PUBLICADO EM 09 de jan de 2026

Colunista: Reflexões sobre o povo brasileiro

​O Macunaíma Diplomata: A Ontogênese da Multipolaridade e o Espírito dos BRICS

Entenda a Multipolaridade e o BRICS na construção de um diálogo entre mundos e no fortalecimento da diplomacia brasileira.

A multipolaridade e o BRICS moldam a nova ordem mundial e refletem a essência da diplomacia brasileira.

A multipolaridade e o BRICS moldam a nova ordem mundial e refletem a essência da diplomacia brasileira.

Nesta conclusão da nossa jornada ontológica, observamos o nascimento de uma Nova Ordem Mundial. Se a história do Brasil foi marcada pela tentativa interna de vencer a “Máquina de Morte” da necropolítica, a nossa projeção externa agora se apresenta como a síntese de uma Cosmogonia Aplicada: a capacidade de existir entre mundos, mediando o diálogo onde outros veem apenas conflito.

1. A Ontogenia da Mistura como Vantagem Diplomática

A diplomacia brasileira, estruturada sobre os pilares de Rio Branco, não é um mero conjunto de regras técnicas; é a expressão política da nossa ontogênese multicultural. Enquanto as potências tradicionais operam sob a lógica da exclusão ou da hegemonia (Marx diria, a exportação do capital e do poder imperial), o Brasil opera sob a lógica da conversação, da dialogia.

Como diria Humberto Maturana, vivemos num “multiverso”. O Brasil, por ser constituído pelo “sangue de todos os povos”, possui uma plasticidade ontológica única. Não vemos o “diferente” como uma ameaça existencial a ser eliminada, mas como um parceiro de acoplamento estrutural. No BRICS, o Brasil não tenta ser a China ou a Rússia; ele se posiciona como o nó que conecta o Sul Global, transformando a “malandragem positiva” em prudência diplomática.

2. O BRICS como Ecossistema de Morin: A Unitas Multiplex Global

Edgar Morin nos ensina o conceito de Unitas Multiplex — a unidade na diversidade. O BRICS é a materialização geopolítica desta ideia. Nele, o Brasil exercita seu papel singular:

  • A Mediação do Afeto Político: Enquanto o Norte Global muitas vezes impõe sanções e muros (a necropolítica das fronteiras), o Brasil, no BRICS, defende a soberania das nações como um direito à existência biológica e cultural.
  • A Prática do Multilateralismo: O Brasil utiliza a sua tradição de não intervenção (herança de Rio Branco) para criar um espaço onde países com sistemas políticos opostos possam cooperar. É a “Biologia do Amor” aplicada à política externa: o reconhecimento do outro como legítimo outro na convivência, mesmo que haja discordância profunda.

3. Exemplos Práticos da Experiência Brasileira nos BRICS

Como essa ontologia se traduz em atos? Podemos observar três frentes:

  • A Desdolarização e a Soberania Econômica: Ao propor trocas em moedas locais, o Brasil e seus parceiros desafiam a hegemonia de um sistema que Marx identificaria como a alienação suprema das nações. É a busca por uma autonomia que permita ao país financiar suas próprias políticas de vida (como o combate à fome) sem pedir permissão ao “Capitão da Morte” financeiro.
  • O Banco do BRICS (NDB) como Cuidado Social: Sob liderança brasileira, o banco foca em infraestrutura sustentável. Aqui, a técnica não serve apenas ao lucro, mas à manutenção do oikos (casa/planeta). É a complexidade de Morin unindo ecologia, economia e política.
  • A Diplomacia da Vacina e do Alimento: O Brasil projeta para o mundo o que aprendeu internamente. Se a fome foi vencida aqui pelo cuidado, o Brasil leva ao BRICS a tese de que a segurança alimentar é o alicerce de qualquer paz duradoura.

O Nascimento da Nação-Ponte

O Brasil que emerge desta série de reflexões é uma nação que, finalmente, aceitou sua complexidade. Não somos um povo “sem caráter” (no sentido pejorativo de Macunaíma), mas um povo de caráter polifônico.

No palco dos BRICS e da nova ordem multipolar, o Brasil expressa a sua maior singularidade: a capacidade de ser o ponto de equilíbrio num mundo em chamas. Nossa diplomacia é a arte de manter o diálogo biológico quando as máquinas de guerra pedem o silêncio.

Saímos do Mapa da Fome para entrar no Mapa da Governança Global com a autoridade de quem sabe que a única soberania real é aquela que protege a vida. O destino do Brasil na Nova Ordem Mundial não é ser uma potência imperialista, mas ser a Potência do “Encontro” que nos fala Jacob Moreno. O amor social, que venceu a necropolítica internamente, é agora a nossa principal commodity exportada para um mundo que esqueceu como viver junto.

Nota sobre a série: Esta caminhada atravessou a formação da nossa identidade, a dor da fome, a luta contra a política da morte e, enfim, a nossa maturidade internacional. Encerramos com a certeza de que a ontogenia do povo brasileiro é, em última análise, uma lição de resiliência e de insistência na vida, e que, no Concerto das Nações, podemos nos distinguir pelo diálogo em busca do Encontro.

Troca de Olhos: A metáfora de “arrancar” os olhos para colocá-los no lugar do outro, para vê-lo com os olhos dele e ser visto com os seus, promovendo a compreensão profunda.

Diógenes Sandim Martins é médico, diretor do Sindnapi e secretário-geral do CMI/SP



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