
Industria química em Cubatão-SP: ameaça de fechamento
O prefeito de Cubatão (SP), César Nascimento (PSD), vai pedir ajuda ao governo federal para tentar reverter o fechamento de indústrias históricas do município. Em menos de um ano, duas grandes empresas — Unigel e Yara Brasil — encerraram parte de suas atividades na cidade, agravando o processo de desindustrialização do polo da Baixada Santista.

O prefeito de Cubatão (SP), César Nascimento (PSD) e sindicalistas do setor químico
Nascimento planeja viajar a Brasília acompanhado de representantes políticos, empresariais e sindicais da região. O objetivo é sensibilizar o governo sobre a necessidade de rever a política tarifária aplicada ao setor petroquímico, especialmente à importação de fertilizantes.
“Vamos solicitar uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin para tratarmos dos reflexos do fechamento de fábricas instaladas na cidade”, disse o prefeito à Agência Brasil. “A perda de protagonismo de um polo industrial como o de Cubatão enfraquece toda a indústria nacional”, completou.
Processo de dumping chinês em análise
O prefeito também pretende pedir agilidade na investigação conduzida pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), sobre a prática de dumping nas exportações de produtos laminados de ferro e aço da China para o Brasil.
Um parecer preliminar divulgado em dezembro de 2025 já constatou indícios da prática, mas o prazo para conclusão da apuração foi prorrogado.
Encerramento das atividades da Unigel
Após quase 70 anos de operação, a Unigel anunciou, em janeiro, a paralisação da produção de estireno e tolueno em Cubatão. A empresa alegou enfrentar uma “baixa sem precedentes” na indústria química global e excesso de oferta de produtos petroquímicos no mercado internacional desde 2023.
Em recuperação judicial desde outubro de 2025, a Unigel acumula dívida superior a R$ 5 bilhões e decidiu concentrar sua produção de poliestireno na unidade de Guarujá, transferindo também parte da operação de São José dos Campos.

Herbert Passos Filho, presidente do Sindicato dos Químicos da Baixada Santista (Sindquim), em assembleia com trabalhadores da Unigel Estireno
Crise industrial e perda de empregos
Segundo a prefeitura, o fechamento da Unigel e de outras plantas industriais representa mais um capítulo do esvaziamento do polo de Cubatão, que já foi referência da industrialização paulista e nacional.
O presidente do Sindicato dos Químicos da Baixada Santista (Sindquim – filiado à Fequimfar), Herbert Passos Filho, lembrou que o município chegou a empregar mais de 12 mil trabalhadores na indústria petroquímica — número que hoje não passa de 3 mil.
“Cubatão já foi o principal polo produtor de fertilizantes do Brasil. O fechamento da Unigel simboliza a perda de uma parte importante da nossa história industrial”, afirmou Passos.
Dependência de fertilizantes importados
O sindicalista destacou ainda que a produção nacional de fertilizantes despencou de 11 milhões de toneladas anuais em 2008 para cerca de 6 milhões em 2025, enquanto o consumo interno aumentou para mais de 41 milhões de toneladas por ano.
Segundo ele, a crise foi agravada por políticas de isenção tributária a importadores, que reduziram a competitividade das fábricas nacionais.
Tributação e impasse com o agronegócio
A revisão do Convênio ICMS nº 26/2021, que elevou gradualmente o imposto sobre fertilizantes até 4% em 2025, é apontada como um dos fatores de desequilíbrio no setor. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) afirma que a medida aumentou os custos do agronegócio em R$ 11,74 bilhões entre 2021 e 2024.
“É preciso fazer escolhas. Estimular a indústria química é estimular empregos qualificados e melhor remunerados”, argumenta Passos.
Políticas de estímulo
O governo federal tenta reverter o quadro por meio de programas de incentivo. Em 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei nº 15.294, que cria o Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), prevendo mais de R$ 10 bilhões em incentivos fiscais até 2031.
Antes disso, em 2023, o governo havia retomado o Regime Especial da Indústria Química (Reiq), com benefícios tributários ao setor.
Alckmin reconhece dificuldades
Em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), o vice-presidente e ministro Geraldo Alckmin reconheceu que a indústria petroquímica brasileira enfrenta desafios de competitividade internacional, apesar das medidas de estímulo.
“O Brasil é favorável ao livre comércio, mas com regras. Precisamos de defesa comercial para proteger nosso setor produtivo”, declarou o ministro.
Ciesp lamenta e pede ações conjuntas
O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) também lamentou o fechamento das fábricas em Cubatão. Em nota, a entidade afirmou que tem buscado ampliar o diálogo com os governos para frear o processo de desindustrialização iniciado nos anos 1980.
“Embora o governo federal tenha adotado iniciativas como o Nova Indústria Brasil e o Brasil Mais Produtivo, ainda são necessárias medidas mais efetivas e integradas para garantir a sustentabilidade do setor e preservar empregos”, destacou o Ciesp.
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