
Kongjian Yu, renomado arquiteto chinês, e Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz, cineasta documentarista, que morreram em acidente aéreo em Aquidauana.
Um acidente aéreo ocorrido na noite de terça-feira (23) em Aquidauana, no Pantanal sul-mato-grossense, resultou na morte de quatro pessoas, entre elas o arquiteto e paisagista chinês Kongjian Yu, considerado um dos maiores nomes da arquitetura mundial e criador do conceito de cidades-esponja.
A aeronave de pequeno porte caiu na área da Fazenda Barra Mansa, região turística e também conhecida por ter servido de locação para a novela Pantanal, da TV Globo. Segundo o Corpo de Bombeiros, o avião explodiu ao atingir o solo, após uma tentativa de arremetida durante a manobra de pouso. As causas do acidente ainda estão sob investigação.
As vítimas
De acordo com a Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros, as quatro vítimas identificadas são:
- Kongjian Yu, arquiteto e professor da Universidade de Pequim, diretor do escritório Turenscape.
- Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz, cineasta documentarista, de São Paulo.
- Rubens Crispim Jr., diretor e documentarista, também de São Paulo.
- Marcelo Pereira de Barros, piloto e proprietário da aeronave.
Quem era Kongjian Yu
Nascido em 1963, na província de Zhejiang, na China, Yu se tornou referência global na arquitetura paisagística. Formado na Universidade Florestal de Beijing e doutor pela Universidade de Harvard, desenvolveu o conceito das “cidades-esponja”, pensadas para absorver grandes volumes de água e reduzir riscos de enchentes.
Suas ideias ganharam força após as chuvas de 2012 em Pequim, quando a cidade sofreu graves inundações que deixaram quase 80 mortos. Enquanto áreas modernas foram devastadas, a Cidade Proibida, construída séculos antes com sistemas naturais de drenagem, permaneceu seca. A partir desse episódio, Yu passou a influenciar projetos urbanos em mais de 70 cidades chinesas e de outros países, sempre com soluções baseadas na natureza.
No Brasil, Yu esteve recentemente na Bienal de Arquitetura de São Paulo, em 19 de setembro, onde foi uma das principais atrações da abertura. Após o evento, seguiu em missão ao Pantanal para conhecer a região e participar das gravações de um documentário sobre o conceito de cidades-esponja, em parceria com os cineastas paulistas que também morreram no acidente.
O que são as cidades-esponja
O conceito de cidade-esponja parte da ideia de que os espaços urbanos devem trabalhar em harmonia com a natureza. Em vez de investir apenas em concreto, tubulações e bombas de drenagem, as cidades precisam de áreas verdes, parques, lagos artificiais, telhados e calçadas permeáveis que permitam à água da chuva infiltrar no solo.
Dessa forma, a água é absorvida, armazenada e reutilizada, ajudando a reduzir enchentes, preservar aquíferos e melhorar a qualidade do ar e da vida urbana.
Além de mitigar desastres climáticos, as cidades-esponja promovem biodiversidade, aumentam áreas de lazer, melhoram o microclima e reduzem o impacto ambiental da urbanização. O modelo tem sido apontado como uma das soluções mais sustentáveis para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
Quem era Luiz Fernando Ferraz
Entre as vítimas brasileiras, o documentarista Luiz Fernando Feres da Cunha Ferraz tinha carreira marcada pela investigação de temas sensíveis e de forte impacto humano. Em 2021, dirigiu a série “Dossiê Chapecó: O Jogo por Trás da Tragédia”, realizada em parceria com a Pacha Films para a WBD/HBO. A obra investiga e reconstituiu o acidente aéreo de 2016 que vitimou 71 pessoas, entre elas jogadores, comissão técnica e jornalistas da Associação Chapecoense de Futebol.
O filme, exibido em festivais nacionais e internacionais, buscou dar voz aos sobreviventes e familiares, revelando histórias de dor, resistência e memória coletiva. A produção foi elogiada por sua abordagem sensível e cuidadosa, destacando-se no cinema documental brasileiro.
No momento do acidente em Aquidauana, Ferraz trabalhava em parceria com Kongjian Yu e Rubens Crispim Jr. na gravação de um documentário sobre o conceito de cidades-esponja, unindo sua trajetória de investigação crítica à pauta ambiental e urbana.
O acidente
A aeronave, um modelo Cessna prefixo PT-BAN, caiu ao lado da pista de pouso da Fazenda Barra Mansa. Funcionários do local presenciaram a queda e usaram um trator e caminhão-pipa para combater o fogo, mas não houve sobreviventes.
Segundo a delegada Ana Cláudia Medina, do Departamento de Repressão à Corrupção e ao Crime Organizado (Dracco), os corpos foram encontrados carbonizados. As investigações iniciais ficarão a cargo do Dracco e da Aeronáutica.
Legado interrompido
A tragédia interrompe a trajetória de Kongjian Yu, cuja obra já impactava cidades no mundo inteiro e servia de referência para a busca de soluções sustentáveis diante da crise climática. O arquiteto unia conhecimento acadêmico e prática inovadora, sendo também consultor do governo chinês.
O acidente também vitimou dois documentaristas brasileiros, Luiz Ferraz e Rubens Crispim Jr., que registravam justamente a contribuição de Yu e sua relação com o meio ambiente. O episódio reforça a dimensão da perda para a cultura, a ciência e o urbanismo global e reforça o alerta para o alto número de acidentes com aviões de pequeno porte.
Década com mais acidentes com aviões pequenos
Uma reportagem do Jornal Nacional de janeiro de 2025, mostrou que no ano anterior foi registrado o maior número de acidentes aéreos envolvendo aviões de pequeno porte em toda a década. Isso sinaliza um cenário preocupante para a aviação geral no Brasil, com ocorrências mais frequentes e riscos crescentes para pilotos, passageiros e comunidades próximas às rotas.
Entre os fatores destacados estão: falhas mecânicas, condições meteorológicas adversas, precariedade na manutenção das aeronaves e ausência de rigor em inspeções de segurança. Além disso, aponta-se que muitos desses aviões operam em regiões remotas ou com infraestrutura de aeroportos limitados, o que dificulta ações de prevenção e socorro.
O levantamento reforça a necessidade de um esforço institucional maior — envolvendo órgãos de aviação civil, entidades reguladoras e operadores privados — para fortalecer normas, fiscalização, treinamentos e cultura de segurança no setor.
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