
Redução da Jornada de Trabalho: Eletricitários deram o exemplo e implementaram a escala 4X3
O Brasil chega a 2026 diante de um desafio que não pode mais ser adiado: reduzir a jornada de trabalho e colocar um ponto final na desumana escala 6×1. Não estamos falando apenas de horários ou de turnos, mas de uma escolha sobre o modelo de sociedade que queremos. Uma sociedade em que o trabalho exista para garantir dignidade e qualidade de vida, e não para consumir a saúde, o tempo e a esperança das pessoas.
Desde a Constituição de 1988, quando conquistamos a jornada de trabalho semanal de 44 horas, praticamente não avançamos nesse debate. Enquanto isso, a tecnologia evoluiu, a produtividade cresceu e as empresas se modernizaram. Mas, para o trabalhador, o tempo continuou sendo tratado como mercadoria. Em muitos setores, a situação até piorou com a consolidação da escala 6×1, que impõe seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso. Essa lógica adoece, desgasta, enfraquece a convivência familiar, impede a qualificação profissional e compromete a saúde mental.
Por isso, 2026 precisa ser o ano em que o Brasil assume, de vez, a redução da jornada e o fim da escala 6×1 como prioridade nacional. O Congresso já discute propostas importantes, como a PEC 148/2015, do senador Paulo Paim, que prevê a redução progressiva da jornada para 36 horas semanais, e a PEC 8/2025, da deputada Erika Hilton, que enfrenta diretamente a lógica do 6×1. Também tramitam projetos que limitam a jornada a 40 horas semanais e garantem dois dias de descanso. Tudo isso é resultado da pressão do movimento sindical e da mobilização dos trabalhadores.
Vida Além do Trabalho
A bandeira do “Vida Além do Trabalho” expressa com clareza o sentimento que cresce na sociedade:
- Queremos produzir, sim, mas sem abrir mão da nossa vida!
- Queremos tempo para a família, para o estudo, para a saúde, para o descanso e para o lazer!
- Queremos dignidade!
E é importante afirmar com responsabilidade: reduzir a jornada sem reduzir salários é possível e viável. Experiências internacionais mostram que jornadas menores, quando bem organizadas, aumentam a produtividade, reduzem o absenteísmo e melhoram o ambiente de trabalho. No Brasil, estudos do Dieese indicam que a redução de 44 para 40 horas semanais poderia gerar milhões de empregos formais. Ou seja, reduzir a jornada também é política de geração de emprego e renda.
Do ponto de vista da saúde, os dados são contundentes. Crescem ano após ano os afastamentos por transtornos mentais ligados à sobrecarga de trabalho. Jornadas mais curtas reduzem acidentes, diminuem o estresse e elevam a qualidade de vida. Trabalhar menos não é produzir menos. É produzir melhor, com mais segurança, mais atenção e mais humanidade.
Para quem ainda resiste a esse debate, é preciso dizer com clareza: a redução da jornada não é inimiga da competitividade. Empresas que valorizam seus trabalhadores colhem ganhos em engajamento, eficiência e inovação. O que está em jogo é abandonar a lógica do desgaste máximo da força de trabalho e adotar um modelo moderno, sustentável e responsável de organização do trabalho.
Eletricitários como exemplo
No setor elétrico, essa discussão ganha um peso ainda maior. Nós, Eletricitários, já mostramos que é possível avançar além do mínimo legal. Em muitas empresas da nossa categoria, já conquistamos jornadas inferiores a 40 horas e superamos a lógica do 6×1. Isso prova que a redução da jornada não é utopia: é realidade quando há sindicato forte, negociação coletiva séria e compromisso com a valorização do trabalhador.
Agora, nessas empresas onde já avançamos, é hora de dar o próximo passo. Precisamos discutir e conquistar escalas ainda mais vantajosas, como a escala 4×3 para os setores administrativos, técnicos, analistas e áreas compatíveis com esse modelo. Trabalhar quatro dias e descansar três não é privilégio. É uma forma moderna, humana e eficiente de organizar o trabalho.
A escala 4×3 significa mais tempo para a família, para o estudo, para a saúde e para a vida pessoal, sem prejuízo da produtividade. Pelo contrário: trabalhadores mais descansados são mais concentrados, mais motivados e mais comprometidos com a qualidade do serviço que prestam.
No setor elétrico, que passa por profundas transformações tecnológicas, esse tempo também é essencial para a qualificação profissional. Mais tempo livre significa mais capacitação, mais atualização técnica e mais preparo para os desafios do futuro, como a automação, a digitalização das redes e a expansão das energias renováveis.
Reduzir a jornada e acabar com a escala 6×1 é afirmar que o tempo não é mercadoria, é direito. É dizer que desenvolvimento não se mede apenas pelo lucro, mas também pela qualidade de vida do povo. É fortalecer a democracia, porque só quem tem tempo consegue estudar, participar, conviver e exercer plenamente sua cidadania.
Em 2026, temos a chance de dar um passo histórico, assim como fizemos em 1988. Virar a página da escala 6×1 e reduzir a jornada é escolher mais saúde, mais empregos, mais dignidade e mais justiça social.
Esse é o nosso desafio. E também é a nossa responsabilidade.
Eduardo Annunciato (Chicão) é Presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo e da Federação Nacional dos Trabalhadores em Energia, Água e Meio Ambiente – FENATEMA, Diretor de Educação da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (CNTI) e Vice-presidente da Força Sindical.



