânico, quais os sintomas e o tratamento?
Dr. Daniel de Paula Oliva – A ansiedade pode, sim, evoluir para crises de pânico em algumas pessoas. O pânico é uma crise intensa e súbita de medo, que costuma atingir um pico rapidamente e vem acompanhada de sintomas fortes no corpo, como palpitações, falta de ar, tremores, suor, tontura, aperto no peito e a sensação de que vai morrer, desmaiar ou perder o controle. Esses sintomas aparecem pela ativação do sistema de luta e fuga do nosso organismo. Ele é importante quando estamos diante de um risco real, em uma situação de violência, um desastre natural em que precisamos pensar rápido.
Quando essas crises se repetem e a pessoa começa a viver com medo de ter outra crise, mudando hábitos e evitando lugares ou situações, falamos em transtorno do pânico.
O tratamento costuma ter ótima resposta quando é bem conduzido: psicoterapia para reduzir o medo das sensações do corpo e mudar padrões de pensamento, e, em alguns casos, medicação para estabilizar sintomas. Educação sobre o que é a crise — entender que é um “alarme falso” do organismo — também reduz muito o medo e a recorrência. Na primeira crise, especialmente, é importante buscar avaliação médica, porque alguns sintomas podem se parecer com outras condições clínicas.
Edvard Munch (1863-1944). Trabalhadores voltando para casa, 1913, óleo sobre tela
Jornal A Massa – O assédio moral, sexual e as exigências para cumprir metas levam o trabalhador e a trabalhadora a desenvolver quadros de transtornos mentais. Na sua opinião, como a sociedade pode se posicionar para resolver esse problema? Como a sociedade pode contribuir para que as pessoas com menos informação e/ou menos recursos financeiros tenham acesso a atendimentos e tratamentos de qualidade nesta área? Onde procurar ajuda?
Dr. Daniel de Paula Oliva – Sobre o impacto do assédio moral, sexual e de metas abusivas, é importante dizer com clareza: ambientes de trabalho podem adoecer, e a responsabilidade não deve recair apenas sobre o indivíduo. Como sociedade, precisamos tratar assédio como violência, não como “normal do trabalho”, e cobrar políticas efetivas de prevenção e responsabilização: canais seguros de denúncia, investigação séria, proteção contra retaliação e consequências reais. Metas precisam ser compatíveis com limites humanos, porque a cultura do excesso aumenta adoecimento e, no longo prazo, reduz produtividade e qualidade. Para ampliar acesso ao cuidado, especialmente para quem tem menos informação e recursos, é essencial fortalecer a rede pública e comunitária, integrar saúde mental à atenção básica e ampliar oferta de atendimento psicológico e psiquiátrico, inclusive com parcerias com universidades e serviços locais.
Na prática, quem precisa de ajuda pode começar pela UBS (posto de saúde), que orienta e encaminha, e pelos CAPS, quando disponíveis, que são serviços especializados. Em situações de crise intensa ou risco imediato, UPA/pronto atendimento e o SAMU (192) são portas de urgência. E para apoio emocional 24 horas, o CVV (188) é um recurso importante.
Dr. Daniel de Paula Oliva é Psicanalista e Psiquiatra, Referência Técnica da unidade de Bem-estar e Saúde Mental do Einstein
Fique por dentro:
Edvard Munch (1863-1944) é um dos artistas mais importantes na história da arte. Seu trabalho passa pela pintura, gravura, desenho, escultura, fotografia e cinema.
Sua obra foi marcada pelo interesse nas emoções psicológicas e na alma do ser humano. Temas como dor da existência, medo, solidão, angústia, ansiedade, melancolia, vida e morte estão presentes nas escolhas de formas e cores no trabalho do artista.
O nazismo considerava sua arte como degenerada, assim como a de muitos outros artistas. Com a intenção de controlar a criatividade e a expressão, os nazistas visavam uma estética de submissão, obediência e pensamento único para impor e fortalecer a ideologia e doutrinação pública.
“A natureza não é só o que é visível aos olhos; também inclui as imagens do interior da alma.” Edvard Munch






