
Antonio Neto, presidente da CSB, representou as centrais sindicais no ato em homenagem a Manoel Fiel Filho.
Durante o Ato em Memória a Manoel Fiel Filho, realizado no dia 19 de janeiro, na sede do Sindnapi, o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antonio Neto, proferiu um discurso em nome das centrais sindicais marcado pela defesa da memória, da verdade histórica e da democracia.
Em sua fala, Neto destacou que Manoel Fiel Filho era um trabalhador humilde, metalúrgico e pai de família, cuja trajetória de vida em nada justificava a violência que sofreu. O dirigente sindical ressaltou que Fiel Filho foi cruelmente torturado e assassinado pela ditadura militar, tornando-se símbolo da repressão contra o mundo do trabalho e da perseguição aos sindicatos durante o regime autoritário.
O discurso também enfatiza que preservar a memória e a história é um ato político essencial, sobretudo para impedir a relativização dos crimes da ditadura e evitar a repetição de práticas autoritárias no presente. Ao relacionar passado e atualidade, Antonio Neto reafirma que a democracia e os direitos trabalhistas foram conquistados com luta, sofrimento e vidas ceifadas, e que lembrar Manoel Fiel Filho é um compromisso permanente com a verdade, a justiça e a dignidade dos trabalhadores.
A seguir, publicamos a íntegra do discurso proferido por Antonio Neto no ato realizado no Sindnapi.
Íntegra do discurso de Antonio Neto, presidente da CSB
Companheiras e companheiros, amigas e amigos,
Sinto-me profundamente honrado em falar em nome das centrais sindicais aqui presentes: CSB, CUT, Força Sindical, UGT, CTB, Nova Central, CSP-Conlutas, Pública e Intersindical.
Hoje não é um dia qualquer. Hoje não estamos reunidos apenas para lembrar um nome. Estamos aqui para afirmar uma memória e, com ela, um compromisso histórico.
Lembrar Manoel Fiel Filho não é um gesto protocolar. Não é um rito qualquer. É um ato político, no sentido mais profundo da palavra: a decisão consciente de não permitir que o esquecimento vença a verdade.
Recentemente, ao falar sobre o filme O Agente Secreto, na cerimônia do Globo de Ouro, Wagner Moura disse algo que dialoga diretamente com este momento.
Ele afirmou que o filme é, acima de tudo, sobre memória — ou sobre a falta dela. Sobre trauma geracional. E sobre como sociedades que não elaboram seus traumas ficam condenadas a repeti-los.
Mas ele disse algo ainda mais importante: se o trauma pode ser transmitido de geração em geração, os valores também podem. E precisam ser.
É exatamente disso que estamos falando hoje.
Manoel Fiel Filho era um trabalhador. Metalúrgico. Pai de família. Um homem simples, como milhões de brasileiros que constroem este país com o próprio suor.
Nasceu em 1927, em Quebrangulo, no interior de Alagoas, e veio para São Paulo em busca de trabalho, dignidade e futuro.
Foi padeiro. Foi cobrador de ônibus. E, por quase vinte anos, operário metalúrgico na Mooca, um território histórico da classe trabalhadora paulista.
Nada, absolutamente nada, em sua trajetória justificaria a violência que sofreu.
Mas, há 50 anos, em janeiro de 1976, Manoel Fiel Filho foi preso em seu local de trabalho e levado ao DOI-Codi do II Exército.
No dia seguinte, estava morto.
A ditadura tentou mentir. Disse que foi suicídio. Disse que ele teria se enforcado com as próprias meias.
Mas a mentira não se sustentou. Ele foi preso de chinelo. Não tinha meias. E seu corpo carregava marcas evidentes de tortura.
Hoje, o próprio Estado brasileiro reconhece: Manoel Fiel Filho foi torturado e assassinado sob custódia do Estado.
É duro dizer isso, mas é necessário dizer.
Porque a ditadura não foi algo abstrato ou passível de relativização. Ela teve vítimas de carne e osso. Teve trabalhadores. Teve famílias destruídas.
E é fundamental lembrar: a ditadura perseguiu o mundo do trabalho. Perseguiu sindicatos. Perseguiu lideranças operárias. Perseguiu trabalhadores que ousavam se organizar, pensar e se informar.
Manoel Fiel Filho ajudava a difundir o jornal Voz Operária. E isso bastou para que fosse tratado como inimigo.
A ditadura sabia muito bem: onde o trabalhador se organiza, o autoritarismo treme.
Por isso, estar aqui hoje, cinquenta anos depois, é afirmar que eles não venceram. Mas é também um alerta.
Porque memória não é passado. Memória é presente. Memória é disputa permanente.
É exatamente isso que O Agente Secreto nos lembra.
Quando Wagner Moura afirma que o filme não existiria sem o Brasil recente, ele está dizendo que o autoritarismo não é uma página virada, infelizmente.
Ele reaparece quando a memória falha, quando o trauma não é elaborado, quando a violência de ontem é relativizada hoje.
Quando alguém fala em “excessos”, quando elogia ou exalta torturadores, quando tentam reescrever a história em nome da conciliação, não está falando do passado. Está testando os limites da democracia no presente.
Não há conciliação com o golpismo. Não há dosimetria que apague a violência daqueles que rasgam a democracia em nome da tirania.
Um país que aceita a tortura ontem passa a tolerar a violência hoje e pode normalizar o autoritarismo amanhã.
Por isso, lembrar Manoel Fiel Filho é um ato profundamente atual.
A democracia que temos hoje não caiu do céu. Ela custou luta. Custou sofrimento. Custou vidas.
Direitos trabalhistas, liberdade sindical e direito de organização existem porque trabalhadores resistiram, mesmo quando o Estado tentou esmagá-los.
E toda vez que direitos são atacados, que sindicatos são criminalizados, que o trabalho é precarizado e desumanizado, a história nos mostra que quem paga o preço primeiro somos nós: os trabalhadores.
Por isso, homenagear Manoel Fiel Filho não é apenas olhar para trás. É reafirmar um compromisso com o futuro.
Compromisso com a verdade, com a justiça e com a democracia.
E com valores que atravessam gerações: solidariedade, dignidade, organização coletiva e coragem.
Que o nome de Manoel Fiel Filho não seja apenas lembrança, mas alerta permanente.
Ditadura nunca mais. Tortura nunca mais. Nunca mais assassinato de trabalhadores pelo Estado.
Porque lembrar Manoel Fiel Filho, como nos lembram a arte, a história e a luta do povo, é escolher, conscientemente, de que lado da memória e de que lado da história nós queremos estar.
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