
Mamdani visita barbearias no Harlem. Foto: reprodução X @ZohranKMamdani
À medida que a poeira da recém-concluída eleição para prefeito assenta na consciência política de Nova York, um novo amanhecer começa.
Agora está confirmado que Zohran Kwame Mamdani, de 34 anos, é o prefeito eleito da cidade de Nova York. Mamdani, que se autodeclara socialista, é membro tanto do Partido Democrata quanto dos Socialistas Democráticos da América.
Sua vitória demonstra que a política burguesa orientada pelo mercado pode ser desafiada e derrotada por trabalhadores unidos em torno de uma agenda política clara e progressista.
Nova York é uma das cidades mais ricas do mundo, mas um em cada quatro de seus moradores vive na pobreza. Os custos de moradia, aluguel, creche, transporte, alimentação e outros itens essenciais tornaram-se inacessíveis para uma vida básica e digna.
Nessa cidade tão rica, mais de 500 mil crianças vão dormir com fome todas as noites. Em resposta a uma crise tão aguda, Mamdani oferece uma política de esperança em um mundo sem esperança marcado pelo capitalismo racializado nos EUA.
A campanha de Mamdani prometeu congelar os aluguéis, reduzir o custo das creches, dobrar o salário-mínimo, oferecer transporte público gratuito e aumentar as alíquotas de impostos corporativos. Ele também se comprometeu a estabelecer supermercados públicos, ampliar os serviços de saúde mental e promover a segurança comunitária em Nova York.
Essas políticas progressistas não são radicais o suficiente para uma transformação total, é claro, mas são uma resposta necessária ao momento e essenciais para a sobrevivência e a dignidade da classe trabalhadora de Nova York.
Pioneiros comunistas
De muitas maneiras, a vitória de Mamdani é herdeira de lutas históricas e mobilizações de massa lideradas por pessoas negras na cidade sob a liderança do Partido Comunista (CPUSA).
Durante os anos de Depressão pós–Primeira Guerra Mundial, sindicatos, trabalhadores da Works Progress Administration, a Workers Alliance, sindicatos de inquilinos, organizações de defesa jurídica e grupos culturais — sob a liderança do Partido Comunista dos EUA — de 1921 a 1939 mobilizaram as massas trabalhadoras e comunidades em torno de demandas semelhantes às que Mamdani está levantando hoje.
Grandes organizações negras, como a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), a Urban League, os garveystas e outros grupos negros e de direitos civis liderados por comunistas desempenharam um papel significativo na formação de uma política progressista e na proposição de plataformas políticas alternativas para enfrentar o capitalismo racializado na cidade.
Comunistas negros no Harlem, em particular, foram fundamentais no desenvolvimento das tradições políticas progressistas e das ideias de políticas públicas refletidas hoje na plataforma de Mamdani.
O racismo desenfreado e a depressão econômica criaram terreno fértil para o crescimento de uma política radical e progressista liderada pelo Partido Comunista no Harlem.
Mark Naison, em seu livro Communists in Harlem During the Depression (University of Illinois Press, 1983), documenta em detalhes as contribuições desses ativistas e movimentos.
Os comunistas estiveram entre os fundadores e principais organizadores do Renascimento do Harlem, que deu origem a poderosos movimentos culturais, políticos e intelectuais liderados por comunidades afro-americanas.
Esses movimentos floresceram nas artes, no cinema, na dança, na moda, no cinema, na música, na literatura, no teatro, na cultura e na produção acadêmica radical — lançando as bases progressistas da cidade de Nova York em um momento em que tanto líderes democratas quanto republicanos estavam mais preocupados em proteger seus interesses comuns em sistemas de exploração e desigualdade racial.
Esse padrão de colaboração política continua a ressoar hoje — por exemplo, quando o presidente republicano Donald Trump expressou apoio ao ex-governador democrata Andrew Cuomo durante a recente eleição para prefeito em Nova York.
O legado do Harlem
A vitória de Mamdani, conquistada apesar da feroz oposição da classe bilionária, se mantém como um testemunho do legado duradouro do Renascimento do Harlem. Ele herda sua política emancipatória, sua agenda progressista e seus ideais de justiça e igualdade que continuam a inspirar a classe trabalhadora da cidade.
A vitória de Mamdani espelha a heroica e histórica luta de 1968 contra a Universidade Columbia, quando a Frente Negra Unida no Harlem, a Sociedade Afro-Americana de Estudantes e os Estudantes por uma Sociedade Democrática confrontaram tanto a Universidade Columbia quanto o establishment político e econômico da cidade.
Eles se levantaram contra a gentrificação racista impulsionada pelos senhorios da classe dominante — e o povo de Harlem e Morningside Heights acabou vencendo essa luta. Os comunistas do Harlem não apenas lideraram movimentos locais bem-sucedidos, mas também desempenharam um papel vital em campanhas internacionalistas pela paz, solidarizando-se com o Vietnã e se opondo às guerras imperialistas.
Os homens, mulheres e inquilinos negros do Harlem e de Morningside Heights há muito servem como a bússola moral da política da cidade de Nova York, moldando as lutas da classe trabalhadora e abrindo caminho para vitórias como a de Mamdani.
Mesmo um olhar breve sobre o passado recente da cidade revela a profunda e contínua influência de comunistas e organizadores socialistas na formação de lutas de massa contra proprietários, máfias imobiliárias e a classe capitalista — tanto dentro de Nova York quanto além.
Revolucionários clandestinos, comunistas, líderes dos Direitos Civis e ativistas socialistas mantiveram vivas as bases progressistas da cidade ao longo de décadas de resistência.
Defendendo a vitória de Mamdani contra os reacionários
No entanto, forças reacionárias de todas as formas já começaram a atacar Mamdani. O caminho à frente será difícil, mas somente a persistência das lutas da classe trabalhadora e das batalhas ideológicas poderá garantir os ganhos duradouros dessa vitória política.
Para os progressistas, porém, sua vitória representa uma celebração da política da classe trabalhadora e um triunfo nascido de décadas de luta. Ainda assim, a história oferece um alerta claro sobre os limites do compromisso e os perigos da política colaboracionista praticada há muito tempo tanto por democratas quanto por republicanos — em nível nacional e dentro da própria cidade de Nova York.
Tanto democratas corporativos quanto republicanos continuam a sustentar os sonhos dos bilionários esmagando os sonhos, desejos e necessidades de vida, liberdade e sustento da classe trabalhadora na cidade e além dela.
O futuro da política, da liderança, da organização, da campanha e do movimento de Mamdani dependerá de sua capacidade de levar adiante os legados progressistas e radicais dos comunistas, socialistas e heróis dos Direitos Civis que moldaram a consciência política da cidade. Seu desafio é tornar suas agendas emancipatórias relevantes para o povo de Nova York hoje.
O economista político Bhabani Shankar Nayak é professor na London Metropolitan University.
Artigo publicado no People´s World e traduzido por Luciana Cristina Ruy
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